quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Quilómetros de mulheres nuas...




Quando estou “chateado” com o Brasil, mergulho na leitura das crónicas de Nelson Rodrigues. Podia escolher um dos “meus” autores, mas esses não me ajudam a aliviar a dor que sinto quando vejo o  país das minhas origens a resvalar para uma tragicomédia.  "Eles" escrevem as coisas que eu gosto de ler e  vão ao encontro daquilo que eu próprio penso, mas não me animam.
As crónicas verrinosas  de  Nelson Rodrigues, se bem que marcadas por um conservadorismo serôdio e  uma rejeição liminar das transformações das décadas de 60 e 70, nomeadamente no que concerne aos jovens são, em muitos casos, o retrato da sociedade brasileira do século XXI e isso merece uma profunda reflexão.
Por estes dias, ao reler uma dessas crónicas, dei por mim a dizer aos meus botões:
“Eureka! É Isso mesmo…"
Na crónica em questão Nelson Rodrigues relata uma conversa com o jornalista e escritor Otto Lara Resende de que se tornara amigo quando ambos trabalhavam na redacção do jornal “O Globo”. Amizade que, diga-se, muito espantou amigos de ambos, pois Nelson e Otto tinham personalidades, ideologias  e formas de vida radicalmente diferentes. Para não dizer opostas…
Na crónica em apreço Nelson Rodrigues descreve um diálogo que manteve com Otto Resende, quando regressavam ao Rio de Janeiro após um almoço com o psicanalista Hélio Pellegrino- figura incontornável da esquerda brasileira.  Fazendo os dois o percurso entre o Forte e o Leme,  dissertavam sobre o Brasil da época.
No centro da conversa estava o salário de 100 milhões de Chacrinha, o super famoso comunicador brasileiro que se celebrizou com a frase “Na televisão, nada se cria. Tudo se copia”. A celeuma no Brasil foi enorme, com esquerda e direita a digladiarem-se na acusação e defesa do salário de Chacrinha.
Otto e Nelson estavam, como quase sempre, em campos opostos mas, durante o regresso ao Rio, concordaram  que estavam a viver os tempos de “um Brasil Novo, construído pelo povo mais lindo do mundo”.  No cenário proporcionado por aquele itinerário praiano, Otto não se terá contido e, assumindo-se como “a Idade Média atirada no meio dos umbigos em flor” exclamou:
“ 18 quilómetros de mulher nua!" Nudez múltipla, molhada, inédita no mundo, completou Nelson. E - presumo com aquele tom verrinoso que caracterizava as suas crónicas.  acrescentou : "este é o prenúncio de um Brasil novo”
 "Eureka!" disse eu para os meus botões quando acabei de reler a crónica.
  "Também me parece que, por estes dias, o Brasil pouco mais tem para dar ao mundo do que  centenas de quilómetros de mulheres nuas".
Estou a referir-me ao Carnaval, obviamente...


6 comentários:

  1. O único atractivo do Carnaval para mim é mesmo ver as bailarinas.
    O resto não me diz nada.

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  2. Confesso que no desfile dos corpos a nudez até me passa despercebida. Bom, despercebida não será, as mulheres são monumentos vivos e admiráveis. Mas são muitas. E a quantidade estraga um pouco o efeito.

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    1. Plenamente de acordo, Bea. Quando passeio no paredão, por exemplo, sou muito mais atraído para olhar corpos estendidos na areia, fora da época, do que no Verão.

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  3. Opá, não podes pespegar com essas três imagens no início da publicação e esperar que consiga concentrar-me para ler o resto... ;)

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    1. Pois é Patife, há sempre quem prefira ler banda desenhada, do que Dostoievsky :-))))

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