terça-feira, 24 de maio de 2016

Porto Sentido ( um post para perder alguns amigos)



No bar do Hotel D. Henrique


Ontem, à hora do almoço, fui confrontado por pessoa amiga com o post que escrevi sobre o livro de Henrique Raposo, "Alentejo Prometido".
Quem me acompanhava na amesendagem  interpelou-me directamente:
- Se alguém  nascido tripeiro escrevesse um livro sobre o teu tão amado Porto, denegrindo a cidade, reagirias com a mesma fleuma?
A resposta saiu-me espontânea, rápida e sem rodeios:
Sem dúvida que sim. Depois de ler o livro e antes de escrever o post, coloquei-me nessa posição e não demorei muito tempo até encontrar a resposta. Se escrevesse um dia um livro sobre a minha infância e juventude no Porto, não seria meigo.
A minha rejeição à cidade começou aos 12 ou 13 anos. Foi com essa idade que percebi que me tinha de pirar de lá. Apesar dos amigos, da vida feliz que aparentemente levava, sentia-me amarrado a um colete de forças. Sem espaço para respirar e poder ganhar asas para voar.
 Escolhi Direito para vir para Lisboa, porque detestava a claustrofobia do Porto, mais parecido com um bairro grande onde todos se conheciam e intrometiam na vida uns dos outros. Sempre adorei a história e a arquitectura do Porto mas, socialmente, o Porto era uma cidade detestável. Não suportava o bairrismo , a auto contemplação e aquela imagem superlativa que as pessoas   projectavam de si próprias para o exterior, que tresandava a provincianismo- versão pobre de bairrismo bacoco. Como se para além das fronteiras do Porto não existisse vida, ou a cidade fosse o centro de um mundinho onde as pessoas se sentiam estrelas bizarras de uma companhia provinciana.
O Porto visto por CBO
Nos jardins do Palácio de Cristal

 Tive momentos muito felizes na cidade, sem dúvida, mas quando vim para Lisboa suspirei de alívio- apesar das saudades dos amigos.Foi como se me libertasse de um colete de forças e sentisse finalmente a vida a oferecer-se, desnuda, à minha frente. Sabia que Lisboa seria apenas uma etapa. O meu objectivo era saltar além fronteiras e correr mundo como, felizmente, veio a acontecer.
Não é certamente por acaso que hoje em dia os meus melhores amigos do Porto sejam os que tal como eu saíram de lá para estudar, ou logo que terminaram os estudos. Rumaram aos Estados Unidos ou à Europa e só regressaram décadas depois. Alguns estiveram em Macau numa terceira ou quarta experiência além fronteiras.  Como eu.
Alguns reencontraram-se com o Porto depois de uma passagem prolongada por Macau. Foi esse também o meu caso. Apaixonei-me pelo Porto aos 50 anos, mas não pelo Porto que conheci na adolescência. Esse está bem morto e enterrado e se por vezes o recordo neste Rochedo, é para lembrar as reminiscências de coisas boas.
Da varanda do meu quarto no Hotel D. Henrique

A cidade hoje está muito mudada.Para melhor, obviamente. Cosmopolita, aberta, moderna e descomplexada ( apesar de alguns resquícios de bairrismo que se reflectem em notas picarescas). Isso não impediria, obviamente, que escrevesse o que pensava ( e penso) do Porto dos anos 50/60/70. Tal como as pessoas, as cidades também mudam com a idade. Umas pioram, outras tornam-se melhores. Rejeitar isso é iludirmo-nos, ou mesmo mentir. Estás satisfeita com a resposta?
- Estou, mas creio que se escrevesses um post no teu Rochedo ou no FB a relatar esta conversa, ias arranjar alguns inimigos...
- Talvez tenhas razão, mas prefiro ter inimigos a falsos amigos. A frontalidade é uma característica que eu aprecio muito nos tripeiros genuínos.

18 comentários:

  1. Foi esse Porto que conheci e por isso ainda hoje me irrito com tanto bairrismo. Infelizmente(?) para mim, não tive oportunidade de dar saltos para fora, porque tinha quem dependesse doentiamente de mim. Fiz as minhas pequenas viagens, mas perdia tanto tempo a telefonar, porque na altura
    não havia telemóveis. Sou dum Sotavento algarvio pobre e abandonado até não há muitos anos, que conheceu algumas industrias de pesca e conserva, em que alguns ganharam fortunas, no tempo da guerra, mas a maioria explorada. Depois vieram os patos-bravos da exploração do turismo, que estragaram muitas praias e hoje fico contente quando oiço dizer que o nível do mar está a subir pois seria bem feito para aqueles que construíram até quase dentro do mar. Só que as vítimas já seriam outras. hoje grande parte das praias já não têm areia natural, pois têm de suportar as arribas com barros artificiais. Mas, mesmo assim, agora teria a certeza que se tivesse ficado lá seria mais feliz, porque era uma gente aberta e solidária, e hoje sinto-me desintegrada aqui, porque todos os meus amigos seguiram seu rumo e muitos já desapareceram assim como a família. Até para tirar o secundário tive de me hospedar em Faro, porque só na capital do distrito é que havia um liceu, para onde vinham todos os do Algarve e Alentejo, por que o mais próximo era em Évora. Triste País mas que mesmo assim não trocava por nenhum dos que conheci apesar de ter conhecido coisas bonitas, mas que não me prendiam.

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    1. Muita coisa mudou. Felizmente! Mas, mesmo assim, ainda há quem diga que antes do 25 de Abril é que era bom!

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  2. Ainda conheci esse Porto e alguns tripeiros (na pior acepção do termo) que o Carlos refere.
    Que diferença para o Porto actual!
    A minha filha Catarina ficou apaixonada com a cidade.

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    1. Quando levo amigos com filhos a conhecer o novo Porto,também ficam encantados, Pedro

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  3. Vamos lá a ver: pode-se amar de coração um lugar e criticar o que nele é mau. E pode-se morder a mão que nos dá ou deu o pão. São situações diferentes. O livrinho sobre o Alentejo não é apenas uma narração desapaixonada. Pareceu-me outra coisa, mas como não li senão umas frases, fico por aqui.
    Mas acredite que se pode criticar com amor, sem empurrar ou desdenhar. A frontalidade é necessária, sim. Mas nem sempre. Umas vezes porque não se é capaz, outras porque nem se deve ser frontal. Às vezes a frontalidade soa a afronta. Mas cada um é um.
    Gosto do Porto por essa estreiteza que critica, é menos citadino que Lisboa. A gente compra as qualidades e os defeitos vêm junto:)

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  4. Eu ontem e no outro dia e no outro estava no Porto. .. abraço
    Sou do alentejo e não posso concordar consigo no que a ele se refere mt menos à imagem que o livro transmite...

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  5. Sobre o Porto começa a ser sufocante são aos milhões, fico feliz por O ter descoberto ai há (à ?) uns 10 anos.
    Quanto ao livro é tão desapaixonado.

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    1. O livro é o que é, Rosaamarela. E o Porto também. Se o tivesse descoberto há 50 anos, talvez tivesse a mesam opinião ( errada) que muita gente tem hoje sobre o Porto actual. Agora fico imensamente feliz quando levo amigos ao Porto e os vejo estupefactos a descobrir uma cidade que desconheciam.

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  6. Sobre o Porto começa a ser sufocante são aos milhões, fico feliz por O ter descoberto ai há (à ?) uns 10 anos.
    Quanto ao livro é tão desapaixonado.

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  7. Eu ontem e no outro dia e no outro estava no Porto. .. abraço
    Sou do alentejo e não posso concordar consigo no que a ele se refere mt menos à imagem que o livro transmite...

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  8. Não há região mais bela neste país do que o Douro, digo eu, que nunca visitou o Alentejo. Todos nós temos um olho cego quando escrevemos sobre política, sobre religião ou sobre os lugares onde fomos/somos felizes.

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    1. Concordo totalmente consigo, Teresa. O Douro é a zona mais fascinante do país e onde eu também fui muito feliz. Por isso é que todos os anos tenho de lá ir uma ou duas vezes.

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  9. Duas opiniões minhas retiradas da minha correspondência de outrora
    1. em 1962.12.21 Anteontem houve um tremor de terra, mas aqui no Porto parece que só se abriram brechas num prédio. Em Lisboa é que o sismo teve maior intensidade, tendo abatido alguns telhados e rachado as paredes de muitos prédios. (...) Já estou a gostar um bocado mais do Porto. Contudo não modifiquei a minha opinião: é uma cidade triste e velha.

    2. em 70.12.26 - Hoje tentei pôr a correspondência em dia, mas aquilo está tão atrasado que devem ser necessários uns longos serões. A partir da recepção deste postal devereis começar a escrever‑me para Évora. Espero que tenhais recebido o SDS que enviei na véspera de Natal.. Que mais dizer? Estou na estação dos CTT da Batalha; a escrivaninha treme que se farta com o esforço que um "hominho" faz para fechar um envelope. Uma mulherzinha procura quem lhe preencheu um telegrama para dar‑lhe qualquer coisa. E ao contar‑me isto poisa‑me a mão no braço. Gosto da gente do Porto; parece‑me mais humana que a de Lisboa e de Évora. "

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    1. Obrigado por esta partilha Victor Nogueira. Li o texto com um sorriso de concordância e creio que alguns leitore terão feito o mesmo.

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  10. Ah como gostei deste texto!! O meu pai e toda a sua família eram de Barcelos e tantas vezes atravessei e visitei o Porto a caminho de Barcelos nos idos de 50, de 60. Cidade feia, triste, cinzenta, escura, com umas pessoas que achávamos mal criadas e convencidas, bairristas e assim. Eu não gostava nada do Porto. Este Porto que floresceu de há uns anos para cá não tem nada a ver. Tem brilho, cor, é uma cidade do Norte, parecida com as cidades espanholas do Norte. Nada a ver.

    Beijinhos lisboetas, after all...

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    1. Exactamente, Graça. A ligação do Porto à Galiza valorizou muito a cidade que se abriu, descomplexou e aprendeu a frespirar e a viver fora da concha.

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  11. Ás vezes não se foge só da cidade foge-se da família que cheia de boas intenções e "excesso" de amor pode tornar a vida claustrofóbica...
    Não conheço nem conheci o Porto, sou apenas visitante de férias cheia de vontade de "gostar" da cidade e das pessoas e até agora estou muito satisfeita mas concordo que deve ser muito difícil ou mesmo impossível viver num ambiente fechado onde tudo e todos se metem nas vidas uns dos outros, para mim também seria insuportável e se não conseguisse fugir seria muito infeliz.
    Sair e viajar pelo mundo foi, é e será sempre um privilégio que nem todos têm. tenho primos e sobrinhos todos fora a estudar e trabalhar, por vezes é difícil mas quando chegam já conseguem ver as diferenças entre os que ficaram e as suas próprias vidas.
    felizmente estão aproveitar muito bem as oportunidades que surgiram.
    Concluindo: mesmo agora, aqui, onde tudo é incomparávelmente melhor, há gente que quer mais e melhor e parte pelo mundo.
    xx

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