segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Chau, Abu!


Conheci Estela de Carlotto em 1995. Antes de lhe dizer que a queria entrevistar, observei-a numa  tarde de quinta-feira, durante a concentração semanal das (ainda) Madres da Plaza de Mayo. Cativou-me a sua expressão. Percebia-se, mais do que em qualquer outra das mulheres argentinas que faziam a sua habitual vigília das quintas- feiras , uma determinação singular.
Viria a confirmá-lo durante a entrevista que lhe fiz no café Tortoni, um dos locais onde as Madres de Mayo  se começaram a reunir, antes de  iniciarem as vigílias em frente à Casa Rosada.
  Estava determinada a encontrar o seu neto e lutaria por isso  enquanto as forças lhe permitissem  porque “devia isso à filha”.  Embora lamentasse a indiferença internacional pela luta das Madres de Mayo, tinha uma confiança cega de que não morreria  sem encontrar o seu neto.
No final da entrevista,Estela de Carlotto  perguntou-me se eu  não andava também à procura de alguém.
Fiquei surpreendido com a perspicácia, mas aliviado por ter sido ela a dar-me um pretexto para lhe contar a minha história, que ouviu com toda a atenção.  Pedindo elementos e recolhendo dados. Foi ela que me deu a conhecer o livro de Lawrence Thornton “Aconteceu na Argentina”  e, no final, agarrando-me no braço com força, afiançou:
- Vou encontrar o meu neto. Tenha Fé e não desista. Também encontrará quem procura.
Na terça feira, ainda antes de a comunicação social divulgar a notícia on line, a Laura  telefonou –me a dizer que uma juíza, desrespeitando  as regras sempre seguidas nestes casos,  divulgara publicamente o aparecimento do neto de Estela. ( Lá, como cá, há sempre juízes prontos a  quebrar as regras e proporcionar  fugas de informação para saciar a sede dos meios de comunicação social )
Foi o 114º neto das Abuelas da Plaza de Mayo a ser resgatado pelas famílias que a ditadura infame lhes roubou.
Vi as imagens na televisão e descortinei-lhe a mesma serenidade. O  mesmo sorriso , mas mais aberto. Uma felicidade imensa, que me senti a partilhar com a mais famosa "abuela" da América Latina.
Estela de Carlotto encontrou o neto mas, tenho a certeza, não será por isso que abandonará a luta a que dedicou uma boa parte da sua vida. Continuará a fazer as vigílias de quinta-feira, ao lado de outras mulheres que mantêm a esperança de reencontrar os seus familiares.
 Espero reencontrá-la na minha próxima ida a Buenos Aires. Numa tarde de quinta-feira, no mesmo elugar onde a vi pela primeira vez. Depois,  talvez, ainda possa brindar com ela no Tortoni. Sem milongas, mas com umas deliciosas tapas.


3 comentários:

  1. Uma mulher de força que nunca abandonou o seu projecto de vida...ter a vida prolongada no neto!
    Acompanho com muita emoção estas buscas das mães e avós argentinas!

    Abraço

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  2. Belíssimo testemunho sobre uma Mulher de fibra!

    Espero que também tu tenhas encontrado quem procuravas...

    Abraço aos três: ela, neto e tu :)

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  3. Uma Mulher admirável, Carlos.
    Que contraste com os posts anteriores!!

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