quinta-feira, 8 de março de 2018

A estagiária




Encontrei-a no elevador. Era a nova estagiária. Jovem promissora, afiançaram-me os membros do júri que avaliaram mais de uma centena de candidatos. Cruzara-me com ela uma outra vez, quando ela andava a prestar provas. Reparei no seu ar bamboleante , contrastando com o vestuário super discreto.
 Na  véspera deste segundo encontro, a directora informara-me que no final do mês ela iria transitar para o meu departamento, pois eu era a pessoa indicada para puxar pelas suas potencialidades.
Cumprimentámo-nos circunstancialmente. Eu levava debaixo do braço “Dias Exemplares” do Michael Cunningham.  Mostrando que a diferença de idades para ela não constituía problema,  perguntou com à vontade:
 - Que andas a ler?
Mostrei-lhe o livro.
- Eh! Isso é um livro muito antigo!
Nunca leste o D. Quixote, pois não?
Ela embatucou.
Peguei-lhe no braço e conduzi-a até ao meu gabinete. Estivemos a manhã inteira a falar sobre livros.  Da parte da tarde pedi para falar com a diretora:
- Quem é que contratou esta jovem que não sabe distinguir Nietzsche de Kafka?
A directora baixou os olhos. Depois, a custo, lá me enfrentou e respondeu:
- Foi um erro de casting. Tenho a certeza que você a vai orientar bem e fazer dela uma boa editora. O potencial está lá, só é preciso despoletá-lo.
Tentei. Oh se tentei! Mas de cada vez que tentava meter naquela cabecinha noções sobre as técnicas da edição, recebia apenas como reposta um sorriso idiota e um generoso cruzar de pernas. Fiquei a saber que preferia cuequinhas azuis, mas cheguei a duvidar se ela as usava por saber que eu era adepto portista, ou se o azul, para ela, era uma cor sexy. 
Um dia conseguiu convencer-me a tomar um copo com ela ao fim da tarde. Sem cerimónias, pegou-me na mão e disse:
- Já percebi que te estás a esforçar, mas eu não estou nada interessada na edição. Interessa-me apenas o lugar. O teu lugar. Quando te reformares será meu e não te intrometas.
Antes de me reformar o lugar já era dela.
Ainda bem. É preciso dar lugar aos jovens e, principalmente, muita transparência no recrutamento.
Em tempo: Publiquei este post no "Crónicas on the rocks" em Março de 2014. 

2 comentários:

  1. Subiu na horizontal??
    Não vamos fazer de conta que isso não acontece e que é só assédio e nada mais, não é?

    ResponderEliminar
  2. Ora a grandessísima GALDERIA!!Existem, sem dúvida, galdérias e galdérios, num país que durante muitos anos se tem prestado a isso. Compadres e compadrios, sobrinhos e afilhados...e agora catedráticos de Massamá sem ponta por onde se lhe pegue. Gostei imenso de ler este texto. Obrigada. Fiquei triste com o desfecho, isso fiquei. M.

    ResponderEliminar