terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Por quem os rios morrem





No início do Outono a fonte do rio Douro secou e surgiram notícias sobre a ameaça de morte do Tejo. De uma assentada a morte ameaça os nossos dois maiores  rios, mas a situação,gravíssima,  nem sequer abriu telejornais, nem  foi notícia de primeira página na imprensa portuguesa.
Esta situação é bastante elucidativa sobre as prioridades da nossa comunicação social e da  opinião pública.
Ambas expressam  facilmente a sua indignação  sobre questões políticas ou clubísticas mas, quando estão em causa situações que afectam directamente o nosso quotidiano, as pessoas reagem com um encolher de ombros, um lamento esquivo ou, quando muito, um dedo acusador às alterações climáticas.
Seria importante que, de uma vez por todas, percebêssemos que a defesa dos nossos recursos naturais- nomeadamente fluviais, agrícolas e florestais - está nas nossas mãos. Temos obrigação de nos revoltarmos e desencadear um sobressalto cívico, com o objectivo de salvaguardar o nosso património ambiental.
Atendo-me especificamente ao caso dos rios Tejo e Douro, é importante sublinhar que as alterações climáticas não são as únicas - nem sequer as principais- responsáveis pela situação gravíssima que  afecta os nossos dois maiores rios.

A morte do Tejo é uma morte há muito anunciada. O problema começa na origem, com o impacto provocado pela central nuclear de Almaraz, mas é mais profundo e estende-se ao longo de todo o percurso do Tejo. As descargas de efluentes industriais em vários pontos do percurso do rio, nomeadamente as  da responsabilidade das celuloses na zona de Vila Velha do Ródão,estão a contribuir para acelerar a morte do Tejo.
Em nome da defesa de postos de trabalho no interior, têm sido permitidos atropelos inadmissíveis à legislação em vigor, sem que os culpados sejam responsabilizados e severamente punidos. O espectáculo desolador provocado pela(s) última(s) descarga(s) no Tejo, que mataram milhares de peixes e inviabilizaram a  campanha da lampreia fizeram soar algumas campainhas de alarme e  todos os partidos exigiram medidas restritivas e punições exemplares para as empresas prevaricadoras. 
Curiosa unanimidade! Os partidos que pedem agora punições exemplares, são os mesmos que, por unanimidade, chumbaram a proposta do BE para redução drástica das descargas poluentes.
Em relação ao Douro, não se pode escamotear o efeito nefasto do excessivo trânsito fluvial, expresso nos cruzeiros de turismo, cujo exponencial crescimento  tem afectado negativamente todas as vertentes ambientais. Também os investimentos danosos que a pretexto de "projectos de interesse estratégico" têm sido feitos no Douro, colocando inclusivamente em risco o reconhecimento de Património Mundial da Humanidade, contribuíram significativamente para a doença que afecta o Douro. Há, todavia,uma boa notícia. Depois dos atentados de Foz Coa, do vale do Tua e do Sabor, perpetrados com a conivência do Estado, a Agência Portuguesa do  e a Direcção Geral do Património Cultural travaram o projecto da construção de um gasoduto, que a REN pretendia construir no Alto Douro Vinhateiro.
É certo que uma andorinha não faz a Primavera, mas há razões para encarar o futuro com optimismo, após este primeiro bater de pé do Estado às pretensões dos grandes interesses económicos, contrários aos das populações

3 comentários:

  1. Meu caro Carlinhosamigo

    Assino por baixo.

    Abraão do teu amigo
    Henrique, o Leãozão

    Já o disse muitas vezes: gostarei de te ver na NOSSA TRAVESSA para ler e comentar o artigo de minha autoria com o título Profissão: morte. Aliciante? LÊ e comenta

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  2. Um excelente texto Carlos. Oxalá esse travão não venha a ser retirado. E que sirva de exemplo.

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  3. Também tenho esperança que se comecem a tomar medias muito sérias para parar estes atentados.
    Basta!!

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