quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Memórias de uma velha concubina




A China celebrou ontem o seu Dia Nacional, a braços com uma Revolução. Ainda que seja dos guarda-chuvas e  decorra no longínquo sul industrializado, instruído, poluído e capitalizado, "pátria" de um dos dois sistemas  do peculiar regime chinês, está a agitar .
A cada dia que passa os manifestantes vão subindo de tom, como que apalpando o pulso a Pequim, para verem até onde podem ir. Ontem os manifestantes jogaram forte cartada ao exigir a demissão do  governador de HK, até ao final do dia de hoje, Caso o chefe do executivo não ceda, prometem ocupar "importantes departamentos do governo". Pequim não cede e reiterou o seu apoio a Cy Leung,
Até quando irá manter-se este braço de ferro que ( não tenho dúvidas) pacificamente ou à força irá pender para o lado de Pequim?
Washington- que não perde uma oportunidade para apoiar movimentos democráticos duvidosos com os resultados desastrosos que se conhecem- apressou-se a apoiar as aspirações democráticas da população de HK.
Faz parte do ADN americano  tomar posições, sem analisar os factos e pesar as consequências. Se o fizesse, saberia que ao conceder a HK o direito ao sufrágio directo, Pequim está a dar ao território, - a partir de  2017- muito mais do que alguma vez os ingleses deram.
Os manifestantes  não aceitam que seja Pequim a indicar os candidatos, mas ao recusarem a oferta do sufrágio directo, podem vir a perder muito mais. Ou seja, que  voltem ao tempo em que os ingleses nomeavam o governador que lhes apetecia, sem consultar a população.
Teria sido pois de bom senso uma maior contenção dos americanos no seu apoio. Esta é uma "guerra" que não interessa a ninguém comprar.
O apoio dos países ocidentais ao movimento pró democracia  deve ser mais cauteloso e, acima de tudo, mais inteligente.
Um apoio  aos manifestantes exige enorme prudência. Caso contrário, pode atiçar um conflito que tende a extremar-se e que terá um vencedor óbvio. Pequim não irá  aceitar as exigências dos manifestantes, nem  tolerar que a situação se prolongue durante muito mais tempo. Uma cedência a HK  poderia despertar movimentos semelhantes noutras províncias chinesas.  A forma como Pequim tem procurado silenciar e desvalorizar os acontecimentos em HK, são sinal da preocupação do governo com um eventual efeito de contágio.
Por outro lado, o impacto das manifestações na economia do Território é de enorme  dimensão, sendo o comércio e o turismo (  as  actividades com maior peso no PIB de HK) os mais afectados, com perdas irreversíveis.
 O encerramento de bancos e de bolsas, provocado pelas manifestações que estão a ocorrer em pleno centro administrativo, estão a influenciar negativamente as bolsas financeiras europeias e a agitar os mercados.
Acresce que em HK há uma  parte da população que se tem insurgido contra as manifestações do grupo Pró democracia.
Apoiar abertamente os manifestantes que desafiam o governo de Pequim, pode ser um erro crasso. Até porque- é bom não esquecer-  HK é frequentemente comparada a uma velha concubina, que durante a noite esconde as rugas com as luzes que lhe servem de maquilhagem mas, ao alvorecer, cai-lhe a máscara e toda a gente  vislumbra a sua fealdade. O melhor é ter muito cuidado, para evitar surpresas desagradáveis, provocadas pelo encandeamento das luzes artificiais.
Pelo sim, pelo não, a China já mandou um aviso ao Ocidente: metam-se na vossa vida e deixem-nos tratar do assunto. Quem avisa, amigo é...


5 comentários:

  1. Não são só os americanos que estão a meter o bedelho onde não são chamados, Carlos.
    A atitude dos ingleses é ainda mais hipócrita.
    Que democracia é que deram a Hong Kong?
    Estou muito receoso acerca do que poderá acontecer esta noite e amanhã.
    Os manifestantes não desmobilizam, CY Leung está a perder a cabeça.
    Tem que ser Pequim a exercer contenção e a procurar uma solução.
    Que poderia perfeitamente por dar a cabeça do Chefe do Executivo aos manifestantes em troca da aceitação da proposta apresentada.
    Que vai muito para além do que alguma vez foi dado a Hong Kong pelos britânicos
    Pequim geriu mal as expectativas de uma larga fatia da população de Hong Kong.
    Espero que saiba agora gerir melhor esta crise profunda no sistema.

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    1. Agradeço muito a sua opinião Pedro. E claro que concordo consigo, principalmente no que concerne aos ingleses. É preciso ter muita lata para vir apoiar uma pretensão que a própria Inglaterra não lhes concedeu. Como diz o povo, " pimenta no cú dos outros é refresco".
      Como lhe disse no seu blog, a situação também me preocupa bastante e tenho procurado segui-la com a máxima atenção através de canais internacionais, porque por aqui, as televisões indígenas são uma desgraça completa em matéria de noticiári internacional
      Continuação de bom FDS
      Abraço

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  2. É fácil opinar em causa alheia e meter o bedelho onde não se deve como diz o Pedro Coimbra...
    Veremos como é que isto vai terminar...


    Abraço

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    1. Pois é Rosa. Os ocidentais são peritos em meterem-se onde não são chamados e, o pior, é que normalmente onde metem o nariz, dá mau resultado.
      Abraço

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  3. Washington- que não perde uma oportunidade para apoiar movimentos democráticos duvidosos com os resultados desastrosos que se conhecem- apressou-se a apoiar as aspirações democráticas da população de HK. De seguida a Europa irá apoiar as posições de Washington, armamos e treinamos uns rebeldes para ajudar e temos uma primavera asiática com as consequências que se conhecem nos países árabes, só que ali a coisa pia mais fino, os chineses até podem estar em desacordo com o regime, ao longo da sua história tiveram lutas internas brutais, mas uma coisa é certa eles acima de tudo são patriotas e preferem morrer de fome a permitirem intervenções estrangeiras no país como tem demonstrado várias vezes na sua longa história. Esperemos que isto tudo não acabe numa grande tragédia.

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