terça-feira, 31 de maio de 2016

Don't cry for me Argentina



Um dia percebi que me tinha tornado colecionador de marcadores de livros. Não foi programado.  Foi mesmo mero acaso Comecei a guardar os marcadores que vêm com os livros e, às tantas, descobri que tinha algumas centenas. A partir desse momento, passei a dar-lhes mais atenção. Separei-os em categorias e tentei pôr alguma ordem na anarquia em que eles estavam. Não é tarefa fácil. Principalmente quando se insiste em não separar os marcadores, dos livros onde vinham inseridos. Mas lá me vou entendendo no meu caos que só eu sei decifrar.
Esclareço, desde já, que apesar de me ter tornado colecionador não entrei na febre de andar à procura de marcadores em tudo quanto é sítio. Procuro respeitar um princípio: só fazem parte da colecção, aqueles marcadores que vierem ter comigo inseridos em livros. Raramente comprei marcadores. As vezes que o fiz foi em lojas de museus, mas não lhes dei a honra de  integrar a minha colecção. Não gosto de promiscuidades. Faço também questão de pedir aos meus amigos que sabem desta minha tara, para não me oferecerem marcadores. Quando alguém desrespeita o meu pedido, recolho o marcador e coloco-o numa espécie de limbo, até decidir se vão integrar a colecção de museus, ou ficam numa colecção autónoma.
Desde que consciencializei que me tornara colecionador, não me lembro de ter alguma vez perdido algum. No entanto, há sempre uma primeira vez. Aconteceu recentemente com o marcador  do livro da Helena Ferro Gouveia, cuja apresentação decorreu na Livraria Ferin.
O marcador faz a promoção de uma viagem literária a Buenos Aires, promovida pela própria livraria, se não estou em erro.
Chamou-me particularmente a atenção, pois fazer o percurso da Buenos Aires de Borges, foi um primeiro passo para  me  apaixonar pela capital Argentina.
Quem me segue há mais tempo sabe da minha ligação ao país das Pampas, que percorri de lés a lés  numa aventura fascinante  entre Ushuaia a La Quiaca. Não fora o problema de saúde que me afectou e a esta hora estaria a gozar a reforma algures na Patagónia, entre Esquel e Cafayate. O destino trocou-me as voltas, mas não tinha perdido a esperança de uma última viagem à Argentina (pelo menos a Buenos Aires, Pinamar e Ushuaia) para me despedir. Perdi-a agora, quando o meu marcador de Buenos Aires se escafedeu por entre pedras da calçada ou um inconveniente esmero da empregada doméstica que, vendo-o abandonado em cima de algum móvel, o confundiu com lixo e o encaminhou para o ecoponto.
Não é a perda do marcador que me atormenta (se fosse à Ferin pedir um, certamente  não mo recusavam). O problema é a premonição que eu vislumbro por detrás desta perda. Interpretei-a como um sinal de que não voltarei à Argentina e isso tem-me atormentado os dias.

21 comentários:

  1. Caramba, Carlos! Não seja tão pessimista e supersticioso!!

    Conforme se 'escafedeu', pode muito bem acontecer que ainda apareça o marcador. Vai resignar-se a não voltar a um lugar tão especial para si? Não pense nisso...
    Soubesse eu «reponsar» ou será «responsar»? - é um termo que se usa cá para o Norte e significa fazer umas rezas para aparecerem objectos perdidos, sabe? - e, desde já, começaria com as rezas.
    Não sei é se teria sucesso, dada a minha descrença nessas crendices.

    Deixe que os dias passem serenos e verá que, com ou sem marcador, aún volverá a su amada Argentina!

    :)

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    1. Janita, é responso. vantagens de ter tido uma bisavó catequista, mas de quem também fiquei com um "bloco"(falta.me o termo) escrito com aparo duma colecção de benzeduras. Na verdade enquanto se fazia a novena, ou o doente morria ou ficava bom. Olhe que eu fiz uma novena a santo António, por causa duma gata que me desapareceu de casa, que estava a alimentar um gatinho, que eu acabei de criar, e o certo é que ela apareceu, passados mais de 15 dias. mas não podia ver o filho que se assanhava. Vim mais tarde a saber que o gatinho tinha um problema de coração e não chegou a fazer um ano. Os animais fazem a sua selecção como os espartanos.
      Não se esqueça que responso também pode ser um ralhete, portanto tenha cuidado.

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    2. Grata pelo esclarecimento, Anfitrite!

      Não sabia é que este tipo de práticas tinham a ver com a Igreja Católica, pensei que estivessem mais ligadas a actos profanos!
      Estamos sempre a aprender! Curioso isso que contou acerca do desaparecimento da sua gata e posterior aparecimento.
      Vai ver ela foi embora por rejeitar o filhote doente.

      Acho que não vou responsar é nada. O Carlos nem diz se quer ou não. Se calhar já apareceu o marcador de Buenos Aires! :)

      Obrigada, Anfitrite!

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    3. É responsar, Janita. Uma prática que a minha mãe utilizava muitas vezes e, ao que ela dizia, com muitíssimos bons resultados. Quando começou a perder a memória, devido à doença, às vezes brincava e dizia: para a perda da memória é que não há responso que valha. Passado um tempo, esqueceu-se mesmo como se fazia o responso e pedia a uma diligente e catolicíssima empregada que o fizesse por ela. Os resultados não eram os melhores e, obviamente, a minha mãe culpava a empregada por não o saber fazer devidamente...

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    4. Anfitrite
      Eu pensava que a Novena era outra coisa, mas nunca fui bom em matéria de práticas religiosas.Obrigado pelo esclarecimento.

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    5. Janita:~
      Se tivesse FB percebia a razão de não ter respondido. Andei afastado das lides internáuticas, porque estive naquele local onde a terra acaba e o mar começa. Felizmente, a Anfitrite estava atenta e deu a resposta. Não se admirem se nos próximos dias só aparecer por aqui à noite. É que ando a apreciar os dias. Mesmo que não regresse à Argentina ( tenho realmente medo de ter um problema qualquer por lá com a minha saúde)fico com a recpordação dos belos tempos que lá vivi.

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    6. Na província costumam ou costumavam misturar o profano com o religioso. Claro que se chama novena porque é feita durante nove dias e faz-se nas igrejas em determinadas épocas e com determinadas intenções. Também se pode fazer em casa quando se pretende atingir qualquer objectivo. A que eu mais conheço é a Santo António para encontrar coisas perdidas. Quanto às benzeduras, também se faziam durante nove dias. Para cada doença havia uma ladainha própria mas no fim rezava-se sempre. penso que era o pai-nosso e a ave-maria. Não tenho o livrinho aqui à mão; eu até tenho medo de digitá-lo com medo que ele se desfaça.

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  2. Supersticioso?
    Cheguei aqui há meia dúzia de dias. Nem sabia que já tinha estado na Argentina. Ou que ela fosse assim uma tão grande paixão. Não é estranho, ao longo da vida todos passamos por sítios que nos apaixonaram e onde desejamos voltar. Estranho foi ler o post e verificar que afinal as superstições ainda existem...
    E se amanhã, daqui a um mês, ou um ano, o marcador aparecer num sítio qualquer?
    Abraço

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    1. Vivi bastante tempo na Argentina, Elvira Carvalho. Até há bem pouco tempo continuei a ir lá em trabalho, duas ou três vezes por ano. Tenho relações e laços muito fortes com a Argentina que os leitores mais antigos conhecem e com a América Latina em geral,pois tenho ascendência brasileira e uruguaia.
      Sou um bocado supersticioso, sim ( herança da minha Mãe) mas não é por superstição que digo que lá não volto mas sim por razões de saúde.
      ASbraço

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  3. O sinal também pode ser interpretado de outra forma - aproveitar e não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje. Não deixe de ir, Carlos. Eu cá ficarei à espera dos seus relatos de viagem. Argentina e, em particular, Buenos Aires, é um país que gostaria muito de visitar.

    Um abraço :)

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    1. se puder lá voltar, terei mesmo de deixar para amanhã, porque nos próximos meses de certeza que não posso ir.
      Abraço

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  4. ~~~
    Faço minhas as palavras da Smile.

    Mesmo que seja com uma companhia...

    Sim, eu sei
    que não é a mesma coisa, mas poderá ser uma boa partilha.

    A Argentina é linda e foi nas outras crónicas que soube da

    rua-museu «caminito» e me levou a explorar nos mapas Google,

    o bairro da Boca e o centro histórico de Buenos Aires.

    Força, Carlos!
    ~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Obrigado pelo Fico feliz por saber que lhe levei um bocadinho da minha Argentina. E hoje também fiquei feliz por saber que aderiu à blogosfera. Uma notícia que terá aqui o merecido destaque. Abraço

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  5. Hummm...já teve outras premonições? Se não teve, pode ser apenas mania, medo de não voltar, coisas assim de importância nenhuma.

    Posso morrer em qualquer altura, não quero ir para lado nenhum e na última viagem levem-me para onde queiram que a mim tanto se me dá (a mim e a qualquer pessoa, mesmo as que querem à força toda ficar aqui ou ali).

    Mas se a Argentina é o seu sonho, assim uma espécie de berço a que aspira, força. É de ir.

    É um bizarro coleccionador :).

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    1. Já tive, já e o pior é que normalmente batem certo! A Argentina é o meu sonho e o meu pesadelo, Bea. Uma longa história que se encontra documentada neste e no meu outro blog que encerrei no Natal.
      Não sou colecionador, mas esta coleccção é relamente um bocadinho bizarra, admito...

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  6. Não sei que lhe diga, Carlos. Eu também já dei as minhas viagens por terminadas. E eu não tenho um sexto mas um sétimo sentido. Premonições e coincidências, ou antevisões é comigo. As empregadas têm a mania de jogar tudo fora para lhes dar menos trabalho a limpar e porque não entendem o valor que determinada coisa tem para nós. Apesar de tudo não está assim tão pessimista pois ainda ousou pensar que lhe cairia uma viagem à Argentina na rifa. Mas não fale em despedidas que para mim são a coisa mais triste que existe. Pense que, apesar de tudo, foi uma felizardo que ousou conhecer grande parte do mundo, que muitas pessoas nem sonham que existe. Para isso existe a nossa memória, que nos ajuda a reviver.
    Sabe uma coisa? sempre que entro no meu carro lembro-me de si. Sintonizei o rádio na Smooth - FM, desde que disse que conseguiu adormecer com ela, que eu desconhecia que existia e que é muito boa para viagens e não só. Em casa já ouço muito pouco rádio prefiro o som do silêncio.
    Quanto a marcadores também tenho alguns. Até tenho um que me ofereçam, feito em pele, como se fosse a lombada de um livro e com o meu nome gravado.
    Carpe diem.

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    1. Há uns tempos, quando a saúde me atraiçoou escrevi um post em que dizia exactamente isso, Anfitrite. Fui um felizardo na vida que tive e não me posso queixar.
      Folgo em saber que se tornou ouvinte da Smooth FM. Em casa não me faz muita companhia, a não ser à noite, mas no carro é a minha melhor amiga.

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  7. Carlos, desculpe mas tenho de partilhar isto: falando da minha bisavó lembrei-me que já não sabia rezar o terço. Procurei na Net imprimi e fui guardar na minha mesa-de-cabeceira. Quando abro a gaveta a primeira coisa que vejo é a contracapa de um pequeno livro, que nem reconheci logo. A primeira coisa que vejo ao abrir o livro foi um marcador do safado do Paulo Coelho, fazendo publicidade a um livro e que diz assim: Na Margem do - RIO PIEDRA - Eu Sentei e Chorei. Da Argentina eu só conheço o rio da Plata, mas pode ser que haja um de piedra e que o Carlos ainda lá vá verter as suas lágrimas.
    Já agora transcrevo um pouco do livro onde estava o marcador porque apesar do tempo e de haver preservativos, pílula do dia seguinte, etc. é uma espécie que continua a aumentar. Diz assim:"(...Ninguém exigiu do filho-da-puta os muros, as cercas, o arame farpado, as normas, as regras e as excepções, os graus, as habilitações, os certificados, os pareceres, as comissões. o papel selado, os tratados, as teorias, os códigos, os acordos, as fórmulas, as quantificações, ninguém o incumbiu de se sacrificar pela ordem e pelo progresso, ninguém o quer ver preocupado, é ele mesmo que assim o quer. Ainda quando está em féria, o filho-da-puta preocupa-se com o que os outros estão a poder fazer na sua ausência; o filho-da-puta preocupa-se com o que os outros fazem na sua presença e na sua ausência, e até com o que os outros não fazem mas podiam fazer. E se assim é, e disso não há dúvida, como é possível haver ainda quem sustente que é agradável a vida do filho-da-puta? (...). (pág. 39-40) do livro «discurso sobre o filho-da-puta» da autoria do grande Alberto Pimenta. Já lá vão tantos anos e cada vez está mais actual.

    Até me lembrei da sua breve passagem pelo programa "A Noite da Má Língua" em que ele quando abria a boca acertava sempre em cheio.

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    1. Por acaso há mesmo um Rio Piedra, Anfitrite, não é invenção do Paulo Coelho :-) Por acaso, o livro que refere foi um dos que li de Paulo Coelho. Outro, foi Onze Minutos,tema de uma crónica que aqui escrevi há muito tempo. Paulo Coelho sabe-a toda e por isso vende livros como pãezinhos quentes.
      Quanto ao discurso sobre o Filho da Puta, lembro-me bem. Impagável, o Alberto Pimenta.

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  8. Pensamento positivo e bilhete no bolso, Carlos!

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    1. Pensamento positivo procuro ter, Pedro. O problema é a saúde e os cuidados a que ela me obriga para tentar preservá-la o mais possível.

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