domingo, 28 de fevereiro de 2016

Bibó Porto (65): Vamos ao Palácio?




Quando começava a ecoar nos ares a pergunta “ Vamos ao Palácio?”, era como se um pregão me anunciasse a chegada do Verão.
 Nos anos em que não havia exames, era sinal de que as férias iam começar, nos outros um aviso para acelerar os estudos, porque dali a poucas semanas seria posto à prova o meu trabalho durante os anos precedentes.
Os leitores do Porto sabem  bem o significado da pergunta “ Vamos ao Palácio?” mas, aos que aqui aportam vindos de outras paragens, devo uma explicação.
Durante as férias grandes , as idas ao Palácio durante a tarde, com amigos, eram frequentes e uma das raras oportunidades que se ofereciam, a muitos jovens adolescentes, de traquinar ao ar livre em plena liberdade.
“Ir ao Palácio” era ir à Feira Popular. Era comer farturas, jogar matraquilhos, andar nos carrinhos de choque,  passear na Av das Tílias, catrapiscar um namorico, responder à chamada quando uma mulher corpulenta  convidava “ Oh freguês, vai um tirinho?”,  comer um  “Palino” , ou devorar um balde de pipocas, sem ter de ouvir os alertas dos progenitores para eventuais excessos.
À noite, normalmente, “Ir ao Palácio” tinha outro significado. Eram idas em família, onde se incluía um passeio na Avenida e uma fuga com hora marcada e uns tostões extra no bolso, enquanto os adultos se sentavam  na esplanada a tomar qualquer coisa. Antes do regresso, fazia-se a romaria pelas chocolateiras, fazendo furos na expectativa da bola dourada, prémio supremo a que se tinha direito.

Alguns leitores já terão porventura perguntado por que raio no Porto se chamava Palácio à Feira Popular.  Ora, a resposta a essa magna questão, é o objectivo do “Bibó Porto” desta semana.
Apesar das peculiaridades do linguarejar nortenho, Feira Popular não é sinónimo de Palácio. E, ao contrário do que eu pensei na primeira vez que lá fui, na companhia dos meus pais, também não havia no recinto nenhum palácio encantado, povoado por princesas, bruxas e duendes.   Por isso, nessa primeira visita ao Palácio, massacrei os meus pais com a pergunta: “Quando é que vamos ao Palácio?” . Só no regresso a casa  a minha mãe se apressou a dar resposta à minha insistente pergunta. Pegou no álbum de fotografias e mostrou-me este Palácio de Cristal.

Vista dos jardins e  do interior




Que eu não vira porque, em seu lugar, havia então um enorme cogumelo ( que se viria a chamar Rosa Mota), em cujo interior se praticavam desportos, nomeadamente hóquei em patins, modalidade de que me tornei fão desde que em 1956, com 6 aninhos apenas, me juntei a  mais alguns milhares de gargantas e gritei a plenos pulmões “ Viva Portugal!” depois de uma vitória estrondosa sobre os inimigos espanhóis, que permitiu aos bravos lusos  conquistar o campeonato do mundo da modalidade, coisa que deveria ser tão extraordinária que me senti na obrigação de fixar, para toda a eternidade, o cinco das “quinas”: Moreira, Vaz Guedes, Adrião Velasco e Bouçós. Particularidade que também nunca esqueci, é que destes cinco hoquistas, quatro eram moçambicanos. Razão porque à  saída perguntei ao meu pai:
“Então eles são de África e nenhum é preto?”
Ainda hoje recordo o olhar fulminante que o meu  pai me devolveu e como me obrigou a estugar o passo até ao carro, onde me deu uma rabecada por tão insolente pergunta.

Aqui chegados, a  maioria dos leitores já terá desistido da leitura mas, para os resistentes, explicarei que o Palácio de Cristal  foi construído em 1865 para albergar a 1ª Exposição Internacional Portuguesa, uma iniciativa de comerciantes da cidade.
Dizem os documentos da época, que a exposição se enquadrava no âmbito das grandes exposições mundiais, rivalizando com a de Londres ( Hyde Park) e Paris e o Palácio de Cristal foi construído à semelhança do Crystal Palace londrino.
Ora era nos jardins do Palácio de Cristal, demolido em 1951( para dar lugar ao tal cogumelo que se viria a chamar Rosa Mota) que todos os anos tinha lugar a Feira Popular do Porto.
Ano passado fiz uma visita de reconhecimento aos jardins do Palácio de Cristal, onde tirei as fotos que aqui publico.


Recomendo aos visitantes da minha bela cidade do Porto, uma visita demorada, em dia primaveril ou estival, para desfrutar  da frescura, ver as avestruzes,  apreciar as estátuas, os lagos e, acima de tudo, maravilhar-se com a magnífica vista sobre o Douro.
Ao final da tarde, aproveite e vá tomar um vinho do Porto aqui, enquanto vê o pôr do sol.


15 comentários:

  1. Ainda me lembro bem do Palácio de Cristal (mesmo) !!!... Foi lá que aprendi a andar de bicicleta ! Naquela altura (ainda anos 40) eles alugavam para esse efeito e o meu pai levava-me lá para "treinar", já que na rua era mais perigoso !
    Belos tempos esses da Feira Popular e dos passeios pela avenida e jardins !!! Nos anos 50 já então o Pavilhão dos Desportos ! :))

    Abraço, Carlos ! :) ... Bom recordar !

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    1. Tenho pena de nunca ter visto o Palácio de Cristal. É algo que ficou para sempre no meu imaginário, não sei se por influência dos livros infantis, se pelo facto de ter ficado deslumbrado quando a minha mãe me mostrou as fotos.
      Grande abraço, Rui

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  2. Gostei de ter coragem para ler tudo. Não fazia ideia de que uma feira popular pudesse, em qualquer lugar do mundo, dar pelo nome de palácio.

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  3. Gostei muito de ler , tudo que referiu sobre o palácio de cristal...Tenho uma vaga , muito vaga ideia do anterior.Iamos fazer férias de praia no Porto , praia que eu sempre detestei , mas fazia bem ( ?) aos jovens da família e lá nos ia levar o meu pai. À noite . depois de banho tomado e os vestidos que se faziam de propósito para a ocasião , ir ao palácio , para completar o dia , era o máximo . Já lá vão muitos muitos anos. Creio que a última vez que lá fomos , ainda o meu pai era vivo , foi na missa da queima das fitas do meu filho. Estava repleto , foi emocionante , não pela missa , mas ver tantos jovens com o futuro promissor; na altura , ainda era promissor , pois na engenharia , eram as empresas que os iam recrutar às universidades.
    M.A.A.

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    1. O "Palácio" deixou marcas em várias gerações de tripeiros, mas não só. Quando lá tirei estas fotografias, parecia que estava a ouvir os sons da minha juventude. O pregão do Oh freguês, vai um tirinho? Ou o som metálico dos carrinhos de choque...

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  4. Juro que li tudo. E nem conhecia a história do final do Palácio de Cristal. Fiquei contente por recordar os velhos tempos em que éramos a glória do hóquei em patins. Também sei de cor o nome desses grandes jogadores. Andava a estudar e de noite ficava acordada para ouvir os relatos dos jogos nos campeonatos. mais tarde, já na televisão, não me esqueço da figura esbelta e ágil de Fernando Adrião. Grandes jogadores. também fui ver agora e soube que morreu Há dez anos.

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    1. Tempos em que os nossos sucessos desportivos deslizavam sobre rodas :-)

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  5. Agradeço a resenha histórica, amigo, pois não sabia de onde vinha o termo Palácio...

    Boa semana

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    1. Não tens nada de agradecer.´Dá-me imenso prazer escrever sobre o Porto e divulgar a quem aqui passa, as belezas de uma cidade que, hoje em dia, está fantástica!

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  6. Não só não desisti da leitura como o felicito por esta bela reportagem que muito diz do seu amor pela Invicta e lugares onde foi feliz, Carlos!

    O Palácio de Cristal(mesmo) - como diz o Rui - já não é do meu tempo, mas ainda não se chamava Pavilhão Rosa Mota, quando o conheci.

    Os jardins são belíssimos e as vistas do Rio Douro a serpentear até perder de vista, um deleite para a vista.
    E os magníficos pavões, Carlos? Esqueceu-se de falar neles ao enumerar as atracções dos Jardins! :)

    E Bibó Porto, sempre!

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    1. Tem toda a razão, Janita. Imperdoável a minha falha, até porque tinha uma foto com um pavão para publicar...

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  7. Um local que é de visita obrigatória na linda cidade do Porto.
    Aquele abraço, boa semana

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  8. Que saudades que tenho do "meu" Palácio.

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