quinta-feira, 24 de maio de 2012

A globalização do medo



 Será o século XXI o século do medo?  Poderá estar o medo a ser utilizado para nos restringirem a liberdade, diminuir os direitos?  Será o medo capaz de  transformar  as democracias tradicionais em sociedades esclavagistas legitimadas pelo voto popular?
Uma retrospectiva dos 12 primeiros anos deste século justifica todas as interrogações.
Tudo começou em 2001 com o ataque às Torres Gémeas. Desde esse dia Bush bramiu  o papão do terrorismo e aumentaram as medidas securitárias.
 Viajar de avião passou a ser um tormento porque os aeroportos,  além de nos reterem muito para lá do que seria normal  numa época em que todos andam obcecados  com o tempo, se transformaram em  espiões dos nossos corpos e dos nossos passos.
Em terra, a Al Qaeda  passou  a estar  presente em toda a parte, qualquer sítio poderia ser alvo  dos atentados suicidas dos homens de Bin Laden. Os atentados de 11 de Março em Madrid e 7 de Julho em Londres fizeram com que o medo alastrasse e, quando parecia que as coisas poderiam acalmar, uma ameaça de pandemia  provocada por um vírus da gripe encontrado no México, deixou os cidadãos de todo o mundo em pânico.
 A gripe  A não fez mais vítimas do que uma gripe normal, mas venderam-se  milhões de  vacinas. Os beneficiários dessa  histeria colectiva, foram os laboratórios. Os cidadãos encontraram mais um motivo para o pânico nesta sociedade higienista que, curiosamente, é uma das mais letais da História.
Bin Laden, o inimigo número 1, apesar de não ser visto em público,  tinha um rosto. O vírus da gripe A não, mas era reproduzido na imprensa e nas televisões em fotogramas acompanhados de complicados esquemas analisados por especialistas, que explicavam a forma de reprodução do inimigo.
Desde 2007 – e mais acentuadamente desde 2009- um novo inimigo começou a ameaçar  o mundo, particularmente a parte ocidental do hemisfério Norte. Ninguém lhe viu o rosto, não há especialistas nas televisões  a explicarem com esquemas complicados como ele ataca, mas sabemos o seu nome: MERCADOS .
 A utilização do plural   indicia que, desta vez, o mundo está a ser atacado por um inimigo invisível que se reproduz com grande facilidade, podendo  as suas células mãe ser localizadas em Wall Street, na City, quiçá em Singapura, e as ramificações em paraísos fiscais que dão pelo nome de off-shores.  Sabido é que o vírus dos mercados ataca nas Bolsas e nos negócios ilícitos,24 horas por dia, mas ninguém o consegue apanhar. Ou melhor: não sabemos, ainda, se alguém estará interessado em apanhá-lo!
Os especialistas  da área económica e financeira desdobram-se em análises complexas, a maioria diz que a melhor forma de o extirpar é dar-lhe vitaminas de crescimento, mas a direita  não está  para aí virada e contrapõe com vitaminas de austeridade, cuja aplicação massiva definha as vítimas. Quanto aos mercados, estão cada vez mais gordos, mas ninguém parece interessado em obrigá-los a uma cura de emagrecimento.

O medo provocado por esse ser misógeno que é a crise, criada pelos mercados em reputados laboratórios financeiros, começou a ser retratado no cinema.  O primeiro filme – que acabou de estrear em Lisboa- tem por título “Procurem Abrigo”  e analisa a crise financeira a partir da visão de um paranóico. Em Cannes, Brad Pitt acaba de apresentar outro filme que aborda a mesma temática. Sob a capa de filme de gangsters, “ Killing them softly” é, ao que dizem os críticos, uma parábola sobre a crise e a incapacidade de defesa perante um criminoso que ataca à distância.
Se não for através da política e da acção cívica, que seja ao menos através do cinema que os cidadãos se consciencializem que podem fazer algo para combater o inimigo sem rosto que nos prometeu uma globalização capaz de tornar o mundo mais justo, mas nos deu apenas o aumento da miséria e das desigualdades. Porque nós deixámos que assim fosse!
Já não há tempo para termos medo! A hora é de agir.

22 comentários:

  1. De acordo com a abordagem do tema e com as conclusões. Obviamente.

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  2. Estava a ir tão bem e depois a FACADA... "Se não for através da política e da acção cívica, que seja ao menos através do cinema que os cidadãos se consciencializem que podem fazer algo para combater o inimigo sem rosto que nos prometeu uma globalização capaz de tornar o mundo mais justo,..."
    Ainda estou a escorrer sangue!

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    1. A FACADA não foi inocente, meu caro. Tem uma boa dose de veneno, como deve ter reparado...

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  3. Não tenho dúvida que estas políticas incentivam o medo, qualquer que ele seja, para levar a cabo os interesses de alguns. De resto, não tenho mais nada a acrescentar a este texto, que mais que brilhante, me parece de uma extraordinária lucidez...

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    1. Toda a estratégia assenta em incutir o medo nas pessoas, Teté.Em Portugal está a resultar em cheio

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  4. Perante a excelência deste artigo, só me resta levantar-me e aplaudir!
    Não há mais tempo para sentirmos medo e a hora é de agir, mas sempre, sempre, através da acção cívica, conjunta e concertada.
    Beijos.

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  5. Agir? Quem? Os portugueses?...
    A minha esperança são os Gregos que ainda são um povo teso... com o medo que lhes andam a meter nas conversas de bastidores, se fossem os portugueses e, pelas estatísticas, nem precisam que lhes metam medo ou os suguem até à medula... vão voltar a votar no PSD e no CDS... como já ouvi dizer, nós é que somos o povo que criou o Salazar e não foi o Salazar que nos modelou o ADN.
    A posição geoestratégica dos Gregos ainda é importante para a Europa, ao contrário dos portugueses para quem se estão a borrifar se vivemos, morremos, ficamos ou saímos.

    Bjos

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    1. Antes das eleiçoes em França escrevi um post em que defendia que as eleições gregas eram ainda mais importantes do que as francesas. E o que o exemplo grego nos veio mostrar, Isa, é que agora é a Grécia a meter medo aos seus parceiros europeus.
      Quanto à sua teoria sobre Salazar, subscrevo na íntegra
      Beijos

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  6. Estou com a Isa GT!
    A Grécia ainda é um forte "tampão" para a Europa por isso acredito que os Mercados têm que acalmar!
    Creio que uma Europa a afundar-se não interessa a ninguém!

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    1. Parece que a Merkel finalmente começa a perceber o que está em jogo e isso é uma boa notícia

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  7. "Os cidadãos encontraram mais um motivo para o pânico nesta sociedade higienista que, curiosamente, é uma das mais letais da História."

    Porque será que é uma das mais letais? Ora só contrapondo que os cidadãos nunca foram tão covardes em toda a história humana. Quer queira acerditar quer não a indústria do cinema, a fábrica de pesadelos de Hollywod" e a indústria da televisão contribuiram para essa covardia e para a completa anestesia do pessoal. Quer um bom exemplo? Aqui vai um bom exemplo da BANANIZAÇÃO dos espectadores. Estamos literalmente na Era da ESTUPIDEZ INDUZIDA. Mas não há problema, logo que for possível liga-se a TV e no pasa nada!

    O seu artigo Carlos, está excelente!
    Um beijo

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    1. Vejo que percebeu plenamente a minha alusão ao cinema, Fada. Como disse ao Voz a 0db, foi uma facada envenenada.
      Beijos

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  8. errata: acreditar e Hollywood. Peço desculpa pelas gralhas.

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  9. És terrível... Além de FACADA ainda regas a lâmina com veneno... Infelizmente acho que nem com filmes a MANADA vai parar de ruminar!

    Abraço...

    (depois mando-te a conta do Hospital!)

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    1. Eh,eh eh! E a factura é com, ou sem IVA?

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    2. Acho melhor ser sem IVA que é para não alimentarmos BURROS a pão-de-ló/bolo-rei, mas tu é que escolhes!

      E não te preocupes pois como vou a um Hospital Privado do Grupo BES a facturação paralela não deve ser difícil de obter!

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