quarta-feira, 27 de abril de 2016

Sobre a dificuldade de dar



Há tempos contei aqui a dificuldade que tive em oferecer uma boa parte dos meus livros. Pretendia oferecê-los a bibliotecas municipais, mas as dificuldades que me colocaram para os receber e o facto de só poderem recebe 5 ou 10 livros de cada vez, levaram-me a optar por outra solução que  em breve será posta em prática e irá servir a comunidade onde me insiro com mais proveito do que nas bibliotecas. Pelo menos assim o espero…
Vem este  introito a propósito  de um caso divulgado recentemente pelo Sexta às 9. O tema era  a “caridade enganosa” trouxe-me à memória  um episódio  mais recente,  que ilustra a dificuldade que é dar neste país.
Após o falecimento da minha Mãe pus à venda a minha casa no Porto. O recheio foi vendido antecipadamente mas, para além de algumas peças que ofereci, ficaram as roupas da minha mãe e de casa que, por estarem em muito bom estado, decidi oferecer a instituições.
A primeira instituição que contactei foi a Caritas, pois a minha Mãe foi lá voluntária durante mais de duas décadas e sei que as roupas são entregues a quem precisa. A responsável com quem falei foi simpatiquíssima e ficou muito entusiasmada com a oferta, pois conhecia a minha Mãe. Havia, no entanto, um problema. Eles não podiam ir buscar as roupas, porque não tinham meio de transporte, pelo que teria de ser eu a  empacotar tudo e transportar até à sede da Caritas. Expliquei que eram muitas dezenas de peças de vestuário e ainda sapatos, carteiras, roupas de cama, cobertores e colchões que gostaria de oferecer, mas o meu estado de saúde não me permitia estar a empacotar tudo. Pedi, por isso, que alguém fosse lá a casa empacotar e prontifiquei-me a contratar uma empresa que garantisse o transporte.
A senhora agradeceu muito a minha disponibilidade, mas confirmou a impossibilidade de a Caritas deslocar alguém lá a casa para ajudar a empacotar as coisas que eu pretendia oferecer.  A única coisa que poderia fazer era indicar-me uma instituição que, garantidamente, daria bom uso e destino adequado ao que eu pretendia oferecer.
Agradeci e fiquei com o contacto.
Entretanto, telefonei a  pessoa amiga da minha Mãe a perguntar se sabia de alguma instituição que precisasse do que eu tinha para oferecer. De pronto me indicou o nome de uma ,instituição que, pretensamente, apoiaria sem abrigo.
Contactei-os de imediato. Manifestaram interesse e, no dia seguinte, pela manhã lá estava uma carrinha com quatro homens para fazer a recolha. Quando lhes mostrei as roupas, aquele que devia ser o encarregado disse-me:
- Não queremos nada disto, obrigado. Isto são roupas que não interessam aos nossos associados. Ninguém vai pegar nisto, porque estão fora de moda.
Olhei para várias peças que nem sequer tinham sido estreadas, engoli em seco e perguntei:
- Então e os cobertores ( a maioria em estado impecável) e os colchões, não vos interessam para os sem abrigo ?
- Não. O melhor que tem a fazer é queimar isso ou levar para uma lixeira. Nós só recolhemos material que tenha valor comercial para vender.
 Compungido, telefonei aos Companheiros de Emaús, a instituição que me tinha sido indicada pela Caritas.  Nessa mesma tarde apareceram  quatro homens e um padre que me contou a história da  Comunidade.  Levaram tudo quanto eu tinha para oferecer e, ao verem uns sacos com restos de tecidos que eu pensava deitar fora, perguntaram-me se também os poderiam levar. Obviamente acedi.
Quando iam de saída, um dos homens perguntou-me:
- O senhor desculpe, mas o que vai fazer às cortinas que aqui tem?
- Vão ficar aí. As pessoas que compraram a casa dar-lhe-ão o destino que entenderem
- O senhor importava-se se nós levássemos umas duas ou três? É que faziam imenso jeito para as nossas casas.
- Podem levar tudo o que quiserem- respondi
E levaram. Estiveram a tarde inteira e a manhã do dia seguinte a desmontar cortinas. Partiram com a felicidade estampada no rosto e deixaram-me de bem comigo. 
Resumindo: até para dar é preciso sabermos bater à porta certa.

8 comentários:

  1. Pois ... As minhas "histórias" com "empresas" como os "Emaús" ou a "Remar" são menos entusiastas. Não só desprezam (algumas) "doações" como ninguém controla o valor do que "recebem" nem do que "vendem" nas respectivas "lojas"

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  2. A vontade de dar existe, ao contrário da vontade de receber. Que por isto ou por aquilo se torna num suplício.
    Faz-me lembrar a oferta que fiz dos meus serviços de voluntariado. Nenhuma das 6 entidades a quem enviei um mail me respondeu. Ingratidão ou outra coisa que não descortino?

    Estamos assim, infelizmente.

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  3. ~~~
    Fiquei admirada com a atitude da Caritas com os pertences
    de uma das suas voluntárias...
    A pobreza de espírito é superior à material...
    ~~~ Beijinho, Carlos. ~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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  4. Sobre este assunto ainda não consigo falar, pois ninguém quer receber nada (vir buscar) e eu não tenho coragem de pegar para me desfazer de coisa tocadas por alguém.
    Além disso, até tenho televisões e monitores crt em perfeito estado de utilização, que queriam, mas só se eu fosse levar.

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    1. Eu também tive alguma dificuldade em escrever, Anfitrite

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  5. Tem a certeza que não está em Macau, Carlos?????

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  6. Tenho um receptáculo da Caritas em frente da minha janela e tenho observado situações curiosas. Há indicações no seu exterior sobre como acondicionar as roupas, sapatos ou brinquedos que se queiram doar. Já fiz doações de roupas usadas e/ou quase novas sempre limpas e capazes de serem usadas. Qual não é o meu espanto quando assisti, já por duas vezes, à recolha dos mesmos. São simplesmente retirados e atirados para dentro do camião, rasgando muitas vezes os pacotes , caindo para o chão o conteúdo.
    Parece mais uma recolha de lixo, sem os contentores apropriados. Duvido que essas roupas sejam depois novamente limpas e distribuídas a quem precisa.
    Mozi

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