terça-feira, 15 de abril de 2014

O brinquedo

Quem quer mandar o Portas brincar com o novo brinquedo da Majora?


Sábado à noite, enquanto passeava à beira rio iluminando a noite com a sua fosforescente dentadura, Paulo Portas escondia, atrás de um sorriso forçado, a preocupação que o atormentava. Como iria passar a semana santa sem uma viagenzinha até qualquer sítio onde pudesse aliviar a frustração de viver num país de analfabetos à beira da miséria?
Como poderia suportar abrir os jornais, ligar o televisor ou navegar na Internet e deparar com notícias provocatórias, opiniões desbragadas,  ou piadas endémicas, sobre o relógio que com tanto entusiasmo e fervor patriótico inaugurou no Inverno, para  explodir numa manhã de primavera, no dia da celebração da Independência, agendado para 18 de Maio?
Tornada pública a notícia de que a independência formal só chegaria em pleno verão e a real só daqui a uns 30 ou 40 anos, Paulo Portas não conseguia suportar a ideia de estar constantemente a ser gozado pela oposição e, pior ainda, por alguns dos seus parceiros de coligação. Na última reunião do conselho de ministros, até a Marilú cometera a ousadia de fazer uma piada um bocadinho ordinarota sobre o assunto, que mete um relógio de cuco.
 Noutros tempos,  quando era ministro dos negócios estrangeiros, preenchia os escassos dias que passava em Lisboa  com idas ao cinema ou conversas  com os amigos Pires de Lima  e Mota Soares, que o confortavam e incitavam a permanecer no governo, suportando as humilhações de Gaspar e Coelho. Mas a partir daquele fatídico dia de julho, em que anunciou a sua irrevogável demissão, Lima entrou para o governo e deixou de ter tempo para o aturar e Mota Vespa Soares andava tão assoberdado a fazer cortes aos pensionistas, que apenas lhe dizia:
"Desculpa lá, Paulo, mas o Pedro e a Marilú não me deixam um minuto livre, enquanto eu não tomar medidas que garantam que nenhum reformado sobrevive mais de  cinco anos após começar a receber a sua pensão. Mas eu estou contigo, Paulo! Até já."
Ir ao cinema sossegado para espairecer tornou-se tarefa quase impossível desde que aquele cinema esconso, num centro comercial de Alferragide, foi descoberto como seu refúgio de eleição. Em dias piores, chega a arrepender-se  de ter recuado na irrevogabilidade da sua demissão. 
Passava já da meia noite, Paulo Portas percorria pela enésima vez aquele trajecto à beira rio tão do seu agrado, quando ganhou coragem para telefonar a Passos Coelho:
- Eh pá, tens de me desenrascar! Na próxima semana tenho de ficar em Lisboa e já não suporto as piadas sobre o relógio. Tens de arranjar qualquer coisa para eu fazer e me manter distraído, sem tentações para ler jornais, ver televisão ou navegar na internet.
- Não te estou a perceber, Paulo! Andaste a chagar-me para te arranjar um gabinete ao pé do Jardim Zoológico para poderes estar em contacto com os bichinhos, porque é que não ficas lá? 
– Eh pá, nem me fales nisso! Olha que  até  os bichinhos já  me perderam o respeito.  Há dias, até um papagaio foi inconveniente comigo. Imagina que me mandou ir dar corda ao cuco, porque a troika já só ia embora em Julho e o meu relógio não tinha pilhas até lá!
- Então porque é que não ficas a ler? Se quiseres recomendo-te uns livros engraçados para te distraíres. É isso que eu faço com as miúdas cá em casa e resulta…
- Ando com problemas de concentração, Pedro! Ler já não é remédio. Precisava de uma tarefa de estadista que me desse gozo e protagonismo, percebes?
- Já sei, pá! Vais chamar os  partidos para eles dizerem o que pensam do guião
- Qual guião?
- O da reforma de estado, qual havia de ser!....
- Ah! Estás a falar daquele teste americano com espaços em branco para os partidos preencherem?
- Isso mesmo.
- Boa ideia, Pedro! Isso vai restituir-me a dimensão de estadista e fazer subir a minha autoestima. Mas para a coisa ser perfeita, posso recebê-los na AR? Sempre tem outro estatuto, não achas?
- Está à vontade, Paulo. Olha, diverte-te. Na terça feira lá nos encontramos na Gomes Teixeira para fazermos mais uns cortes. Conto com o teu apoio!
- Claro que sim, Pedro! És um compincha e um amigão. De mim podes contar com tudo, desde que cumpras a promessa de me arranjares um lugar europeu antes das legislativas. Obrigado pela tua sugestão, pá! Vou divertir-me à brava a receber os partidos e depois a ouvir as declarações deles e as interpretações dos comentadores. Vai ser uma semana em cheio. Olha lá, não posso delegar na Cristas o meu voto no conselho de ministros?
- A gente depois fala nisso. Agora deixa-me ir dormir. Um bom domingo de trabalho para ti.
Quando Passos finalmente despachou Portas, a Laura perguntou:
Que é que o gajo queria a esta hora da noite?
Sempre a mesma coisa… já sabes como é o Paulo! Queria um brinquedo novo mas, como a vida não está para submarinos, arranjei-lhe um brinquedo virtual.
E qual foi o brinquedo que lhe deste?
A reforma do estado.

1 comentário:

  1. Este brinquedo está armadilhado, Carlos
    E o Portas assim não brinca

    ResponderEliminar