quarta-feira, 11 de março de 2015

Mágoas de Março (1)


Há 40 anos era eu um alferes miliciano a cumprir serviço em Tomar. No dia 11 de Março o general Spínola , apoiado pela extrema-direita, tentou um golpe militar que não resultou, mas seria o começo do fim das ilusões de Abril.
Vale a pena lembrar, por estes dias, que a tentativa de golpe de Spínola e da extrema-direita foi consequência de uma falhada manifestação da “maioria silenciosa” por ele arquitectada, em 28 de Setembro de 1974. Spínola demitiu-se do cargo de Presidente da República e passou a congeminar o golpe. Um boato posto a circular, de que o PCP e o COPCON iriam proceder à liquidação de militares e alguns civis de direita, serviu de pretexto a Spínola para avançar.
No dia 11 de Março de 1975, ao final da manhã, com o apoio dos pára-quedistas de Tancos, ataca com aviões e helicópteros o RAL 1 (em Lisboa), comandado por Dinis de Almeida, que recusa a rendição, afirmando só dever obediência ao PR, ao PM e ao comandante do COPCON, Otelo Saraiva de Carvalho. Quando o confronto parecia iminente e tudo indicava que a unidade ia ser tomada pela força, Dinis Almeida terá conseguido um entendimento e as tropas em confronto abraçam-se, proclamando vivas ao 25 de Abril.
Entretanto, desde o início da tarde, tinham começado a surgir apelos à mobilização popular. Levantaram-se barricadas nas estradas, os bancos encerraram à tarde e havia piquetes nos locais de trabalho. Algumas unidades militares, como o RI 15 onde eu me encontrava, entraram de prevenção. Põe-se mesmo a hipótese de entregar “armas ao povo”. A casa do general Spínola é assaltada em Lisboa, bem como as sedes do CDS e do PDC (Partido da Democracia Cristã, conotado com a extrema-direita).A norte, são as sedes do PCP e do MDP/CDE as atacadas.
Spínola, o mentor do golpe, fugiu para Espanha e pediu apoio a Franco para invadir Portugal.O ditador espanhol pediu o beneplácito dos Estados Unidos que foram reticentes e o alertaram para a possibilidade de um contra ataque soviético e uma desestabilização interna em Espanha. O ditador continuou a fazer diligências junto do governo americano durante meses, mas a Divina Providência encarregou-se de lhe enviar o mensageiro da Morte e Espanha iniciaria o caminho para a democracia.



Viver-se-iam posteriormente os meses do PREC, mas foi naquele dia 11 de Março de 1975 que se começou a congeminar e preparar o 25 de Novembro. Depois, os cravos começaram a murchar e poucos são os que ainda hoje os guardam viçosos, como símbolo do dia em que acreditámos que tínhamos recuperado a Liberdade.
Puro engano. Os que hoje nos governam têm a mesma perversidade mental do Estado Novo: o esforço de quem trabalha só é meritório se contribuir para tornar os ricos mais ricos.
Em três anos, Portugal regrediu 30 em todos os parâmetros sócio - económicos. Insuficiente para quem nos governa. Na impossibilidade de recuperar as colónias onde muitos dos nossos actuais governantes vicejaram,  eles só estarão satisfeitos quando Portugal regressar aos parâmetros do Estado Novo. Esse é o seu único objectivo.

3 comentários:

  1. Na altura em que se deu o 11 de Março de 1975 era eu uma criança que andava na infantil, por isso lembro-me vagamente do episódio «in loco». Recordo-me que estava num infantário nos Olivais e depois do almoço os responsáveis do mesmo obrigaram-me a mim e às restantes crianças a ir para o interior do ginásio. Só se fazia isso em dias de chuva, mas num dia de sol? Depois lá disseram que era para a nossa segurança, já que podia haver uma guerra nas proximidades.

    O infantário alertou os país e a minha mãe meteu-se no carro (um mini) e foi buscar-me a meio da tarde. Contou-me que chegou aos Ralis (Regimento de Artilharia de Lisboa), foi barrada por uma coluna de soldados, que lhe disseram que não podia passar, ficando por isso aflita por temer não poder ir buscar-me. Teve por isso que recuar, dar meia volta e por outro caminho qualquer lá conseguiu ir buscar-me ao infantário. Lembro-me no caminho para casa de ver jactos da Força Aérea no céu que faziam imenso barulho, mas não fazia ideia do que poderia ser.

    Mais tarde (no próprio dia) soube que se tinha tratado de um golpe de estado falhado e anos depois é que me inteirei das reais consequências dessa data.
    Se o Carlos ao dizer: «Depois, os cravos começaram a murchar» se se refere ao que se passou imediatamente a seguir, concordo consigo. Foi nesse dia que quase tudo o que existia em Portugal foi nacionalizado, o país daí para a frente (nos anos seguintes) andou para trás a todos os níveis e demorou ainda mais anos a recuperar das asneiras cometidas nesse dia e que ainda hoje tem algumas repercussões.

    Por tudo, isso considero o 11 de Março de 1975, uma data completamente infame que só me causa repulsa e tristeza.

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  2. Acho que só hoje compreendi a verdadeira história do 11.03.1975, pelo excelente documentário realizado pela RTP1. Realmente nós somos um povo diferente. Atacamos uma região militar e acabamos aos abraços. Ainda por cima o documentário acabou tendo por imagem uma máquina de dactilografia com um teclado verdadeiramente português, como queria Salazar. Há pormenores que contam!
    "A vida em HCESAR é mais rica de sentido do que a vida em AZERT"- Alexandre O'Neill

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  3. Esqueceu-se de terrível terremoto e tsunami no Japão, Carlos

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