terça-feira, 24 de março de 2015

Na hora do adeus


Herberto Helder (1930-2015)


A última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra [bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse [nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a
[habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!

(in A Morte sem Mestre, ed. Porto Editora, 2014)

4 comentários:

  1. Também um dos poemas que mais me agradou neste seu derradeiro livro...

    Amigo, uma noite serena para ti e Paz para ele!

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  2. Se houvesse muita gente desinteressada e com o talento deste HOMEM, o nosso País e o Mundo seriam muito melhores.
    Talento à parte, acho que já me sinto um pouco como ele. Detesto esta sociedade onde vivo. Será porque tenho o nome de uma filha dele?

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  3. Ouvi a notícia logo pela manhã.
    Que repouse em paz

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  4. Que o poeta dos poetas descanse em paz.

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