domingo, 18 de março de 2012

Lonely nights


Na véspera de fazer 40 anos, soube que a fábrica onde trabalhava desde os 20 ia fechar. Antes de regressar a casa deambulou pelas ruas, pensando no que seria o seu futuro. Com aquela idade, sabia que a possibilidade de encontrar um novo emprego seria nula. Tinha apenas o 9º ano, a única coisa que sabia fazer era a tarefa rotineira da lida com a máquina que lhe caíra em sorte e a quem até arranjara um nome: Leopoldina.
Sabia que o marido lhe preparara uma festa surpresa e, por isso, não lhe disse nada sobre o que a atormentava. No dia de aniversário fingiu-se surpreendida e feliz. Esperou pelo fim de semana para dar a notícia. Ele tentou animá-la. Haviam de se arranjar com o salário dele.
Na segunda-feira, quando saiu da  empresa,  foi à agência de viagens. Apesar de saber que todo o dinheiro lhes faria falta, decidiu compensá-la da amargura com a viagem a Paris com que ela sempre sonhara.
Quando chegou a casa, anunciou-lhe que partiriam no sábado seguinte. Ela respondeu com um sorriso triste e enlaçou-o num longo abraço.
Passaram  cinco dias felizes em Paris. Dois dias depois de regressarem ela queixou-se de uma dor na barriga. Nos dias seguintes a dor persistiu. Foram ao médico. Muitas análises  e exames  radiológicos depois, o veredicto: tumor no pâncreas. Seis meses de vida.
O funeral foi na primeira terça-feira de Outubro de 2011.
Ele está agora  sentado, sozinho, na mesa do restaurante onde jantavam todos os sábados. Pede o Balchão de camarão do costume e meia garrafa de vinho. Faz um brinde no ar. Com o café, pede um whiskey. Tira da carteira uma fotografia, onde os dois posam com a Torre Eiffel por fundo. Olha-a durante uns momentos. Beija-a e pousa-a sobre a mesa. Quando termina o whiskey pede a conta. Paga, volta a meter a fotografia na carteira e sai em passo lento, como se carregasse o mundo às costas. Os empregados despedem-se com um “até sábado, senhor engenheiro”.
Ele responde algo imperceptível e desaparece na calçada da rua quase deserta.
“ Coitado, está só à espera da morte, para ir ter com ela”- diz-me o empregado.
Peço um café e um Bushmills e deixo-me transportar até Península Valdez. Da próxima vez, trago a tua fotografia.

17 comentários:

  1. Inexplicavelmente estou sem palavras para comentar.
    Abraco

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  2. Carlos
    Tal com a Catarina também fiquei sem palavras para comentar. Sobretudo quando ao longos deste tempos de "convívio virtual" me habituei a ler as suas "estórias" com o realismo que as mesmas impõem.
    Abraço.
    Rodrigo

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  3. Um apertado abraço e muitos beijinhos, querido Carlos.
    Janita

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  4. Se um houvesse que eleger um texto para marcar os dias que correm escolheria o teu... e não apenas porque me comoveu

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  5. Uma história realista e, como sempre, muito bem escrita, Carlos, e é como eu digo: a vida é demasiado curta para uma pessoa se preocupar com pequenos aborrecimentos.

    A viagem do casal a Paris faz-me lembrar um filme alemão sobre o mesmo tema; a diferença é que o marido só vai de viagem depois da morte da mulher e visita o Japão, o país que ela sempre quis conhecer... e morre lá.

    O meu "Kraut" quando eu morrer também tem de ir até Nova Iorque, o que não precisa é de lá morrer.

    Abraço da amiga de longe.

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  6. Verdade ou ficção... foi uma história que me comoveu!
    desgraças há muitas, mas tocantes como esta...
    Não há muitas assim, não!

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  7. Felizmente que a maioria das histórias não tem um fim tão triste! Já é mau perder o emprego, mas há que manter a cabeça levantada e olhar em frente, com esperança! Quando a uma machadada se segue outra, pior, fica-se sem palavras...

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  8. Entre o real e a ficção, como já alguém disse, é uma história triste!
    Ainda se morrerá de amor?


    Abraço

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  9. Que lhe posso dizer, meu amigo?

    Há situações em que as palavras nem valem apena.

    Um abraço

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  10. Uma coisa é certa: há momentos na vida em que parece que ela conspira para nos tramar! Mas gostei muito da história, que apesar de triste até pode ser real...

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  11. Ainda bem que fizeram a viagem até Paris.
    um beijinho
    Gábi

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  12. Belíssimo texto.
    Esse é para sentir...
    Beijinho

    Lucia

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  13. Mas ficou uma boa memória.
    E um texto excepcional!!
    Aquele abraço e votos de boa semana

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  14. Como é dolorida a falta e não importa o tempo.

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  15. Como é dolorida a falta e não importa o tempo.

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