sexta-feira, 15 de abril de 2016

Premonições (2)




"O grande problema da Europa é os europeus terem perdido referências e, sobretudo, memória.  Dentro de 20 anos a maioria da população europeia dividir-se-á em dois grandes grupos: os idosos, afectados por Alzheimer e outras doenças mentais, que já não se recordarão das guerras mundiais nem das atrocidades nazis e os mais jovens que nunca souberam o que é viver  em guerra, ou sem democracia, que desvalorizam o fascismo e menosprezam a política porque os mais velhos se esqueceram de os alertar para essas questões.
Pelo contrário. Para evitar traumas aos filhos e netos, procuraram adocicar a realidade do seu passado e enaltecer as virtudes da sociedade de consumo onde tudo está ao seu alcance, desde que trabalhem para ganhar dinheiro.
Será esta postura de submissão ao consumismo desenfreado, que fomenta o desperdício,  que irá ditar o fim da Europa dentro de algumas décadas. Os líderes gerados por esta sociedade de consumo serão fracos, sem memória, formatados nas juventudes partidárias e agirão como autómatos submetendo-se às ordens dos mercados que ditarão as regras da política europeia. 
O desmembramento da URSS, tão aclamado por partidos de direita e socialistas, será então encarado de outra forma e perceberemos, à custa de sangue, suor e lágrimas, que o bloco de Leste garantia a estabilidade  e a paz na Europa.  Bens  que se perderão, porque a CEE  será vítima dos seus próprios erros de avaliação. A sociedade do Bem Estar não estará garantida eternamente, se os povos não tiverem referências e, sobretudo, ignorarem as lições da História. 
Gostaria de estar enganado mas, se daqui a 20 ou 30 anos ainda por cá andar e continuar a escrever em jornais, estarei certamente a confirmar a morte de uma Europa que se deixou enlear pelos cantos da sociedade de consumo e irá acabar refém de poderes ditatoriais, que utilizaram a arma do crédito  barato ao consumo para seduzir os cidadãos. A vida dos europeus será controlada como nunca, a prometida sociedade do lazer e da abundância criará desemprego e uma enorme franja de população faminta terá de ser controlada para que a ordem seja mantida. 
Pior ainda, será constatar que se confirmará aquilo que alguns cientistas prenunciaram há meses na Cimeira do Rio: a Europa será invadida por hordas de migrantes famintos, provenientes do Norte de África, fugindo à fome e à guerra, porque a globalização é uma mentira. Não elimina as causas da pobreza e apenas beneficiará os países mais desenvolvidos, as empresas melhor apetrechadas para investirem em países com mão de obra barata e os investidores sem rosto. Eles são os grandes defensores da globalização, porque ficarão ainda mais ricos.(...)"

( Excerto de um artigo que escrevi na Tribuna de Macau em Setembro de 1992) 

6 comentários:

  1. Bom dia, Carlos.
    Não era premonição, era constatação lógica da evolução. Mas quase ninguém aceita isso. E os que têm essa visão corajosa, com certeza que prefeririam não ter razão, porque a razão enlouquece o ser.
    Muito bom.
    abraço

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  2. Bom, em primeiro lugar, e mesmo que não muito importante, você viveu na verdade mais 24 anos. Pode que viva os 30:). Parabéns.

    Em segundo lugar, fez uma previsão mais ou menos rigorosa. Que, diga-se em abono da verdade, era consequente para quem não embarcasse em sonhos melómanos (mas os portugueses em geral embarcaram, sim; por várias razões, umas mais atiladas que outras).

    Em terceiro lugar, olhe, não sei que lhe diga. Sinto que já não consigo mudar o mundo (nunca consegui, mas houve tempo em que acreditei). Vou tentar aguentá-lo nos anos que me restam e tenho de pegá-lo tal como se me apresente, não vale a pena fingir. Não é o mundo que eu queria, o que sonhei. Mas o mundo nunca foi o que eu desejei, foi sempre ele, uma monstruosidade na qual me movo e que não domino. Não tem os meus valores, mas não vou perdê-los ou abrir mão deles por isso. Ao contrário, quero continuar a afirmá-los, mesmo que me digam que não existem, não se usam, estão démodés. Não podemos abdicar do chão que pisamos.
    e BFS

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  3. Carlos, vinte anos já passaram (fiquei contente porque, a princípio, pensei que o artigo era actual, mas já valeu a pena).Que venha um ano de cada vez.
    Este ano ninguém recordou que no dia 6 de Março fez cem anos que o grande Portugal entrou na PRIMEIRA GRANDE GUERRA. Eu não me esqueço porque no dia 9.04.2018 fez 98 anos que o meu avô ficou despedaçado em La Lys, nem corpo houve para enterrar. Deixou cá a semente que viria a ser meu pai o que nunca nos tornou a vida fácil.

    http://www.areamilitar.net/HISTbcr.aspx?N=131

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Bernardino_Machado

    Há que muito se orgulhe do que este senhor fez.

    Um bom fim-de-semana.

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    1. Desculpe lá, Anfitrite, mas segui o link e fiquei com dúvidas sobre quem era o seu avô. Quer esclarecer?

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    2. O meu avô era um pobre cabo que ficou desfeito na Batalha de La Lys. O link era para identificar a data e as tristes razões porque o Bernardino Machado revolveu entrar na guerra para disfarçar o seu servilismo aos ingleses e a honra que um bisneto tem em conservar o nome duma família que enriqueceu explorando a escravatura brasileira. isto é uma velha história que não dá para esclarecer assim. Ninguém tem culpa dos seus antepassados, agora enaltecer todas as suas safadezas só porque era uma pessoa inteligente ainda é pior, porque com inteligência consegue-se ser mais perverso. Serviu-se da Monarquia, da República, da Maçonaria e muito mais. Porque isto me atingiu eu dediquei-me muito a aprofundar as razões deste entrada na guerra. Este assunto eu já discuti com o visado que foi mentalizado pelo seu pai, que até alterou a ordem da sequência natural dos nomes, para que continuasse a permanecer nos filhos e netos. Não se preocupe. Foi um desabafo. Eu acho que nos blogues devia haver mais diálogo e não só concordância ou não. Isso hoje acontece no FB, mas com muitos maus exemplos.

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    3. Concordo consigo, Anfitrite, mas a blogosfera já não é o que era, infelizmente. O CR fazia parte de um blogobairro com vizinhos muito simpáticos, mas todos foram partindo para o condomínio do FB e esqueceram as origens. O que vale é que, com alguns, fiquei a ter uma relação pessoal bastante agradável e até, em alguns casos de amizade.
      Muito obrigado pelos seus esclarecimentos.

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