quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O drama,a tragédia o horror...



Como se o resto do país não existisse,  é pelo meridiano dos gabinetes espalhados pela capital  que pessoas que não conhecem o país a norte do eixo Montejunto/ Estrela, tomam decisões que afectam centenas de milhares de pessoas no país inteiro.
Manifesto sempre concordância quando ouço as pessoas protestarem contra o excesso de centralismo em Lisboa, ou a desertificação do interior. Garanto-lhes o meu apoio, mas ciente de que as coisas não mudarão.
Sempre que um governo pensa descentralizar o Estado, levanta-se um coro de indignados. Alapados nos gabinetes, acomodados à vidinha na capital, intervalada com uns fins de semana prolongados no Algarve, ou a ida anual à terrinha, os lisbogueses insurgem-se contra ideia de descentralizar um serviço público. Como está a acontecer por estes dias com o Infarmed.
O país não muda porque os portugueses não mudam e, na verdade, ninguém na política, nem a trabalhar para o Estado, está interessado em que as coisas mudem. Na capital é que se está bem. A ideia de ir trabalhar para longe dos centros  da intrigazita e dos joguinhos de bastidores que garantem as promoções, aterroriza qualquer funcionário público, seja ele médico, professor, ou técnico do Estado.
A ideia de mudar de residência e de hábitos ( mesmo que isso implique uma melhoria do nível e da qualidade de vida) é um drama, uma tragédia, um horror, para qualquer trabalhador assalariado neste país.

9 comentários:

  1. Eu por acaso sou nado e criado no Porto e acho que a transferência do Infarmed é uma ideia absolutamente peregrina... Alguém falou com os funcionários para perceber o que queriam, sendo que alguns têm a vida em Lisboa com os custos associados a uma mudança (empréstimos bancários, filhos na escola, etc)? Naah, anuncia-se e depois logo se vê. Alguém estimou os custos de tal coisa numa altura em que o Estado está sem dinheiro, incluindo a construção de eventuais novas infraestruturas e indemnização das pessoas, entre outras questões? Naah, anuncia-se e depois logo se vê. O problema não é o drama, a tragédia e o horror. O problema é que aqueles que defendem a descentralização ou mesmo a regionalização não fazem contas, limitam-se a arrostar contra a moirama, quando ainda por cima, o Porto não é exatamente o parente pobre do País, que é, isso sim, o interior. Com regionalistas destes, dediquem-se lá ao FCP, que os centralistas bem podem dormir descansados... Se em vez disso defendessem a criação de raiz de um Laboratório Associado no Porto dedicado à investigação médica, eu não poderia estar mais de acordo. Só que isso leva tempo, pelo que mais vale governar a golpes de caneta...

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    1. Se me permite, remeto-o para a resposta que dei ao comentário da Bea. Acrescento apenas que concordo com a sua proposta e com outra que já vi aí pelas redes sociais, de localizar no Porto o serviço que vai ser criado para as florestas.

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    2. Não faria sentido o dito serviço das florestas ficar mais a Sul do Porto? Ou mesmo menos na Costa e mais na "floresta"? Se é para fazer de raíz os apologistas da descentralização podiam ter proposto outras sedes de distrito como Viseu, Coimbra ou Leiria, para falar só em cidades a norte do Tejo...

      Se calhar o que importa é menos descentralizar mas mais portocentrar...

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  2. Desta vez não concordo consigo. E nem consigo entender essa mudança. Já ma explicaram, mas não lhe encontro razões válidas. Pode que as tenha. Pode que seja eu a puxar por cerca de 400 pessoas que, repentinamente não vão de Lisboa para Sintra, Almada, Amadora, ou mesmo Setúbal. Mas de Lisboa para o Porto. E não me interessa sequer se são mulheres ou se têm filhos pequenos, o fado do bandido já conheço e não gosto. Nada disso é decisivo. Decisivo são 300 quilómetros, ficam a 300km de casa. E os senhores da descentralização (ah, agora é que se lembraram de descentralizar... e logo para o Porto que é uma região que precisa muito de ajuda, está pobre e maltratada, não tem nada de nada, é quase um deserto. Ou terá a ver com o facto de o Porto não ter sido escolhido? Se calhar não, é só um rebuçadinho que eles merecem os queridos meninos do Porto). Mas, sei lá, podiam por exemplo começar por descentralizar de raiz e assim os concorrentes ao emprego já sabiam com que contar. Mas não. Têm casa na Amora? Vendam tudo, mudem as crianças de escola (ou deixem a família e vejam-na ao fim de semana) e vão para o Porto que é um bom lugar para estar e o novo Infarmed é de gritos e todo novidades. No Porto o ar é mais limpo, as pessoas mais afáveis e a vida não é barata. E está na moda, não é só Lisboa. Não têm a avenida da Liberdade, passeiam nos Aliados; não têm amigos, fazem novos. Enraízam noutro sítio e acabou-se. O patronato é rei; melhor, é déspota. Os pais são velhos? Vão para o lar, qual apoio nem qual carapuça, já há uma desculpa de jeito para os engavetar, a 300km não se pode tratar de ninguém. Até porque tratar de nós já vai dar algum trabalho. E por aí.

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    1. Não tenho dúvidas que esta deslocalização do INFARMED é simplesmente folclore, Bea. No entanto, vivi em 11 países ( em 7 durante pelo menos 1 ano ) e em nenhum deles este problema da deslocalização se coloca como em Portugal. Uma das maiores riquezas da vida, que muitos povos apreciam, é a mobilidade. Nós, portugueses, agarramo-nos aos lugares como lapas e não queremos sair por nada deste mundo. Eu sei que isso tem muito a ver com o facto de os portugueses comprarem casa em vez de alugar, o que convida à sedentarização, mas isso não explica tudo.

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    2. Podia ser pior, por ex, descentralizar o cérebro para sul...

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    3. E já pensou que pode ser próprio da nossa natureza de portugueses?! Por que carga de água temos de ser iguais aos outros povos?! Suponho que tenhamos de respeitar as idiossincrasias de base, fazem parte.
      Não tenho nada contra viver por aqui e por ali se isso for do agrado pessoal (há até quem leve a vida a viajar). Mas, por favor, não se ponham a exigir mudanças drásticas que deixam tanta gente entre a espada e a parede.

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  3. Desde que vim viver para Macau que ouço frequentemente a palavra coitadinho quando vou a Portugal, Carlos.
    Parece que vim para o degredo.
    O que ainda é mais trágico e cómico porque parte de gente que, se saiu do cantinho, foi para ir a Badajoz comprar caramelos.

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    1. É? E é gente que deve ter saído há muito tempo que segundo consta os caramelos desapareceram. E os pirex.

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