segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Quando as torneiras secarem

Todas as fotos deste post foram retiradas da Internet


Volto à cidade de Cabo.

A escolha justifica-se, porque creio ser difícil aos cidadãos ocidentais, repimpados nas maravilhas das novas tecnologias, imaginar que dentro de pouco tempo poderão não ter acesso a velhas tecnologias, como água canalizada a brotar das torneiras, por exemplo.
Já experimentei viver com água racionada em algumas zonas do globo fustigadas por secas prolongadas, onde a miséria é indescritível  e inimaginável para os padrões de vida ocidentais. Posso dizer-vos que não é nada agradável. 
Enquanto a seca só afectava as regiões  mais pobres do mundo, o mundo “civilizado” não deu grande importância. Afinal o Sudão do Sul é um inferno na Terra…  e os muitos milhões de seres humanos sem acesso a água potável vivem nessa zona miserável do globo, a que chamam de Terceiro Mundo
Agora, porém, a seca começa a ameaçar grandes metrópoles, como  Cidade do México ou Melbourne.
A situação mais grave vive-se, porém, na maravilhosa, luxuosa, ambígua, contraditória e exclusiva cidade do Cabo.  As famílias mais pobres há muito se habituaram a ter de percorrer diariamente longas distâncias, para acarretar água.
Já na zona mais luxuosa, onde estão as  mansões das famílias mais abastadas, as piscinas deixaram de ter a função para que foram construídas e estão a ser  utilizadas como reservatórios de água. 
Em Setembro, os quatro milhões de residentes  ainda podiam gastar 150 litros de água diariamente. Desde o início de Fevereiro  estão restringidos ao uso de 50 litros ( abaixo dos mínimos recomendados pela ONU)  o que significa, por exemplo, tomar banho uma vez por semana,   ter de recorrer a sanitas secas de compostagem e habituarmo-nos a uma série de artifícios  de “reciclagem” caseira.








O que mais impressiona e  faz de qualquer ambientalista aprendiz um  cidadão iracundo, é o facto de as autoridades sul africanas saberem, desde 1990, que no prazo de 20 anos as torneiras iriam secar na cidade do Cabo, se não fossem tomadas medidas adequadas. Ninguém ouviu os conselhos e advertências  de cientistas e ambientalistas e o resultado está à vista: as autoridades prevêem que, se a seca continuar ( praticamente não chove há três anos), o Dia Zero ( dia em que a água deixará de brotar das torneiras) deverá ocorrer entre Maio e Junho.

Será difícil imaginar quatro milhões de habitantes  a terem de deslocar-se, diariamente,  dezenas de quilómetros para se abastecerem em pontos indicados pelas autoridades.  Para além das questões logísticas que envolvem um problema desta magnitude, haverá consequências gravíssimas em termos económicos, sociais e de saúde pública. Centenas de milhares de pessoas ficarão sem emprego mas, os que conseguirem manter o seu posto de trabalho, como arranjarão forma de ir para as longas filas da água, onde terão de passar horas?



Não quero lançar o pânico, nem ser catastrofista, mas face ao que se está a passar em várias regiões do nosso país, com as barragens praticamente secas e a esperança de reposição significativa ser escassa, é altura de começar a encarar seriamente a necessidade de restrições. E se não chover, ou  se multiplicarem os incêndios estivais, é imperioso que se tomem medidas preventivas. Antes de racionar a água nas torneiras, há muita coisa a fazer. Para além de campanhas de sensibilização para poupança de água também é necessário ser implacável com quem não limpar as matas, ou fizer queimadas ilegais.
Toda a irresponsabilidade individual  que ponha em risco o bem comum deverá ser severa e exemplarmente punida. Sem contemplações. É altura de os tugas aprenderem a viver em sociedade e não incrustados nos seus mundos eivados de egoísmo, onde apenas conta o seu próprio interesse.


Em tempo: este post foi escrito ontem. Não sabia, por isso, que o "Público" iria publicar hoje um extenso dossier sobre a seca em Portugal. Congratulo-me ao ver que um dos jornais de referência lança alertas muito semelhantes aos que aqui deixo. É mais um sinal de que o assunto é sério e não pode ser desvalorizado pelo governo, nem  escamoteado  pela sociedade civil. 

3 comentários:

  1. O assunto é sério,é verdade.Porém não se ouve uma palavra séria sobre ele. Muito alarmismo, muito berreiro,muito atar de mãos na cabeça...
    E no entanto temos que pôr mãos à obra,um vício do Sócrates que lhe saiu caro...Podemos também fazer de mortos e logo não corremos o risco de errar... Adiante! Quais os rios de Portugal que mantêm o seu caudal nestas circunstancias? Quais as zonas de maior pluviosidade no país? Há estudos muito rigorosos sobre esta matéria. Como podemos aumentar a capacidade das albufeiras existentes? Alguém em Portugal já ouviu falar em transvases? Se ninguém sabe o que isso é perguntem aos espanhóis,eles sabem umas coisas disso. Perguntem-lhes para onde levam as águas do Douro,do Tejo e do Guadiana e se sim ou não todos os rios espanhóis estão ligados por transvases! E entretanto, por cá, nós íamos indo além da Troika!!! Dá vontade de chorar,não dá?

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  2. Concordo com o que escreve; a seca veio para ficar, não é coisa passageira, de um ano ou outro, é assunto sério e assim tem de ser tratado. Há que fazer aproveitamento de águas caseiras para a rega, que aproveitar a água da chuva quando caia, e outras poupanças quotidianas...mas se não haja mais que medidas desta natureza e se só alguns as tomam, são gotas de água em oceano. O plano tem que ser concertado, vigiado e abranger o universo português.

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  3. É desvalorizado pela loira mais loira do Planeta, Carlos :(

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