quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A liberdade passou por aqui?




“ O Botequim da Liberdade” é um livro de vivências e de afectos, onde  Fernando Dacosta  é o nosso guia numa viagem ao passado, tendo sempre  o Botequim como ponto de partida e Natália Correia como musa.
O grande mérito deste livro é recordar alguns episódios de uma  história recente. Dos anos de brasa ao início dos anos 90,  há uma série de episódios e acontecimentos, analisados na perspectiva do autor, nem sempre coincidente com a opinião de quem o lê. Porém, o simples facto de nos recordar esse período estimula a reflexão  e deixa ao leitor a possibilidade de o reescrever de acordo com a sua própria opinião.
Centrado na figura de Natália, e dela partindo para uma análise de um período conturbado da nosa História,“ O Botequim da Liberdade” é um texto laudatório sobre a poetisa que- foi perceptível na tertúlia de apresentação do livro, na biblioteca José Saramago- não recolhe unanimidade. Esse é outro dos seus méritos. Natália nunca foi consensual. Bem pelo contrário.  Despertou amores e ódios e reuniu à sua volta uma corte de pessoas dos mais diversos quadrantes ideológicos e  das mais diferentes áreas, que à noite tertuliavam no ambiente boémio do Botequim, movidos por interesses muito diversos.
O Botequim era a mais afamada e livre tertúlia de Lisboa. Talvez mesmo  a última tertúlia de Lisboa onde se exprimiam opiniões  livremente e se debatiam de forma acalorada, diferentes visões do mundo. Nem sempre foi assim.
 Natália Correia abriu o “Botequim”  para acudir ao seu marido ( o sr Machado)  que  foi à falência, depois de ter sido um hoteleiro de grande renome e prosperidade. No entanto, só  em 1971, após a sua mort,e  se tornou anfitriã daquele espaço ( tendo como sócias Isabel Meyrelles e Helena Roseta) que  deixou então  de ser um local de reunião de  gente da extrema-direita, para se tornar numa tertúlia diversificada, ao gosto de Natália.  
Natália, anti europeísta até ao tutano, generosa e implacável, lesta a apoiar e a repudiar, fiel aos amigos e com  palavra afiada para  quem desdenhava ou frontalmente se lhe opunha, foi sem dúvida uma das mais notáveis mulheres portuguesas do século XX. 
“ O Botequim” foi, por seu turno, um dos locais mais emblemáticos da noite de Lisboa. Naquele espaço exíguo onde em noites mais animadas, o fumo espesso apenas deixava vislumbrar as silhuetas, cerziu-se uma boa parte da História de Lisboa e do País.
Duas boas razões para ler o livro de Fernando Dacosta. Há, como já escrevi anteriormente, uma terceira:  revisitar o passado. Mesmo que dele tenhamos uma perspectiva diferente, como é o meu caso.
De Natália retenho, entre outras coisas mais agradáveis, a petulância que exibia em alguns momentos e o seu comportamento  ora desbragado, ora  oportunista . Do Botequim, uma memória ímpar, por ter sido a última tertúlia de Lisboa.
 ( Ler mais aqui)

6 comentários:

  1. Na introdução a "Como se fabrica uma alternância" cito Natália Correia, sem referir que esse escrito era desse livro. Aproveito este espaço para reparo dessa minha distração...
    http://conversavinagrada.blogspot.pt/2013/10/como-se-fabrica-uma-alternancia-1.html

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  2. Ainda não comprei o livro mas já tive muita vontade: Gosto muito do Fernando Dacosta. Ainda vou ter de o comprar!

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  3. Obrigada pela sugestão literária!

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  4. De Natália Correia conheço apenas alguma poesia e o que se tem publicado sobre ela em jornais e revistas literárias, penso que em boa hora surgiu este livro para a ficarmos a conhecer melhor...refiro-me a pessoas como eu, obviamente!

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  5. Nunca tinha ouvido falar nessa tertúlia, nem nesse local.
    Sempre a aprender, a descobrir.

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  6. Gostava de ter conhecido a Natália e sempre soube das tertúlias no Botequim. Foram famosas e as conversas estimulantes; isto , pelo que se lia no Independente , no Tal e Qual , Expresso etc. M.A.A.

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