terça-feira, 26 de abril de 2016

Qual povo, pá?


Lembram-se da aliança Povo/MFA? E do "Povo Unido Jamais será vencido?"
Neste 25 de Abril andei a procurar esse povo. Durante a procura  lembrei-me de uma pergunta que há tempos me fizeram na caixa de comentários. Em tom crítico perguntavam-me:
Então e o povo pá?
Quis dar uma resposta, mas reparei que me faltavam alguns esclarecimentos.
Optei, por isso, por colocar algumas questões aos leitores, na expectativa de os   esclarecimentos que me vierem a ser facultados me permitirem responder cabalmente a quem me interpelou:
Então, começo por perguntar:
Qual povo, pá?
O que votou duas vezes em Cavaco, sabendo que ele tinha entre o seu círculo de amigos um grupo de criminosos, responsáveis por parte da crise em que o país mergulhou?
O que viu os salários reduzidos, a pensão de reforma do pai amputada e o subsídio de desemprego da mulher terminado ao fim de seis meses e depois foi votar PSD para que tudo continue na mesma?
O que vota sempre no mesmo partido, como se fosse um clube de futebol?
O que recebe o RSI mas depois vota no CDS, ignorando que foi esse partido que mais tentou impedir que lhe fosse concedido esse direito?
O que diz que precisamos de dez Salazares para salvar o país?
O que afirma convictamente que vivíamos melhor no tempo do Salazar?
O que em dia de eleições prefere ficar na praia a ver o por do sol, em vez de votar?
O que se marimba para os referendos?
O que culpa os políticos por todos os males do país, mas não participa na vida cívica?
O que prefere ficar em casa a ver as manifs pela televisão a sair à rua?
O que acha a política uma chatice?
O que diz a culpa de tudo isto foi do Sócrates?
O que prefere manter-se desinformado, lamentar-se da vida e penitenciar-se dizendo que a culpa é dos corruptos, mas depois não pede a fatura ao eletricista, para não ter de pagar IVA?
O que prefere os saldos do Pingo Doce à manif do 1º de Maio?
O que acusa de malandros os que recebem o subsídio de desemprego?
O que pensa que os problemas do país se resolviam despedindo milhares de funcionários públicos que andam a coçar o cu pelas esquinas, mas mete uma cunha a um amigo  para  arranjar um biscate ao filho lá na Direcção Geral?
O que  diz cobras e lagartos do SNS, mas corre para as urgências dos hospitais públicos assim que dá um espirro e  protesta  por ter de esperar duas horas para ser atendido?
O que acusa a polícia de nunca estar onde é preciso e depois diz que há polícias a mais?
O que se queixa da falta de civismo dos outros, mas estaciona o carro em cima de uma passadeira, numa curva, em segunda fila ou em cima do passeio?
O que ameaça um funcionário das finanças ( ou passa mesmo à agressão) porque está revoltado com o montante do imposto que lhe foi cobrado?
O que diz que em Portugal só quem trabalha é que paga impostos, mas quando no restaurante lhe perguntam se quer factura, diz que não?
Bem, pá, parece que esse povo está porreiro. Continua a lamentar a situação do país, mas pensa que não há solução enquanto os velhos não morrerem e os funcionários públicos continuarem a ter uma carrada de privilégios - que não sabe exactamente quais são mas de que já ouviu falar.  
Por tudo isso, baixa os braços e fica à espera que a crise passe. E se no dia das eleições não tiver mais nada que fazer, lá vai votar nas cores do partido de que é adepto.

Eh pá, lamento muito, mas para esse povo não tenho pachorra!
Ou, parafraseando a Helena Vaz da Silva, por esse povo não faço Puten! A não ser, quiçá, o gesto do Bordalo...

14 comentários:

  1. Completamente de acordo.
    Às questões, todas formuladas com razão, que respostas?
    Por mim, plagio e digo: qual povo, pá?

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  2. Além do nosso pessimismo e marasmo antropológico é a ignorância, pá!

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  3. Apetece-me pôr esta música, porque somos realmente um povo que foi moldado assim, desde há séculos. Tiraram-nos tudo, até a vontade de ser alguém.

    https://www.youtube.com/watch?v=IgHyXlbahkU

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  4. O senhor refere-se a actos isolados ou sistemáticos? é que um ou dois erros desses - e até mais - todos cometemos. E outra coisa, enquanto parte de uma nação, que neste caso é a portuguesa, todos, mas todos mesmo, somos povo. E decerto todos - ou quase - já infringimos alguns dos pontos que frisa - e não são poucos ainda que sejam verdadeiros. Mas eu tenho pena desse povo, entende? Pena de quem, como diz, vota no CDS e recebe o RSI. Porque não sabe. E dirá o senhor, que raio, e por que não se informa, então o senhor pensa que quem recebe tal espectacular rendimento tem assim uma escolaridade interessada em política e ouve os telejornais e os programas informativos e entrevistas, anda navegando na internet para se cultivar, é pessoa de mente aberta..... E podia dizer muito mais coisas mas francamente não me apetece.É que este povo iletrado e palerma a que por acaso até pertenço dos quatro costados e não só de uma costela flutuante, é estúpido, mas tem alguma desculpa. Mas aquele que rouba e mente à descarada, que engana e massifica um certo tipo de pensamento, esse é o verdadeiro cancro. Do outro, quem sabe, algum se salva com melhores condições de vida, mais instrução...Mas a este povo que cresce a esmagar os mais fracos e a moldá-los a estar de cócoras, falta-lhe muito mais. O tudo que lhe foi dado usa-o para mando e poder e quase sempre pisando sobre. Parece-me bem mais ignóbil. Fim.

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    1. Bea, estou completamente de acordo com aquilo que escreveu. Tinha pensado responder ao Carlos mas fica já aquilo o que queria dizer. O Carlos, acho que ficou um pouco amargo desde o grande problema porque passou ou está passando. Mas nem todos são netos de grandes industriais do Porto, nem sei se como jornalista conhece ou conheceu todas as zonas deste pobre Portugal do interior antes e depois do 25 de Abril. Eu apesar das doenças continuo a ter pena deste povo, apesar de eu ser uma das mais prejudicadas, desde Abril. Mas a Liberdade vale tudo além do que de bom muitos conseguiram. Nem todos tiveram a inteligência, nem uma professora primária, da província retrógrada, que se interessasse por ela e a levasse a fazer exame de admissão ao liceu, que era muito longínquo, que eu nem sabia que existia. Acabei por dispensar a todos os exames posteriores de admissão e ganhar uma bolsa de estudo da Gulbenkian, porque era pobre (era preciso um atestado da Junta de Freguesia) que me permitiu vir estudar para Lisboa porque lá em baixo não havia nada de nível superior. O máximo que havia era a Escola do Magistério Primário, na capital da província. Hoje pareço mal-educada porque não tolero hipocrisias e sou o mais ácida possível sempre que encontro alguém a armar-se em chico esperto, mas nem mesmo as doenças me impediram de ter pena dos que são culturalmente ignorantes. Ontem até um "amigo" do FB me eliminou da sua lista só porque eu lhe dei uma descasca porque ele pôs na sua página "que não festejava o 25 de Abril e que os cravos fizeram de nós escravos". Não suportei tal afronta deste pavão, que teve hipóteses de ser alguém mas prefere viver de esquemas. Hoje contei isto a uma amiga comum e também lhe dei uma lição de história, porque ela apesar de ter nascido aqui, chamava presidente da República ao Marcelo caetano e apesar de já ser adulta na altura, não sabia como se fez a transição do poder depois do 25/4. Até lhe tive de falar da Junta de Salvação Nacional e de que estive até à uma e tal da manhã a ouvir o Fernando Balsinha e o Fialho Gouveia à espera do comunicado que a Junta viria fazer ao País (na altura do que menos gostei foi do Galvão de Melo, que também era um pavão). Até fiquei arrepiada quando ela me disse que não devíamos ter dado a independência às colónias porque se fartou de limpar merda dos pretos que estragaram os hotéis. É este o País que ainda temos. E este tempo que lhe dediquei é pago por mim.
      Acho que teria sido muito mais feliz se, por exemplo, tivesse sido cabeleireira. Mas deu-me para os livros e até esgotei a biblioteca do estabelecimento de ensino, no secundário, (nunca me esqueci do Oliveira Martins, que achei enfadonho, na altura) e, como se não bastasse, às quartas-feiras ainda ia à biblioteca itinerante da Gulbenkian que estacionava no Jardim Manuel Bívar.

      Peço desculpa ao Carlos por estes meus desabafos, mas eu sempre disse aquilo que penso, seja a quem for. Sou honesta de mais para dizer coisa diferente do que penso e não mimo ninguém porque também não me lembro de ter levado um beijo parental de ternura, porque era preciso manter a distância ou a indiferença. Mas estou sempre presente quando alguém precisa.

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    2. Sistemáticos, obviamente, Bea. Peço-lhe muita desculpa, mas já por cá ando há anos suficientes para ter percebido que essa da ignorância não cola. E há um ditado popular que qualifica de forma exemplar "este povo" qie aqui retrato e existe: " Se queres conhecer o vilão, põe-lhe uma vara na mão". Ou, melhor ainda " Não peças a quem pediu, não sirvas a quem serviu".
      A cançaõ do coitadinho iletrado não se aplica a este povo que aqui retrato, bea.
      Esse povo iletrado não tem carro, mal sabe quem foi Salazar, não se empertiga perante os funcionários das finanças, nem ´culpa os funcionários públicos por todos os males do país, paga os seus impostos, não se endividou até ao tutano para ter um telemóvel novo e um carro que faça inveja ao vizinho.

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    3. Não precisa de pedir desculpa, Anfitrite. Está obviamente muito enganada. Tive o privilégio de ter vivido e trabalhado em 8 distritos, de Norte a sul do país, durante períodos consideráveis. Trabalhei em lugares recônditos, onde as pessoas comeram o pão que o diabo amassou.~Como já respondi à Bea, não é a esse povo que me dirijo. Leia a resposta que dei à Bea e perceberá que o post é dirigido ao povo que veio para a cidadem melhorou as suas condições de vida, esqueceu as suas origens e se comporta como aqueles brasileiros que pedem a demissão de Dilma e insultam o PT, esquecendo que foi Lula que os tirou da miséria. Ignorância? Não! Karl Marx explicava bem esse comportamento de "algum" povo que renegou ou esqueceu as suas origens. E não me consta que tenham sido problemas de saúde que lhe tenham dado a clarividência para perceber a razão desse "desvio".

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    4. A mulher a dias, que considero amiga e a quem dei a lição tem uma reforma de 300 e tal euros, foi reformada antecipadamente porque terminou o tempo de desemprego, desloca-se sempre de carro de um lado para outro, mas é uma ignorante cultural e politicamente e vota direita, porque a única coisa que sabe é do que ouve das outras pessoas e do que os quatro canais lhe dizem. ela anda sempre a dizer que eu devia fazer obras na casa, mas ela não tem um tostão e se lhe acontecer alguma coisa nem os gatos que tem pode sustentar.

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    5. A minha empregada, que também é minha amiga, não tem carro, só telemóvel, ficou viúva aos 40 anos, com uma miúda de 2 anos bastante doente e outra de 18 que também tem problemas de saúde, não tem dinheiro para mandar cantar um cego, vira-se como pode para que o mês acabe antes de terminar o dinheiro, é um bocadinho menos ignorante, talvez porque não seja preguiçosa e acomodada. Vota esquerda, discute comigo as notícias do dia e, como eu, revolta-se como com as vizinhas do bairro dela, porque se andam sempre a lamentar, mas nada fazem para mudar as coisas.
      Se lesse o seu comentário e o da Bea, não iria gostar, de certeza...

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    6. A sua empregada não é a regra, mas a excepção. E o nosso comentário - meu e da Anfitrite - não visa senão aqueles a quem sirva o chapéu. Há muita gente que não é nem como eu ou a Anfitrite dizemos, nem como os casos que enumera. E no entanto, não será necessariamente melhor em termos democráticos.
      Concordo que somos um povo que aguenta e resiste à mudança. Tem razão Rentes de Carvalho ao afirmar que somos medricas. Mas sabe, há nesse escritor qualquer coisa de que gosto muito na escrita; e outra qualquer coisa que ele não vê nos portugueses ou porque não quer ou porque não pode e que lamento. Critica por exemplo que gostemos de estar num emprego até à morte, que sejamos pouco ambiciosos. Talvez seja verdade. Mas já terá pensado o senhor que nem toda a gente é como ele? Que existem pessoas que o desejam, que querem uma certa calma na vida e só ela as faz, digamos, felizes? Sem andar a desejar subir não sei para onde, ou a pular não se sabe para que patamar, ou a subi-lo esforçadamente. Dir-me-á que assim não vamos a lado nenhum. Mas é que não somos todos assim, temos é de admitir que existe quem o seja. E mais, o nosso país devia dar aos jovens as oportunidades que nos deu a nós: dar um emprego vitalício a quem o desejar. Porque, quem queira subir, não está inibido. Mas os que queiram ser cisnes, podem sê-lo. É isto que, democraticamente, também nos falta.
      Mas falta muita coisa em muita gente. E faltará sempre.
      De todo o modo gostei da nossa conversa
      Anphy, dantes não concordava assim comigo, que é que se passa?!

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    7. bea, eu sempre concordei consigo. Simplesmente às vezes metia-me consigo por ser um pouco distraída e por haver uma ave que inquinava as conversas. Além disso o ambiente era mais informal e aqui a bea tem falado mais a sério. Eu acho que veio enriquecer o ambiente porque eu já disse que detestava as pessoas que só dizem amém. Muitos parecem uns passarinhos que andam a largar a poia de blogue em blogue.
      Hoje tinha pensado desistir que comentar aqui, porque envergonhei uma empregada doméstica com os meus comentários e porque me exponho demasiado. Eu não tenho empregada apenas tenho uma pessoa que vem fazer umas horas quando precisa mesmo de algum dinheiro, mas até isso eu aguento.
      Pelos vistos o Carlos não gosta que discordem do que ele diz, porque responde logo que fomos nós que não entendemos o que ele queria dizer.
      Hoje por exemplo teria tanto a dizer sobre a Monsanto e sobre tudo o que se passa, mas podem pensar que me quero evidenciar por isso não digo nada. Não aprendi a ser sintética, porque não segui Letras, muito menos Direito e nunca fui obrigada a dizer o que penso em x caracteres.
      Também não comento em blogues que tenham censura. Eu até tenho um blogue, só que a minha saúde não me permite mantê-lo regularmente até porque não gosto de pôr simplesmente um vídeo, ou um pensamento de tudo que já está na Net. Nunca teve censura e nunca ninguém me ofendeu. Têm me batido mais nas respostas aos meus comentários, mas é que que acontece quando se diz o que se pensa e não se é politicamente correcta.
      Biépi

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  5. ~~~
    O menino, de há uns tempos para cá, anda com uma linguagem pouco

    profissional - um eufemismo, pois não quero melindrar um amigo -

    e sabe que essa opção não ajuda minimamene a esclarecer factos e

    situações.

    O dia 25 de Abril é o aniversário da revolução e serve para

    homenagear a valentia dos que tiveram coragem de enfrentar

    a ditadura que como polvo dantesco, asfixiava o nosso país.

    Não me parece que seja ocasião própria para fazer análises

    políticas sobre o passado...

    Porém, estamos a 26 e posso-lhe assegurar que Cavaco conseguiu

    o governo porque a esquerda consentiu e foi presidente porque o

    PS permitiu...

    Erros crassos que desejamos que tenham servido de lição.

    ~~~ Desejo de boa semana, com um abraço amigo. ~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Eu sei, Majo, que há coisas que custa admitir, mas há que ter coragem para as escrever e denunciar. Esta é a altura ideal para parar e pensar.

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