quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Justiça, uma ova!





Não é pelo facto de as investigações incidirem  agora sobre o presidente do SLB e um juiz ex-candidato à presidência do clube encarnado, que vou mudar a minha opinião sobre a justiça. Bastaria o facto de saber que ainda antes de se iniciarem as buscas à casa do juiz Rui Rangel, já lá estavam dois jornalistas da revista Sábado, para confirmar que  a justiça se assumiu como actriz principal do espectácuo mediático.
Como sabe quem há mais tempo me acompanha aqui no CR, deixei de acreditar na Justiça quando frequentei a Faculdade de Direito e percebi que tudo funcionava num sistema de castas.
Já passaram quase 50 anos desde que me desiludi e  não é preciso ser muito perspicaz para perceber que pouco mudou desde então.
A justiça existe para punir os pés descalço e o crime violento. STOP.
O peixe graúdo só é apanhado nas teias da justiça quando estala uma guerra entre facções e se zangam as comadres. (A maioria dos crimes de colarinho branco começa a ser investigada a partir de denúncias anónimas).
A partir daí, os apaniguados de cada uma das partes começam a movimentar-se  e a mexer as peças de xadrez melhor colocadas. Começa então a valer tudo, sendo que a comunicação social se revela a mais forte arma, pois permite fazer julgamentos populares e condenar na praça pública, mesmo que depois haja absolvição nos tribunais.
Neste momento há vários cidadãos, supostamente respeitáveis, sob suspeita, porque na guerra de facções vale tudo. Julgamentos em praça pública incluídos.
Sinto um enorme pavor quando vejo acumularem-se indícios de  que em Portugal se está a entrar num caminho conducente à politização da Justiça
A actuação dos agentes da justiça está a contribuir para a descredibilização das instituições e o descrédito da própria  democracia e seus intérpretes. 
Era expectável que a direita europeia aproveitasse a insídia permitida pelo MP, para levantar suspeições sobre Mário Centeno mas, para o MP, a única coisa que importa é criar junto da opinião pública a ideia de que está a fazer justiça e não a aplicar golpes baixos, mascarados de justiça.
Como escrevia ontem André Macedo no Jornal de Negócios  "a Justiça tem obrigação de distinguir entre uma investigação no gabinete de um ministro, ou na casa de um magistrado e uma rusga a um bar de alterne".
Ao misturar tudo e recorrer constantemente ao apoio da comunicação social, a justiça está a demitir-se da sua função. É isso que os acérrimos defensores de Joana Marques Vidal, entusiasmados com o excelente funcionamento da Justiça e o desempenho da PGR, ainda não perceberam.

2 comentários:

  1. Um aplauso para o seu texto, caríssimo Carlos.

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  2. As moscas e os tigres como dizia Deng Xiaoping, Carlos.
    É muito fácil e muito menos arriscado apanhar as primeiras.

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