segunda-feira, 18 de junho de 2012

Como um castelo de cartas




Estou sentado na cama a dar uma vista de olhos pela imprensa on line.Ouço o estrondo de um prédio a desmoronar-se. Já o esperava há muito, já lhe imaginava o ruído... é o esplendoroso edifício do liberalismo, emoldurado de néons publicitando a economia de mercado e as cotações das bolsas, construído em alicerces de mentira, de intolerância, de desrespeito pelo ser humano, da exploração do trabalho, da avidez pelo enriquecimento fácil e da especulação, a ruir como um castelo de cartas.
Momentos mais tarde, outro desmoronamento. Vou à janela e vislumbro, na noite escura onde a Lua já não brilha, a queda abrupta dos paradigmas da sociedade de consumo. Na rua, descalços, exércitos de endividados vítimas dos ilusionistas que lhes prometiam o dinheiro fácil de que necessitam para comprar o paraíso, falam ao telemóvel e olham, com ar compungido, para os automóveis de luxo cujas prestações já não têm dinheiro para pagar. Televisores de plasma saem das janelas, mostrando ao mundo o holocausto da sociedade do faz de conta. Na sala de cinema em frente ao hotel onde estou hospedado, um enorme cartaz anuncia a estreia do mais recente filme dos Irmãos Lehmann, com produção da AIG:A Crise.Em exibição numa sala perto de si. Em sessões contínuas, para mais tarde recordar.É que dentro de alguns anos a cena vai repetir-se, mas provavelmente já ninguém se vai lembrar.
( Nota: Escrevi este post em Setembro de 2008. Republiquei-o em Março de 2010. Volto a recordá-lo hoje, porque tenho a sensação de que não vou regressar à Europa. Pelo menos, àquela Europa que muitos sonharam e na qual até eu cheguei a acreditar).

2 comentários:

  1. Na verdade a coisa era previzível

    mas só o tempo confirma o desmando
    e o saque

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  2. Desde 2008 que assiste a esse ruir...
    Mas acho que esse seu post ainda vai ter de o repetir

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