segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Memórias em vinil (CCLIII)

Hoje tinha mesmo de ser esta.
Boa noite e boa semana!

Mariano Rajoy: há um Maduro na Europa

Não é líquido que o “ Sim “ à independência  vencesse um referendo realizado em condições normais na Catalunha.
O referendo realizado no domingo  pode ter sido visto por muitos, como ilegal e mesmo uma fantochada mas, graças à  inabilidade e intransigência de Rajoy, teve uma repercussão internacional que permitiu aos independentistas atingir os seus objectivos e coloca em grande dificuldade o governo de Madrid.
Ao recusar a via do diálogo e optar pela  violência, Rajoy não só  perdeu a razão como deu  pretexto à vitimização dos independentistas catalães e  motivou milhares de pessoas a unirem-se contra o poder de Castela. Pior ainda, Rajoy conseguiu que a Catalunha ganhasse a simpatia da opinião pública internacional e desbaratou qualquer hipótese de congregar apoios  da Comissão Europeia.
A imagem que fica na opinião pública europeia é a da violência desmesurada, da repressão gratuita e da intransigência. Os catalães aparecem como vítimas e  Rajoy como um Maduro europeu que só conhece a violência como forma de diálogo.
Era expectável que depois do triste espectáculo  na Catalunha, das críticas generalizadas ao uso da violência e de perceber que não tinha apoios na Europa, Rajoy tivesse aberto uma porta ao diálogo.
Em vez disso, numa manifestação inequívoca de autismo, Rajoy extremou posições. Incapaz de perceber que contribuiu inequivocamente para a inevitabilidade da independência da Catalunha, o chefe do governo espanhol está a dar pretexto para que aconteça o que pretendia evitar: o renascimento de movimentos independentistas noutros governos regionais, nomeadamente no País Basco.
Adivinham-se tempos muito conturbados em Espanha e os estilhaços da crise não deixarão de afectar Portugal.

Desculpem se me enganei...


Os resultados das eleições autárquicas apenas surpreenderam pela dimensão da vitória do PS e pelo estrondo da derrota do PSD.
Era inimaginável que depois da vitória esmagadora de 2013 - e com perdas anunciadas em virtude de convulsões internas a nível local -  o PS conseguisse alcançar a maior vitória autárquica de sempre. Ao conquistar mais nove  câmaras (15) em 2017, mais mandatos e mais votos, o PS resistiu categoricamente ao habitual desgaste dos partidos do poder.
O lado mau desta vitória é ter sido cimentada graças à conquista de 10 câmaras à CDU. Esta intrusão em territórios historicamente comunistas ( Almada e Castro Verde são dois bons exemplos) não colocará em risco a geringonça, mas colocará mais dificuldades a António Costa e confirma a improbabilidade de  renovar a geringonça em 2019.
A humilhante  derrota do PSD também não é   uma boa notícia para o PS de António Costa. O pior resultado de sempre  dos laranjinhas ( apenas 79 câmaras-menos dez que em 2013) e as humilhações sofridas em Lisboa, Porto, Coimbra e outras grandes cidades não deixam alternativa a PPC. A única saída possível é não se recandidatar à liderança do PSD, deixando caminho livre a outro candidato que restitua ao PSD o estatuto de maior partido da oposição e líder da direita.
O CDS apenas conquistou mais uma câmara do que em 2013 (6), mas o grande resultado em Lisboa confere a Assunção Cristas um poder negocial numa futura aliança com o PSD, que os centristas nunca conseguiram alcançar com Paulo Portas.
Aconteceu o que eu aqui previra quando Cristas anunciou a sua candidatura a Lisboa: o PSD só poderia evitar uma derrota humilhante se encontrasse um candidato fortíssimo. Como isso me parecia inviável, aconselhei-o a aliar-se ao CDS para mascarar a derrota. Não ouviu os meus conselhos, tramou-se. E foi bem feito...
  Mas, atenção... porque os entusiasmos com Cristas podem ser demasiado perigosos
A partir de hoje o xadrez político vai sofrer alterações significativas, mas ainda é cedo para perceber os contornos das mudanças que se adivinham. A resposta dependerá, em grande  parte, das alterações na liderança do PSD. Entre um líder que recupere o papel do PSD na democracia portuguesa ou um herdeiro de Passos Coelho haverá uma diferença substancial que não deixará de influenciar o espectro partidário.