sábado, 18 de janeiro de 2014

É preciso dizer-se o que acontece no meu país de sal


Nos 30 anos da sua morte


OS SAPATOS


Enfio os mocassinos do meu tempo nos pés
e piso a senda lenda dos meus antepassados.
Hoje, sou eu que passo o cabo das tormentas nos cafés
quando vomito a Índia nos lavabos.

Se Egas Moniz foi herói
duma bravata bonita
eu sou quem paga o resgate
da história que me limita.

A linda Inês dos meus olhos
foi reposta em seu sossego
não há hidroenergia
que ressuscite o Mondego
não há barragem que estanque
o sonho que é hoje infante
na ponta de um pesadelo.

Ai flores Ai flores de lapela
flores de plástico e de feltro
filigrana caravela
que estás cada vez mais perto
filha de Vasco da Gama
dado como pai incerto.

Partem tão tristes os pés
de quem te arrasta consigo
tão andados      tão modernos
tão vazios de sentido
tão queimados deste inferno
que têm as solas gastas
e o caminho puído.

Partem tão tristes os pés
de quem te arrasta consigo
passeiam
     andam
          desandam
                  param
                    Perseguem
                         persistem
                              caminham
                                      calculam
                                             correm
doem      detêm      desistem.
Partem tão tristes os tristes
tão fora de chegar bem

           

José Carlos Ary dos Santos, “Adereços, Endereços” (1965)

9 comentários:

  1. Caminharemos de Olhos Deslumbrados

    Caminharemos de olhos deslumbrados
    E braços estendidos
    E nos lábios incertos levaremos
    O gosto a sol e a sangue dos sentidos.

    Onde estivermos, há-de estar o vento
    Cortado de perfumes e gemidos.
    Onde vivermos, há-de ser o templo
    Dos nossos jovens dentes devorando
    Os frutos proibidos.

    No ritual do verão descobriremos
    O segredo dos deuses interditos
    E marcados na testa exaltaremos
    Estátuas de heróis castrados e malditos.

    Ó deus do sangue! deus de misericórdia!
    Ó deus das virgens loucas
    Dos amantes com cio,
    Impõe-nos sobre o ventre as tuas mãos de rosas,
    Unge os nossos cabelos com o teu desvario!

    Desce-nos sobre o corpo como um falus irado,
    Fustiga-nos os membros como um látego doido,
    Numa chuva de fogo torna-nos sagrados,
    Imola-nos os sexos a um arcanjo loiro.

    Persegue-nos, estonteia-nos, degola-nos, castiga-nos,
    Arranca-nos os olhos, violenta-nos as bocas,
    Atapeta de flores a estrada que seguimos
    E carrega de aromas a brisa que nos toca.

    Nus e ensanguentados dançaremos a glória
    Dos nossos esponsais eternos com o estio
    E coroados de apupos teremos a vitória
    De nos rirmos do mundo num leito vazio.


    Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'

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  2. ...30 anos. Parece que morreu ontem.
    Belíssimo poema de homenagem.
    Obrigada pela partilha

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  3. Recordemo-lo para sempre.
    Abraço.

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  4. Imortal o poeta e a sua poesia.

    beijinho amigo Carlos

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  5. Com a sua morte foram-se as músicas que enchiam este país do acreditar!
    Com a sua morte Abril ficou mais curto assemelhando-se a um Fevereiro sem ano bissexto.
    E mais não digo porque ainda era pequenino!

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  6. O FUTURO

    Isto vai meus amigos isto vai
    um passo atrás são sempre dois em frente
    e um povo verdadeiro não se trai
    não quer gente mais gente que outra gente

    Isto vai meus amigos isto vai
    o que é preciso é ter sempre presente
    que o presente é um tempo que se vai
    e o futuro é o tempo resistente

    Depois da tempestade há a bonança
    que é verde como a cor que tem a esperança
    quando a água de Abril sobre nós cai.

    O que é preciso é termos confiança
    se fizermos de maio a nossa lança
    isto vai meus amigos isto vai.

    José Carlos Ary dos Santos, O Sangue das Palavras, 1978

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    Será que isto vai?? Como...se cada vez ficamos mais sós?

    Continuação de tudo de bom, CBO!

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  7. Grande Ary, poeta imortal!

    Beijocas

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  8. Belíssimo! E tão lindinho o poema que o poeta refere!
    Um povo de poetas!!

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  9. Este é um dos poetas que leio com mais atenção, Carlos

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