terça-feira, 7 de abril de 2015

Será esta rosa flor que se cheire?






Os ataques aos funcionários públicos vêm de longe. 
Embora poucos se recordem, começaram  timidamente quando Manuela Ferreira Leite ( hoje uma defensora da dignidade da função pública) era ministra das finanças; intensificaram-se com os cortes de salários de Sócrates e atingiram o pico com a cambada actualmente no poder, que os identificou como alvo preferencial da sua política de austeridade.  
Para além da redução de salários e do corte do subsídio de férias e de Natal ( travados pelo Tribunal Constitucional) a troika Coelho, Portas, Gaspar/ Marilú aumentou brutalmente os descontos para a ADSE, congelou definitivamente as progressões nas carreiras, diminuiu férias, aumentou horário de trabalho, partidarizou a administração pública desde os lugares de topo às chefias intermédias e fez passar insistentemente para a opinião pública, a mensagem de que a administração pública é um bando de incompetentes, viciosos e gastadores que consome os recursos do Estado.
Muitos funcionários públicos terão acreditado que o PS de António Costa poderia inverter o ciclo e restituir a dignidade aos funcionários públicos. Bem podem desenganar-se! 
A pretexto da transparência, o PS apresentou uma proposta em que defende a divulgação pública dos salários de todos os funcionários públicos.
O projecto -  elaborado por José Magalhães -  indicia que também os socialistas olham para o aparelho do Estado como um grupo de bandidos corruptos que deve ser despido em praça pública, para que a populaça os aponte a dedo como privilegiados do sistema e responsáveis pelo estado a que esta merda de país chegou. Quiçá, como fonte da corrupção que grassa no país.
Já aqui escrevi- e não mudei de opinião-  que muitos funcionários públicos são merecedores desta caça às bruxas, porque vivem num sistema de castas onde ninguém quer perder privilégios ( que existem, como  demonstra de modo exuberante o sistema remuneratório diferenciado, que  favorece desigualdades gritantes, graças a subsídios e complementos por vezes inexplicáveis) e nunca souberam unir-se na defesa de interesses comuns. 
Não deixa de ser preocupante, porém, constatar que numa altura em que se discute o direito ao sigilo fiscal e à protecção de dados, o PS  apresente uma proposta que visa expor nominal e publicamente os rendimentos dos funcionários públicos. Proposta de alcance pouco claro, já que as tabelas salariais são públicas e estão ao alcance de qualquer cidadão. Individualizar essa exposição,tornado-a nominal desde o lugar de topo até à base,  só contribui para prosseguir a política de demonização e suspeição do funcionalismo público iniciada pelo actual governo. Sem acusar ninguém, mas levantando suspeitas, o PS olha para a administração pública com os mesmos olhos da coligação PSD/CDS. 



Será esta rosa, flor que se cheire?
Não chega acenar com políticas sociais para ganhar eleições. É preciso fazer diferente e ser assertivo nas políticas económicas e laborais. Ser claro na política fiscal e distributiva e sobre o papel do Estado. Sei que o PS apresentará o seu programa no dia 6 de Junho mas... se é para fazer mais do mesmo - ou pior- então um voto no PS nas legislativas do outono é absolutamente inútil. Não me restrinjo, obviamente, à posição do PS em relação ao funcionalismo público. Só utilizei como exemplo, porque o partido da rosa optou por dar a cara nesta matéria. E fez bem, para que nenhum funcionário público vote enganado.


4 comentários:

  1. O mal está, como nas doenças, na(s) causa(s). Valera a pena desenvolver? Creio que não, é só vermos onde ela(s) estã(ão), a(s) causa(s).

    ResponderEliminar
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  3. «Já aqui escrevi e não mudei de opinião, que muitos funcionários públicos são merecedores desta caça às bruxas, porque vivem num sistema de castas onde ninguém quer perder privilégios»

    Há funcionários públicos que faziam melhor em estar em casa a ganhar o ordenado e a não irem trabalhar, por incrível que pareça, assim causariam menos problemas ao Estado. Mas como é óbvio, não serão todos assim. O pior, é que por causa de alguns maus profissionais, pagam todos os outros com língua de palmo.

    ResponderEliminar