quarta-feira, 23 de abril de 2014

A Censura do Livro no Estado Novo




Assinala-se hoje o Dia Mundial do Livro. Por razões já conhecidas não consegui escrever o post que desejava para assinalar a data. Recupero, por isso, o primeiro capítulo do trabalho académico que fiz sobre a "Censura do Livro no Estado Novo"


"O livro sempre foi visto com alguma desconfiança por poderes autoritários mas serviu, simultaneamente, de meio de propaganda desses poderes. Salazar, ao que consta, gostava de ler, mas foram muitos os livros cuja edição foi proibida em Portugal, por serem considerados “transmissores de ideias perigosas e nefastas, susceptíveis de corromperem a sociedade e os cidadãos”. 
Nem mesmo a literatura infantil escapou aos poderes da censura. Este excerto de uma ordem emanada pela Direcção dos serviços de Censura de Instruções sobre a literatura infantil, ilustra-o bem:
Parece desejável que as crianças portuguesas sejam cultivadas, não como cidadãos do Mundo, em preparação, mas como crianças portuguesas que mais tarde já não serão crianças, mas continuarão a ser portuguesas.”
No entanto, Salazar não menosprezava (e até incitava) a edição de livros que apregoassem as virtualidades do regime, que exaltassem a “nossa gesta”, ou os nossos “bons e brandos costumes”. Ditadores de sinal contrário tiveram atitudes idênticas ao longo da História e, só neste século, muitos foram os escritores obrigados a emigrar dos seus países para poderem divulgar as suas obras. Solnietsjine e Kundera, são apenas dois casos entre muitos que se podiam citar.
O cinema também nos deu, com Farehneit 451, uma imagem clara dos medos que os ditadores sempre tiveram dos livros e, em O Palácio dos Sonhos do escritor albanês Ismail Kandaré, ficámos também com uma visão dantesca da relação entre o Poder, a Censura e os livros.


Para exercer em plenitude a sua função, o livro precisa de sociedades democráticas. É aí que o livro se sente bem, pois só em democracia (numa perfeita e sã concorrência de títulos e autores) consegue derramar, despojado de ideias pré-concebidas, o conteúdo das suas mensagens. É em democracia que o livro se assume, sem subterfúgios, nas suas diversas - e por vezes antagónicas - vertentes: veículo de informação ou propaganda, instrumento de entretenimento e cultura, ou simplesmente objecto estético, destinado a emoldurar as prateleiras de uma estante, depositário de saberes, ou despertador de consciências.


Só que uma sociedade democrática não se mede apenas pela democracia dos poderes e das instituições, mas também pela capacidade de acesso das populações aos bens culturais (onde se inclui o livro) ou pelos hábitos de leitura, mas isso levar-me-ia por caminhos que não pretendo aqui abordar. Apenas quero deixar bem vincada a ideia de que o livro, embora movendo-se numa trajectória específica deste mundo global, tem resistido a todos os ataques, incluindo os da Censura e da PIDE. Ferozes na Metrópole, mais brandas mas igualmente tentaculares nas ex-colónias. Como adiante se verá!...
Nota adicional. quem estiver interessado em ler os excertos do trabalho que publiquei no CR, pode encontrá-los na etiqueta Rochedo das Memórias ( do post nº 98 ao 110)

2 comentários:

  1. Fantástico, caro Carlos.

    O meu marido era alferes e estava em Mocuba, Moçambique, quando se deu o 25 de abril. Esta zona foi o último reduto do colonialismo a tombar. Chocado e incapaz de contrariar ordens superiores, assistiu impotente à queima de centenas e centenas de livros, muitos de autores moçambicanos. Conseguiu encher a mala de alguns que conseguiu apanhar, optando por trazer apenas a roupa que vestia no momento.. Ainda hoje ele recorda aquele "holocausto" de livros que, simbolicamente, representavam muitos escritores dissidentes do regime da "Metrópole".
    O livro continua a ser uma arma temida. A palavra escrita, apesar de todos os avanços tecnológicos, continua a ser, a meu ver, a maior das revoluções de toda a Humanidade.

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  2. A Malala definiu o poder do livro, da educação, como ninguém

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