terça-feira, 27 de março de 2018

A Canção da Primavera


Acabo de tomar o café, remate da primeira refeição de 2018 no meu terraço com vista para a Felicidade.
Há muitos meses que não sentia aquele apelo irresistível do chiripiti, como complemento perfeito de um almoço com o mar aos pés em paisagem de fundo. Resisto à tentação mas, para  afastar   definitivamente as más energias, levanto-me da cadeira, despego o olhar do horizonte e dou uma espreitadela para o Casino.
Faltam 10 minutos para as três da tarde e já dezenas de pessoas fazem fila, à espera de quem lhes franqueie as portas. A maioria das pessoas tem mais de 50 anos e há uma percentagem significativa de mulheres de idade avançada. Talvez viúvas a gastar a herança que os maridos lhes deixaram. Envergonhado com pensamento tão  machista fixo-me no parque de estacionamento, onde os carros continuam a chegar a bom ritmo.
Olho novamente para o mar  que se espreguiça à minha frente, repousando da turbulência  em que andou nas últimas semanas, abanado por Giselles, Brunos, Anas e Davids.
A temperatura está amena e sinto  no ar, pela primeira vez este ano, os sinais da Primavera. De manhã havia gente a tomar banho na praia, bikinis de cores garridas contrastam com corpos da cor da areia, que avidamente procuram reter os raios solares e escurecer ra pele.
As portas do casino abrem-se e as pessoas precipitam-se para o seu interior. Não estou certo que a maioria acredite na possibilidade de ir ganhar dinheiro. O mais provável é que vão para lá matar o tempo.
Pergunto-me como é possível as pessoas meterem-se em salas onde a única luz que penetra é a das slot machines  a piscar  e ficarem ali sentadas , horas esquecidas, até que o dinheiro acabe ou as portas voltem a fechar, na expectativa de um prémio de algumas centenas de euros.
Como é possível resistir ao apelo do sol e do mar, à canção da primavera com todas as alergias e alegrias? Que fascínio encontrarão as pessoas numa slot machine ou numa mesa de jogo, quando lá fora a Natureza se lhes oferece retumbante, gratuita, numa simbiose de alegria e felicidade.
Será que essas pessoas sentem saudades do tempo em que viveram encarceradas em caixotes assépticos, 8 ou mais horas por dia, em troca do sustento de cada mês?
Não espero pela resposta. Saio de casa e volto para o paredão. Ali há vida. Há gente que ri. Há gente que conversa  sem o bloqueio dos  telemóveis. Gente que se olha, olhos nos olhos, mesmo que respaldados por lentes grossas de óculos escuros.
Espirro. Um. Dois. Três espirros. A Primavera entrou dentro de mim. Bem vinda sejas.

A Lei da Paridade é um embuste?

Não vou tão longe. De forma alguma alinho com os que consideram a Lei da Paridade um embuste mas, em minha opinião, é um insulto às mulheres e um atropelo à democracia.
Vejo que há muitas mulheres felizes com a Lei e ainda bem. Nesta matéria alinho (parcialmente) com o PCP e faço ainda uma pergunta: 
- O que vai acontecer nos organismos da administração pública onde a percentagem de mulheres em cargos de chefia é de 100%?