quarta-feira, 30 de maio de 2012

No Ponsul com Moussakas e Maranhos



Motivos profissionais  sentaram à minha mesa, no sábado à hora do almoço, quatro JEEP  ( Jovens Empreendedores de Elevado Potencial). Uma vez que a mim já vocês conhecem, passo a apresentar os comensais que comigo partilharam o repasto com vista para o rio Ponsul :
M- licenciado em gestão , com residência na margem sul do Tejo e passagem breve por Itália no âmbito do programa Erasmus. Teve uma experiência política chegando a desempenhar, por eleição, um cargo autárquico. Desiludiu-se  e “decidiu ir trabalhar”. É um jovem empresário de sucesso estabelecido em Lisboa.
R- licenciado pela universidade da vida, herdou o negócio do pai, modernizou-o e reconverteu-o. Trocou o Porto natal e as noites de boémia por um negócio industrial de pequenas dimensões na  Beira Interior. Está a lançar-se na exportação, tendo como mercado preferencial a América Latina.
P-  12º ano incompleto, subiu na vida a pulso, seguindo o exemplo dos alpinistas que diariamente compartilham com ele o gosto da escalada na Serra da Estrela.  A crise apanhou-o desprevenido e o negócio de import-export  com âncora na China e base operacional em Amsterdam está a atravessar um período difícil.
C- É a única mulher deste restrito grupo de comensais JEEP. Completado o 12º ano, inscreveu-se em engenharia na Universidade do Porto, mas abdicou da licenciatura para frequentar  um curso profissional onde pudesse dar asas à sua veia criativa na área do  design de jóias e moda. A crise não lhe coartou a arte, mas fez  definhar o negócio que prometia ser próspero. Compra e venda de ouro num estabelecimento nos arredores do Porto é o negócio alternativo.

Só conheci os perfis dos que comigo partilharam Maranhos e outras iguarias, durante o repasto cuja ordem de trabalhos era o empreendedorismo jovem. Dessa parte não vos vou dar aqui notícia pois estou obrigado, por dever  e ética profissional, a reservar esses detalhes para uma reportagem a publicar na revista que pagou o meu trabalho e custeou o almoço.
Atenho-me, por isso, à conversa  da  hora da sobremesa, onde pontificaram Nógados, Pantufas e  Papas de Carolo. E a conversa, meus amigos,  foi sobre a Grécia, matéria em que  três dos JEEP se tentaram notabilizar pelos conhecimentos da realidade do país.
Já estive na Grécia três ou quatro vezes, mas fiquei ciente da minha ignorância sobre o país ao ouvir as teses destes JEEP que revelaram um extraordinário conhecimento da realidade grega, apesar de nunca lá terem estado e só conhecerem o que lá se passa por relatos televisivos, polvilhados com crónicas jornaleiras. 
Por unanimidade e aclamação, estes JEEP decretaram que a Grécia devia sair da zona euro, porque os gregos são uns calaceiros e vigaristas, uma sub-espécie de ciganos romenos a quem não se deve comprar nem um relógio, mesmo que eles assumam ser de contrafacção e façam descer o preço para  patamares  consentâneos com a origem do produto.
Fiquei também a saber que a esquerda grega é um grupo de extremistas que nunca fez nada na vida e só quer  tacho , estando-se marimbando para a miséria dos gregos ( não consegui perceber qual é o problema que os JEEP vêem nisso, uma vez que advogam a saída da Grécia do euro, mas o problema é certamente meu).
A menina JEEP não se esqueceu de recordar que os gregos são uns corruptos e vigarizaram as contas para entrar no euro, mas ficou de monco caído quando lhe perguntei se me sabia explicar a razão de a Alemanha não ter levantado objecções   à entrada da Grécia, apesar de saber das falcatruas das contas gregas.
Hélas! O JEEP que andou a fazer tirocínio político no PSD, mas desistiu quando estava no patamar autárquico, para abraçar o empreendedorismo, respondeu:
- À Alemanha convinha que os gregos entrassem para o euro, porque isso lhes permitia ganhar muito dinheiro. Aliás, ainda hoje estão a ganhar! Só em material de guerra é um fartar vilanagem.
Por ser verdade e a tirada me ter impressionado favoravelmente, ainda pensei telefonar para a S. Caetano a propor o nome do rapaz para secretário de estado do Álvaro, alegando em sua defesa ser empresário de sucesso desiludido com a política no tempo em que Barroso trocou as sardinhas de Lisboa e, armado em cherne, navegou até Bruxelas para se empanturrar com mexilhões.
 Desisti quando o mesmo JEEP, na tentativa de mostrar a sua erudição em matéria de política económica europeia, acrescentou:
- Claro que isso só foi possível, porque quem governava a Alemanha na altura era o SPD!|

Boa tarde tio Pedro, venha o cafezinho antes que eu esqueça a minha obrigação de ser um ouvinte atento e neutral  e me ponha a rebater estas teorias, porque a conversa pode azedar e o Lince da Malcata não vem em minha defesa. 
O R pediu um uísque, a C uma caipirinha e eu fui para a varanda com vistas para Penha Garcia, fumar uma cigarrilha, enquanto desfrutava a aragem  batida, vinda das margens do Ponsul.
No final, fazendo jus à minha alma escorpiana, lancei o repto em jeito de professor a ditar os TPC para os seus alunos:
- Na próxima vez que nos encontrarmos, vamos falar das consequências para Portugal se a Grécia abandonar o euro?
A resposta veio em inequívoco uníssono:
- Pois, esse é que é o grande problema. Somos capazes de também ter de sair…
Pronto, estamos todos de acordo, encontramo-nos no funeral da Europa se ninguém estiver disposto a salvá-la.  Agora ala que se faz tarde, tenho de ir andando,  próxima paragem é  Vila de Rei para uma  conversa com imigrantes. 

9 comentários:

  1. O que o Carlos aprendeu com esses JEEP! : )
    Vamos aguardar o relato – ou parte dele – da conversa/entrevista com os imigrantes.

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  2. Zona bem linda essa de Penha Garcia, andei por lá em grandes caminhadas há dois anos...:))

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  3. Finalmente os quatro JEEP conseguiram vislumbrar o óbice da questão! As consequências negativas, para nós, no caso da Grécia ter de abandonar a UE. Aguardemos!

    Então andaste pelas bandas de Castelo Branco, Carlos? Vivi lá dois anos e conheço perfeitamente. Será que no Rio Ponsul ainda abundam as bogas e os barbos??

    Beijinhos.

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  4. Carlosamigo

    Quando li JEEP pensei logo num que me levava de casa ao quartel e vice versa, quando eu andava na tropa. Mas, não, a sigla era outra e a conversa também. Se o MM, ou seja o nosso querido Miguel Massado, sabe dessas coisas, ainda vais para Caxias, à pesca. Vais, portantos, sem s, de cana.

    Boa malha, bué da fixe, as coisas são para se dizer. Fico, agora, à espera do que dirão os imigrantes.

    Abç

    A minha terceira nora é de Aranhas, ali ao pé de Penha Garcia. Tem lá uns enchidos...

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  5. Deves ter uns bons fígados para aturares esse tempo todo o paleio imberbe desses JEEP's...

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  6. O que mais me espanta é esses jovens terem opiniões tão firmes sobre um país e um povo que não conhecem, só pelo que leem nos jornais. Será que nunca lhes passou pela cabeça que nem tudo o que se lê nos jornais é toda a verdade?

    Mas lá está, ainda não devem ter chegado aos 40 anos, que, como afirma Millôr Fernandes, é aquela idade em que depois de muito estudo e meditação é possível aprender a estar calado... :)))

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  7. Passo por alto a narrativa, tão excelente quão elucidativa, sobre as opiniões dos JEEP, para gabar o passeio.
    Deu para averiguar que, em tempos que já lá vão, para andar por essas terras era preciso usar escafandro?
    É que, dizem os especialistas, o Ponsul e o mais que arredor se alcança já esteve submerso.
    Tenho umas fotografias guardadas como prova, que talvez ainda venha a publicar. Abraço.

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  8. Eu adoro maranho, o prato típico da Sertã. E de bucho também. :)

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  9. Carlos,
    Se não soubesse que não era esse o caso, diria que a comensal era a que me entrou ontem pelo gabinete, com ar de mistério, a aconselhar-me a telefonar aos meus pais para eles trocarem todos os euros por outras moedas porque o euro ia acabar.
    Pedi-lhe o favor, já que é excelente a adivinhar, de me dar os números do euromilhões.
    O prémio é em euros, a tal moeda que vai acabar.
    Mas eu não me chateio.
    Faço o sacrifício.
    Ele há gente que sabe tantas coisas,pá!!

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