quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

De Balthus a Antonioni: os fundamentalistas são os outros?




Há semanas li a notícia de uma petição nos EUA, "exigindo" a retirada de um quadro de Balthus ( Therese Dreaming, 1938) em exposição no Metropolitan Museum of Art.
Argumentavam os peticionistas que no quadro estava uma jovem numa pose que " contribui para uma visão romântica  do voyeurismo, reduzindo as crianças a objectos".
Se os peticionistas não fossem indignados ignorantes ( eles sim, com uma forte dose de perversão) saberiam que Balthus fez o primeiro esquema deste quadro com 11 anos. Embora fosse um prodígio, não é provável que fosse perverso.
Demonstrando alguma sensatez, a direcção do Metropolitan Museum mandou as peticionistas bardamerda, explicou-lhes (entre outras coisas) que a figura do quadro de Balthus é andrógena  e manteve o quadro em exposição.
Não estaria aqui a escrever sobre o episódio, não fora o caso de, em plena época natalícia, ter deparado com este artigo no Libération.
A autora, professora universitária não chega ao ponto de reclamar a colocação no índex de "Blow up", mas  considera o filme ignóbil e perverso, porque maltrata as mulheres.

Confesso que me começa a irritar este puritanismo feminista, fruto das ondas de choque provocadas  pelo caso Weinstein. Quando em nome de um  pretenso puritanismo sexual se começa a tentar proibir obras de arte, ou a condicionar a expressão artística, em função de interpretações subjectivas de grupúsculos que não conseguem discernir entre arte, assédio sexual ou violência doméstica, estamos perante fundamentalismos tribais.
Não raras vezes, os/as  fundamentalistas encontram nas redes sociais o pasto necessário para que as suas ideias minoritárias, ridículas e retrógradas, (normalmente assentes numa assinalável ignorância sobre as obras que condenam, como acontece no caso do quadro de Balthus)  ganhem dimensão e  angariem adeptos. Esta é uma das perversões da globalização. A outra é a prova de  que no mundo dito civilizado há muito mais talibãs e jihadistas, dispostos a destruir séculos de evolução social e a vilipendiar as imagens das grutas de Lascaux, do que poderíamos imaginar.

4 comentários:

  1. Essa escumalha pretensamente puritana mete-me nojo, Carlos.
    Aquele abraço, que 2018 seja um ano Fabuloso!

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  2. Filme que eu revi nem sei quantas vezes (imagine que escrevi verdes), procurando encontrar sempre mais algum detalhe ou pormenor. O mundo entrou em paranoia (as activistas francesas que conheci através de livros e filmes não era isso que defendiam. Hoje só há maldade e não humanidade. Uma coisa que tem facilitado muito a vida aos médicos. Dantes os pediatras até sentavam a s crianças no colo para elas estarem mais seguras, imaginem se fossem fazer isso hoje. Por outro lado os médicos já não nos auscultam, mandam-nos fazer uma radiografia, já não fazem partos mas cesarianas, porque não querem jogar com a incerteza das horas e dos calendários, etc. Apesar de tudo eu também não tenho muito boa impressão de muitos artistas. Acho e bem que todos devem ter um pouco de loucura, mas quando vi o filme do filho sobre Paula Rego, fiquei um pouco admirada (talvez por isso algumas obras dela me assustem), e imagine que fiquei a fazer contas para saber as idades em que lhe aconteceram certas coisas bem com ao Victor. Enfim, como o mundo é maravilhoso fica esta canção:
    https://www.youtube.com/watch?v=vvjhsZYaofk&feature=share

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    Respostas
    1. Anphy:), tudo tem uma razão, a pintura de Paula Rego também. Eu gosto dela assim meio grotesca. Nós somos é mesmo assim, mas nem damos por isso. Embelezamo-nos por fora e o dentro é tão feiozinho e não tem roupas bonitas, nem iluminação de jeito, nem um artifício que esconda ou disfarce.
      Obrigada pela canção. A si e ao cantor. Somos todos de passar. Mas há quem passe devagar e perfume o nosso caminho. Benditos esses.
      E que 2018 lhe traga surpresas boas.

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  3. Passando, vendo, lendo, elogiando, anunciando:
    .
    Tema: *Geladas gotas na dor da separação*
    .
    E desejando:
    .
    Que o Ano Novo de 2018, entre na sua vida através da porta do coração, trazendo: Saúde, Fraternidade, Paz, Amor, gosto pela Partilha.
    FELIZ ANO NOVO

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