terça-feira, 16 de abril de 2013

Monopoly Games (5): a troika no feminino


Três mulheres influentes na América do Sul


Como ontem referi, o resultado das eleições na Venezuela são preocupantes e podem  gerar alguma convulsão na Venezuela. A escassa vitória de Maduro, já contestada pela direita, relança a questão sobre  o líder que virá a ser a referência  emblemática da América Latina, depois da morte de Chavez.
Sem carisma e sem capacidade para protagonizar  a continuidade do chavismo, Maduro é um líder a prazo e a Venezuela , seja com ele ou com Capriles, deixará de ter um líder capaz de congregar à sua volta um projecto político-económico para a América Latina, que passa pela libertação dos Estados Unidos. 
Mesmo consciente que  Chavez se tornou num mito e os mitos são insubstituíveis, logo após a morte do presidente venezuelano arrisquei a possibilidade de Dilma Rousseff ser a sua  sucessora natural,  no desempenho desse papel.
 Dilma não é propriamente uma bolivariana, mas não provocará na América Latina uma cisão do movimento bolivariano, enfraquecido com a perda do seu líder natural. Com contradições insanáveis  susceptíveis de provocar fracturas no seu seio, um líder bolivariano sem o carisma de Chavez  não seria capaz de manter a unidade garantida à volta do carismático lider venezuelano. 
Parece-me  claro que  o líder latino americano capaz de congregar toda a região num projecto político e económico comum, não sairá de entre os lideres bolivarianos.  Evo Morales, apesar das referências bolivarianas ( mas também por causa delas) tem os mesmos problemas de Maduro: falta de consistência política e de carisma.
Pelo seu carisma, Mujica seria um excelente candidato, caso o Uruguai não fosse um país demasiado pequeno e um microfone aberto  não tivesse  deixado passar  para o exterior palavras pouco elogiosas e até ofensivas dirigidas a Cristina Kirchner.
Cristina Kirchner  é, agora, uma carta fora do baralho. Ao contrário do que terá pensado, a sua guerra com Inglaterra, a propósito das Malvinas/Falkland não lhe rendeu  popularidade interna, nem externa, apesar das manifestações de apoio à sua causa, por parte da grande maioria dos lideres sul americanos. Tem, como carta de apresentação, a sua oposição firme às políticas do FMI, mas a subida vertiginosa da inflação e o abrandamento acentuado do crescimento da Argentina- a par de uma crescente contestação interna- retiraram-lhe trunfos. Como se tudo isto não bastasse, a escolha de um Papa argentino, veio retirar-lhe ainda mais hipóteses. Numa zona do globo onde a religião tem grande impacto nas populações e a Igreja Católica é vista como grande aliada das ditaduras de direita, ninguém vai colocar todos os ovos no mesmo saco…
Entretanto, nos últimos dias, uma outra mulher surgiu como possível candidata a ocupar o lugar deixado vago por Chavez. Michelle Bachelet, a ex-presidente chilena, anunciou a intenção de se candidatar às eleições de Novembro. Socialista moderada, é uma mulher com carisma e recolhe muitas simpatias entre os seus vizinhos sul americanos. Além do mais é bem vista na Europa, não tendo criado na UE os anti-corpos de Dilma e Cristina Kirchner. 
Pode parecer aos menos atentos que o problema da sucessão de Chavez é um problema menor . Não é. A América Latina é uma região do globo em franco desenvolvimento, assente em governos de esquerda que prosseguem uma política totalmente oposta à que vem sendo adoptada pela União Europeia. É, por outro lado, uma zona com muitos recursos naturais essenciais para a nova economia, que vão muito além do petróleo. A China tem feito grandes investimentos na região, garantindo a exploração de alguns desses recursos, aproveitando a passividade e alheamento da Europa.
Salvo algum acontecimento inesperado, o futuro passará pela América Latina e o modelo de solidariedade entre povos um exemplo que não deixará de ser analisado pelos europeus. A crise  já não afecta apenas “ os pobres países do sul” . Chegou à Europa dos ricos, onde se começa a sentir o efeito  “boomerang” de uma política virulenta e egocêntrica que desprezou e abandonou à sua sorte os países em dificuldades. 
Não tardará muito até que os jovens europeus, dizimados pelo desemprego, pela estagnação da economia europeia e pela destruição do estado social, comecem a olhar  o modelo sul-americano noutra perspectiva e se interroguem se não valerá a pena experimentar outro modelo político e económico na Europa.
Uma líder moderada  como Michelle Bachelet  pode ser inspiradora. Uma região do globo onde as mulheres estão em franca ascensão, liderando os três países mais desenvolvidos, pode ser sedutora. Uma mulher capaz de federar os interesses dessa região, assente em valores como a solidariedade  entre os países  e  o primado do homem sobre a economia, pode despertar um espírito renovador.


4 comentários:

  1. Sempre embirrei com a Kirchner. Aquele ar de boneca produzida, não fica muito a dever à "nossa" MMG..., só mesma na Argentina estas dinastias se reproduzem....

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  2. Artigo muito interessante e com uma perspectiva, a meu ver, correctíssima.

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