domingo, 6 de maio de 2018

Rua dos Cafés (3)





O Café Velasquez faz parte da minha história de vida. Situado numa praça com o mesmo nome, a escassos metros de minha casa, era “o meu café” durante as férias e continua a ser ainda hoje, quando vou ao Porto, local de paragem obrigatória.
Entre as muitas recordações deste café, encontram-se dois agentes da PIDE que costumavam sentar-se o mais discretamente que lhes era possível numa mesa próxima daquelas que ocupávamos, junto à tabacaria, atentos às conversas. Muitas vezes, ao pressentir a sua chegada, se estávamos a falar de política, mudávamos de conversa mas, a partir de determinada altura, decidimos gozar com eles, falando em código sobre as personagens mais mediáticas do Estado Novo.
O Velasquez foi também, muitas vezes, ponto de encontro antes ou depois dos jogos no estádio das Antas, local de partida para os Aliados, onde sempre se concentravam os festejos das conquistas do FC do Porto, mas também da selecção nacional. 
O Velasquez foi profundamente remodelado nos anos 90 e, quando fui lá pela primeira vez, depois de regressar de Macau, encontrei-o transfigurado. Felizmente não mudou o nome para Sá Carneiro, nome que a autarquia portuense deu à praça mas que, segundo creio, continua a ser conhecida pela maioria das pessoas como Velasquez.
Alguns ( poucos) dos meus amigos daqueles tempos ainda lá param diariamente e quando estou no Porto, em dias de semana, sei exactamente as horas a que os posso encontrar por lá. Continuam a ocupar as mesmas mesas, em detrimento da esplanada, o lugar que sempre que o tempo permite escolho para ler os jornais na manhã de sábado. Sem PIDES por perto, mas com muitas recordações.

12 comentários:

  1. Por mais vezes que vá ao Porto nunca conseguirei conhecer bem a cidade! falta-me a vivência do dia a dia, as recordações de anos passados...
    Gostei de ler!

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    1. Em qualquer cidade essa vivência é fundamental, Justine, mas no Porto assume particular importância.

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  2. Deve ser bom ter assim um lugar simpático e cheio de recordações. Seja onde for. Mesmo que só na memória.

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    1. No fundo, alimentamo-nos de memórias, Bea. Sejam elas boas ou más...

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  3. Sou apreciador do Velasquez, antes e depois da remodelação.
    Passagem obrigat´ria quando, em serviço ou lazer, visito a 'Inbicta'.
    Bom domingo, Carlos.

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  4. Uma experiência que já não tenho. A de ir a um café ou esplanada para encontrar alguém conhecido. Quando era solteira, sim, havia – e continua a haver – dois cafés italianos que era o nosso ponto de encontro, no centro da cidade, nos bairros que eram predominantemente italianos e portugueses.
    Neste bairro residencial não há cafés ou esplanadas.... e eu que adoro esplanadas à beira do mar/rio/lago!

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    1. Também sou fã de esplanadas, Catarina. Aqui no Estoril não tenho nenhum de referência, mas todas as manhãs ( se o tempo permite) leio os jornais numa esplanada.

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  5. A praça já mudou de nome, mas o café ainda não.
    Apesar de ter morado muito perto, o meu café foi sempre o PIOLHO.

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    1. A praça mudou de nome, mas só no papel, Teresa. Pelo menos as pessoas da minha geração continuam a chamar-lhe Praça de Velasquez.

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  6. Os meus amigos do Café Nicola nunca mais lá voltaram.
    Eu fui lá mais vezes que eles.
    Aquele abraço, boa semana

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    1. Foi também o que aconteceu com os cafés que frequentei em Lisboa, Pedro

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