terça-feira, 29 de agosto de 2017

Praias da minha vida ( com histórias dentro)-4



Brighton (fotos Internet)


No Verão de  1970 , a pretexto de melhorar o inglês, fui com o meu irmão para Inglaterra, fazer um daqueles cursos de férias então muito em voga.
O colégio ficava distante de Londres, mas relativamente perto de uma praiazinha que na década de 60 era muito  apreciada pelos jovens: Brighton.
Para quem há 10 anos se habituara a praias mediterrânicas, Brighton era uma praia pouco apetecível, quase inóspita mas, em compensação, muito animada.
Apesar de todos os alunos serem maiores de 18 anos, o regime do colégio era pouco propício a saídas nocturnas.
É certo que havendo jovens de muitas nacionalidades, o tempo passava de forma agradável, mas habituado que estava a fazer o que me apetecia aos 20 anos, aquele regime de semi-internato provocava-me  bichos carpinteiros.
Por outro lado, nem eu nem o meu irmão admitíamos regressar a Portugal sem ir a Brighton, pelo que em conluio com uns amigos mexicanos conseguimos “subornar” o porteiro e, por uma vez, pudemos regressar ao colégio ás 11 da noite.
Um dia saímos  no final das aulas, como habitualmente, mas ficamos a jantar em Brighton e pudemos ter um vislumbre do que seria a animação em Brighton. ( Mais tarde conseguiríamos escapulir-nos diversas vezes e regressar ao colégio a tempo de tomar o pequeno almoço, ficando suficientemente conhecedores dos )
Quando regressámos,  o meu irmão e eu,  tínhamos uma inesperada recepção. Dois jovens marroquinos e um argelino receberam-nos exuberantemente e convidaram-nos para beber uma taça de champagne. Nenhum de nós estava a perceber a  razão dos festejos, pois a direção do colégio não anunciara a comemoração de qualquer aniversário naquele dia. Perante a nossa estupefação, os jovens magrebinos deram-nos a notícia de que Salazar tinha morrido.
Eu exultei e bebi não só a minha taça de champagne, mas também a do meu irmão que se retirou imediatamente para o quarto.
Quando, finalmente, me fui deitar, o meu irmão esperava-me e deu-me uma bronca. Considerava inadmissível que eu tivesse celebrado a morte de Salazar com uns “inimigos” de Portugal. Na opinião do meu saudoso irmão, que  regressara da Guiné poucos meses antes, depois de ter cumprido dois anos e meio de serviço militar em África, eu devia ter manifestado consternação e mostrado o meu patriotismo.
Expliquei-lhe que não era patriota, que esperava sair de Portugal muito em breve porque detestava o regime, a tacanhez de  Salazar, a mesquinhez de Caetano, a javardice da PIDE e  a corja de fascistas que nos governavam e me sufocavam.
Na altura não percebi que estava a ser extremamente injusto com o meu irmão que estivera em África a defender o país com convicção. Só no dia seguinte aquilatei a dimensão do meu erro que nos afastaria durante o resto do Verão. ( Curiosamente, em Outubro,  ele foi viver para Inglaterra e iria convencer-me a seguir o mesmo caminho).

Apesar de ainda hoje ter familiares a viver em Brighton, só uma vez  lá voltei. Não posso por isso dizer que Brighton foi uma das praias da minha vida, mas foi lá que se passou um episódio marcante da minha existência.

4 comentários:

  1. E como recordar é viver, essas também são recordações muito importantes que, de facto, tiveram um grande impacto na sua vida.

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  2. É sempre bom ter um irmão sensato. Nunca tive irmãos e cometi a mesma gafe, quando foi da morte do Sá Carneiro e ainda há pouco tempo que um amigo meu alemão me falou nisso.


    Quando vivi em Londres, todo o mundo amava Brighton. Eu nunca tive interesse de visitar essa praia inglesa.

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  3. Belas memórias, Carlos. E que bem contadas.
    Fui a Brighton no Verão de 79, no mês de Agosto, e lembro-me bem de ter de usar meias e casaco porque o tempo não era de praia. Nem a praia era uma praia - das nossas, claro!
    Infelizmente não tenho história nenhuma para contar, senão que foi a minha 1ª vez em Inglaterra porque ganhei uma bolsa da Gulbenkian de um mês por ter sido orientadora de estágio de professores.

    Enfim... poucas aventuras tive na minha vida...

    Beijinho.

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  4. Uma memória doce, Carlos.
    E isso é o mais importante.

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