segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Para mim vens de carrinho!




Era o último fim de semana de Agosto de 2009. Sentado no sofá da sala, Frederico ia folheando o jornal sem entusiasmo, quando deparou com a notícia de que o dia 22 de Setembro seria o Dia Europeu sem Carros. À memória, acorreu-lhe um artigo onde se enumeravam os perigos do monóxido de carbono,- substância libertada pelos automóveis que contribui para o aumento da poluição urbana e é responsável por inúmeras doenças cardiovasculares e respiratórias.
Mas Frederico não é pessoa que se deixe convencer com facilidade, principalmente quando em causa está a sua comodidade. Afinal, de que serve não andar um dia de carro, para além de causar graves transtornos a quem o utiliza como ferramenta de trabalho.?-pensou.
É claro que esse não é o seu caso, pois sai de manhã para o emprego e só deixa o escritório ao fim do dia para regressar a casa. Poderia facilmente fazer o percurso de metropolitano, bastando-lhe para tal andar uma escassa centena de metros a pé, mas Frederico sofre da síndrome de “ carrodependência” e considera os transportes públicos insuportáveis, preferindo gastar mais de uma hora por dia em longas filas de trânsito, a fazer o trajecto entre a casa e o escritório de forma mais rápida e confortável.
Quando à hora do jantar se foi encontrar com Matilde logo puxou para tema de conversa a iniciativa do Dia Europeu sem Carros que, sem delongas, rotulou de demagógica e inútil.Foi com surpresa que constatou ser Matilde uma acérrima defensora da iniciativa, pois embora aquela com quem cada vez mais pensava vir a unir o seu destino sempre se deslocasse para o trabalho em transportes públicos, fora levado a pensar que o fazia por questões económicas e não por pura convicção.
Foi , por isso, com a boca meia aberta que ouviu Matilde defender a ideia de que o acesso automóvel às grandes cidades deveria ser condicionado, alvitrando mesmo a hipótese de que em Lisboa se seguisse o exemplo de outras cidades europeias, como Londres, Roma ou Estocolmo, onde quem quiser entrar de carro é obrigado a pagar portagem.Frederico lembrava-se vagamente de ter lido alguma coisa sobre o assunto e, com ar conhecedor acrescentou:
- Pois, na Noruega também se passa uma coisa semelhante: os carros para entrarem nas cidades pagam uma portagem, que é tanto menor, quanto maior for o número de passageiros, mas isso são países civilizados que nada têm a ver connosco!
Ao ouvir as palavras de Frederico, Matilde quase se engasgava... de raiva!
-Então achas que Portugal, um País que já foi o melhor aluno da União Europeia, que se tem desenvolvido em termos económicos de forma considerável, não deve também progredir em termos civilizacionais? Não te esqueças que durante o Verão a poluição nas nossas cidades passa frequentemente os valores admissíveis e em Lisboa, só no ano passado, foram 261 as vezes em que esse limite foi ultrapassado!
- Está, bem, está bem,! Mas não seria melhor, então, discutirmos a vida nas cidades, em vez de andarmos com este folclore todo? E não me digas que os automóveis são os culpados de todos os males que afectam a vida nas cidades... ou estarei eu, sem saber, a falar com uma fundamentalista?
- Não me venhas com chavões! Claro que não sou fundamentalista, mas também não sou ignorante e preocupo-me com os problemas que afectam o nosso Planeta. Sei perfeitamente que é preciso repensar a vida nas cidades, mas também não ignoro que o automóvel, enquanto erigido a objecto imprescindível se tornou um problema e um obstáculo à melhoria da qualidade de vida urbana. Por isso acho que esta iniciativa do Dia Europeu sem Carros, se não tiver outro mérito, tem pelo menos o de levar as pessoas a pensar a sua relação com o automóvel. E acredito que todos os anos há mais pessoas a deixarem o carro em casa e a optarem pelos transportes públicos, porque pelo menos um dia pararam para pensar. Ou julgas que todos são insensíveis e comodistas como tu, que não dispensas o carro, apesar de teres uma estação de metro a cem metros de casa e outra à porta do escritório?
- Pronto, eu prometo que vou pensar no assunto. Mas agora vamos embora, tomar um copo, que já estou farto de estar sentado...
- Ah estás? Então espero que não te queiras levantar daqui para te meteres no carro até ao sítio onde vamos tomar um copo e depois alapares-te outra vez!...-
-....
- Pois, eu logo vi! Mas olha, hoje eu não vou nessa... Se queres ir beber um copo, vamos a pé!
E foi assim que Matilde e Frederico passaram a dispensar o carro na maioria das suas saídas nocturnas. Agora passeiam os dois de mão dada à beira rio depois do jantar, param para tomar um copo e ao fim da noite apanham um táxi para regressar a casa. E, para surpresa de todos, Frederico tornou-se num dos maiores animadores da empresa para criar programas alternativos no Dia Europeu Sem Carros.
Infelizmente, são cada vez menos os que em Portugal  dão importância ao dia. 

2 comentários:

  1. Portanto uma grande mulher transformou o Francisco :)

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  2. A primeira cidade que tomou essa medida, segundo julgo saber, foi Singapura.
    E continua em vigor.
    Com a originalidade de, por cada entrada no centro da cidade, a taxa a pagar dobrar em relação à anteriormente paga.
    No final do mês, chega a conta a casa.
    Era assim quando lá fui estudar a política rodoviária da cidade-Estado, julgo que ainda é.

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