quinta-feira, 29 de maio de 2014

Dança de cadeiras



O problema do PS será só de liderança?  Era bom, era!
Uma eventual vitória de António Costa  não resolverá, por si só, os problemas. Dará   um novo élan ao partido, cuja dimensão dependerá da capacidade mobilizadora das propostas que Costa vier a apresentar ao país. 
Convém lembrar que, no concernente a propostas concretas, Costa ainda não apresentou nenhuma e, quando perguntado sobre o tema, foi bastante vago.  
Há dois aspectos que diferenciam o  líder do PS e o candidato à liderança :a combatividade e o carisma. Seguro é visto pelo eleitorado como um  panhonha, aliado de Passos Coelho e adepto do Bloco Central. Adepto de coligações à direita, sem uma centelha de audácia, Seguro é, na opinião de muitos, um líder fraco que cederá facilmente perante as exigências  do seu parceiro de coligação e das imposições europeias. 
António Costa  tem a imagem de  um líder mais combativo, capaz de bater o pé  à Europa, liderar uma coligação em que o PS seja vencedor  e com maleabilidade suficiente para  encontrar apoios à esquerda. Mas, acima de tudo, os portugueses  vêem em Costa  um líder capaz de  ganhar as eleições com maioria absoluta, enquanto recusam liminarmente essa possibilidade se for Seguro a liderar.
A imagem que cada um tem junto dos portugueses pode estar distorcida. No entanto, é a imagem  que  cada um deixa passar, que ganha votos.
Será a imagem de Costa suficiente para mobilizar os portugueses?  É provável. Não deixemos, no entanto, de sintonizar a realidade. Por toda a Europa, os partidos socialistas estão em declínio mas, apesar de Seguro , o PS português  foi o terceiro  partido socialista mais votado na Europa. 
O que quer isto dizer à luz dos resultados das europeias de domingo?
Que o eleitorado está farto  da modorra e conformismo dos partidos do Centrão e quer propostas mais ousadas. Os europeus querem propostas  que mexam com a Europa e lhe dêem vitalidade. Especialmente os jovens, que apostam no risco e não na manutenção do “status quo”  apenas interessante para as clientelas partidárias.  Por isso votam nos extremos  que lhes oferecem propostas mais ousadas, embora perigosas e que põem em causa a estabilidade. 
Em Portugal, muitos dos eleitores que votaram na CDU foram seduzidos pelo discurso ousado e diferente de João Ferreira, que  abordou a Europa colocando questões “fora da caixa”. Marinho e Pinto  ganhou simpatias pela combatividade e discurso agressivo, que vai ao encontro daquilo que as pessoas querem ouvir. O BE perdeu votos não só porque se esfrangalhou internamente, mas também porque as suas propostas fracturantes foram todas aprovadas pelo governo de Sócrates e o Bloco ficou sem discurso!
Costa poderá ganhar o PS. Mas só ganhará a simpatia do eleitorado e do país se apresentar propostas ousadas, fora do esquema conformista e redondo que caracteriza  os partidos do sistema.   Se o não fizer,  se não ousar arriscar e surpreender com as suas propostas, as mudanças no PS  serão  apenas  uma dança de cadeiras. O destino do PS será, então, o dos outros partidos  situacionistas  socialistas  social democratas do Centrão  europeu.  Comidos pelos extremos, desaparecerão da cena política. Paz à sua alma!

13 comentários:

  1. mesmo nesse quadro que subscrevo, é obvio que enquanto país, não há a mínima dúvida sobre as vantagens de um sobre o outro. se costa não dá "garantia de vitória", o que é legitimo equacionar, com seguro seria o desastre, penso que estamos de acordo... o PS tem funcionado em ponto morto, quem disser o contrário está a tomar a nuvem por juno..

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    1. Totalmente de acordo! Aliás, os meus escritos sobre o tema têm apontado nesse sentido. Só pretendo chamara a atenção que não deve haver demasiadas euforias, porque o problema não é de caras...

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  2. ~
    ~ Uma saudável mudança de liderança, muito desejada.
    ~ Votos de confiança à coragem de AC.

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    1. Sem dúvida, mas foi pena não ter avançado ano passado, não lhe parece, Majo?

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    2. ~ É tarefa bem difícil que tem de ser realizada por uma equipa.
      ~ Exige ponderação e planificação.

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  3. Boa tarde!

    Concordo integralmente com o que escreveu.

    Que Costa consiga responder cabalmente à esperança no futuro que uma parte significativa do povo português não via, em nunca verá, em Seguro.

    Espero que o PS se saiba comportar à altura e resolva a questão da liderança de uma forma democrática, aberta e com espírito de servir o povo português e não de servir o próprio aparelho.

    Sou um leitor assíduo do seu blog e cumprimento-o pela qualidade do mesmo.

    Um abraço!

    Ricardo.

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  4. António Costa tem, na minha opinião, muito mais consistência e força pessoal que Seguro.

    O actual Secretário -Geral socialista agarrou no Partido numa ocasião difícil, mas fica sempre nas meias-tintas e estou para ver o que fará agora quanto à moção de censura do PCP. E não entendo como exige eleições antecipadas no país e se recusa a um Congresso no Partido!

    Até porque não se justifica a euforia de 25-5-2014, dada a infima diferença entre a coligação e o PS, considerando o estado em que o país se encontra e a derrota histórica da Direita , coligada.

    Costa não é , como ninguém é, o salvador messiânico que fará milagres e veremos o que vai apresentar como propostas.

    Acho que será capaz de fazer bem melhor e esperemos que consiga sair da formatação reinante. Oena que tenha andado aos avanços e arrecuas, mas mais vale tarde do que nunca...

    Bom dia da espiga, amigo

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  5. Confesso, Carlos, que fui seduzida 100% pelo discurso ousado e diferente de João Ferreira, que abordou a Europa colocando questões “fora da caixa”!!!

    TROCO Angie pelo João.

    O António Costa pertence a uma geração de políticos que não me convence.
    Caso seja eu a única eleitora a não votar nele, então, ainda é capaz de ganhar as eleições com a maioria absoluta.

    Aposto a um café no Piolho que o António Costa ganha as eleições ( O António José Seguro também as ganhou), mas não com a maioria absoluta.

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  6. Dois apontamentos:

    - Achei deliciosa a descrição que fez do Seguro, crua, sem qualquer tipo de rodriguinhos e inteiramente verdadeira.

    - Mesmo com o António Costa, duvido que o PS consiga ganhar as eleições, quanto mais com maioria absoluta.

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  7. Os socialistas no PE ficaram praticamente com o mesmo número de votos. Como a Europa e o Mundo está ninguém conseguirá fazer milagres. Terão de haver consensos para se conseguir chegar a alguma solução, mesmo que precária. Não há condições para a Europa resplandecer. E muito menos serão os grupelhos dos extremos, com as suas ideias ousadas, nomeadamente de que a peste grisalha é um peso para a humanidade, para já não falar dos pobres de tantos países que foram espoliados pela Europa, além dos seus terrenos (riquezas) já não lhes pertencerem. Ninguém está eufórico e quem brinca com a situação e faz observações imbecis é porque não tem a mínima ideia da situação em que o mundo se encontra. O problema é que quem escreve e fala bem consegue convencer os tantos, pouco esclarecidos. Isto não aconteceu há muito tempo: http://www.youtube.com/watch?v=FN7r0Rr1Qyc#t=20

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    1. Obrigado pelo link, Anfitrite. É aterrador mas se a Europa ( Merkel, principalmente, pq é ela quem manda) não arrepiar caminho, é para aí que caminhamos. Daí a minha chamada de atenção neste post. Ou o Centrão se renova e é capaz de mobilizar as pax com projectos que a tirem deste regime sonso que favorece os ricos e maltrata os pobre, ou o futuro da Europa vai escrever-se com sangue. Uma vez mais, a Alemanha terá as mãos sujas.

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  8. «Sem pôr em causa os actuais fundamentos da União Europeia – e pôr em causa significa romper, se necessário – os partidos socialistas e sociais-democratas da Europa não têm qualquer futuro como partidos de esquerda.», li, por aí... e bate (quase) certo com o lido aqui!

    :))

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