segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Se bem me lembro...


Este cartoon de António publicado no Expresso levantou enorme celeuma.
Muitos dos que hoje  se indignam com o atentado contra o Charlie Hebdo, criticaram-no ferozmente, por o considerarem uma ofensa à Igreja Católica e a todos os católicos.
Lembro-me que nessa altura se discutia acaloradamente se não devia haver um limite à liberdade de expressão.
Lembro-me também da indignação de um  Lara, secretário de estado da cultura de Cavaco, que proibiu a nomeação de " O Evangelho Segundo Jesus Cristo", de Saramago,  para um prémio literário europeu, com o argumento de que o livro ofendia os valores nacionais.
E lembro-me da indignação da Igreja Católica mais conservadora e dos que sairam à liça clamando que a liberdade de expressão tinha limites.
Lembro-me de ter participado em debates em Macau sobre o livro, onde os argumentos contra eram de um conservadorismo primário.
E lembro-me das críticas ferozes que recebi de algumas pessoas, na sequência de um artigo que escrevi na Tribuna de Macau a propósito do debate.
E lembro-me dos que exigiam que se pusesse um travão na liberdade de expressão.
E lembro-me da proibição de Humor de Perdição de Herman José, por causa de uma entrevista à Rainha Santa Isabel que a direita considerou um atentado aos nossos valores históricos. Anos depois, essa mesma direita eliminou o feriado de 1 de dezembro, símbolo da nossa independência, alegando interesse nacional.
E porque me lembro disto tudo considero de uma hipocrisia sem nome muitos daqueles que hoje se dizem indignados contra o ataque ao Charlie Hebdo.
Poderia argumentar que pimenta no cú dos outros é refresco, mas não vou por aí.  Limito-me a lembrar que  muitos desses indignados são tão fundamentalistas como os atacantes do Charlie Hebdo, mas disfarçam muito bem. Para muitos deles, bater numa mulher na dose certa, nunca será violência doméstica. Como ainda há não muito tempo um douto juiz fez questão de salientar numa sentença.

11 comentários:

  1. Sem recuar tanto, lembro-me de quem defenda a criminalização do "piropo" e se considere "Charlie".

    MR

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  2. Efeito "carneirada", mesmo que por bons motivos (peço desculpa pelo termo).

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  3. Desculpe-me Carlos, mas não estou de acordo ! :)
    Todos nós temos a obrigação democrática de "aceitar".
    Isso não é a mesma coisa que "estar de acordo" !
    Uma coisa é não estar de acordo e dar a opinião, criticar, como todos fazemos. Outra, é não estar de acordo e matar por isso !
    Todos têm o direito à sua opinião, pró ou contra e o direito a manifestá-la publicamente, mas "fundamentalismos" extremistas, ao ponto de matar, NÃO !

    :)) ... Desculpe estar do contra, mas também é apenas a minha opinião ! :)))

    Abraço ! :))

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    1. Ó Rui! Este espaço é plural e todas as opiniões são aceites. A única coisa que não tolero é falta de educação e pessoas que insultam e ameaçam quando discordam da minha opinião.
      Felizmente, em mais de 7 anos de blog isso só aconteceu com duas pessoas mais "nervosas" e muito "sensíveis".
      Como o meu amigo, também não digiro bem extremismos, mas este meu post não pretende justificar o ataque ao Charlie Hebdo que considero abominável. Apenas pretende chamar a aatenção para algumas pessoas que hoje proclamam " Je suis Charlie" , mas tomaram atitude muito diferente quando os ataques foram à Igreja Católica.
      Grande abraço e discorde sempre que queira, porque o confronto de ideias é que enriquece a blogosfera.

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  4. ~ Rui, desculpa-me, mas uma coisa é emitir uma opinião, outra, é exercer a censura.

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  5. Carlos se o estou a interpretar bem, o seu texto refere-se à falta de coerência de algumas pessoas que defendem a liberdade de expressão, mas que anteriormente não o fizeram. De um modo geral dou-lhe razão. No entanto gostava de fazer algumas considerações:

    Para mim a liberdade de expressão é dos valores mais sagrados da democracia, é inviolável e inegociável (ou devia ser). No entanto a liberdade de expressão não é ilimitada e deve ser usada com bom senso. Eu não posso fazer a apologia do crime, do satanismo ou insultar alegremente qualquer pessoa, instituição ou religião ao abrigo da liberdade de expressão, até porque isso colide com a ordem penal. Ou seja, a minha liberdade de expressão terminada onde começa a dos outros, ou se preferir, se colide com a liberdade dos outros.

    Carlos, ainda bem que trouxe esses caso todos à baila.
    Lembro-me bem do cartoon de António do Expresso, foi em 1992. Também me lembro que não causou assim tanta polémica, apenas na Polónia natal do então Papa veio um comentário muito desagradável num jornal local a chamar víbora ao cartoonista António. Como católico, senti-me ofendido, se fosse cartoonista jamais faria um cartoon daqueles e se fosse director do Expresso não tinha autorizado a sua publicação. Mas como o cartoon saiu, limitei-me apenas expressar o meu desacordo, desrespeito do mesmo para com a Igreja e o seu terrível mau gosto. Mas aceitei a sua publicação ao abrigo da liberdade de expressão. E jamais me passaria pela cabeça meter uma bala ma cabeça do António e aniquilar a redacção do Expresso por causa disso. Chama-se a isso tolerância e ser-se civilizado. E nisso me distingo dos terroristas islâmicos. Eles matam por estes motivos. Eu e muitos outros, não.

    O caso do Herman foi parecido, o Herman foi ordinário com a memória da Rainha Santa Isabel. Achei aquilo de um mau gosto incrível, mas também não era por isso que ia proibir o programa ou matar o Herman. Limitei-me a dizer que foi mau gosto e não voltei a ver o tal programa.

    Por isso condenei sem reservas a matança de há dias em Paris, embora me pareça que a liberdade de expressão não devia servir para troçar de por ex. de uma religião, qualquer que ela seja. Não só por desrespeito, como por mau gosto.

    Liberdade de expressão sim! Mas não à balda e de qualquer maneira.

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    1. No essencial estamos de acordo, Paulo. Eu não vivia em Portugal quando se deram os casos Expresso e Saramago, mas acompanhei à distância e também em Macau ( no caso de Saramago) as reações. Devo dizer-lhe que li, ouvi e assisti a coisas inqualificáveis, como a exigência de despedimento do Herman da RTP e a declaração de Saramago como " persona non grata".
      No que discordamos é quanto aos limites da liberdade de expressão, porque esse é um dos pilares da democracia.

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  6. A falta de memória é um problema muito sério

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