sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Ver o futuro pelo espelho retrovisor

Talvez não seja despiciendo começar a olhar o mundo com mais atenção através do retrovisor, para vermos melhor o futuro que nos espera. Ora vejam lá...




Na quinta-feira negra de Outubro de 1929, a fachada de papel bolsista, que alimentava o sonho de riqueza americano, ruíra como um baralho de cartas, zombando das profecias feitas meses antes pelo Presidente Hoover que, orgulhoso, anunciava ao povo americano estar próximo o triunfo sobre a pobreza.
O que aconteceu nos dias seguintes, com quedas sucessivas no mercado bolsista, foi o desespero, a miséria, o desemprego e o caos económico. A descoberta em 1930 de Plutão (que na mitologia grega simbolizava o deus do inferno) parecia premonitória de algumas desgraças e horrores. A crise americana reflectir-se-ia na Europa e daria pretexto à instalação de regimes totalitários. Hitler, Franco e Salazar chegariam aos mais altos cargos políticos. Apesar da Grande Depressão, a América dava sinais de poder sair rapidamente da crise e, em 1931, era inaugurado com pompa e circunstância o Empire State Building, um majestoso edifício destinado a escritórios, com 102 andares. Porém, o fausto do edifício não se coadunava com a crise que se vivia e os escritórios ficaram às moscas, o que levou os americanos a apelidá-lo de Empty (Vazio) State Building.

No ano em que Roosevelt chega ao poder (1933) e a Grande Depressão se instala inexoravelmente na Europa, uma canção faz furor. "Brother can you spare a dime?" ( Irmão, dispensas-me uma moeda?) retrata por palavras o cenário que se vive na Europa: actividade económica parada, desemprego, fome, miséria.

Roosevelt lança o New Deal- um programa de emergência que visa o renascimento da América. Os trabalhadores organizam-se em sindicatos, aparece a primeira legislação laboral, são fixados por lei os salários mínimos e o horário de trabalho, são atribuídos subsídios de desemprego e pensões de reforma e invalidez. A política social estava em marcha, mas o estado social só surgirá depois de uma guerra violenta.

No ano que se segue (1934) tem início "A Grande Marcha" comandada por Mao Tse Tung , que irá conduzir anos mais tarde à vitória dos comunistas chineses. Cansados da Depressão, animados com o New Deal, os americanos jogam ao Monopólio, numa tentativa de reaprender o caminho do sucesso capitalista.

Em Portugal, o ano começa com uma greve geral que pretende derrubar Salazar, mas acaba em efeito “boomerang”, com a destruição do já frágil movimento sindical, que vem a ser consumada em Julho, na “Noite das Facas Longas”.

Em 1938 é assinado o acordo de Paz de Munique, pretexto para Hitler anexar parte da Checoslováquia e quando acaba a Guerra Civil em Espanha, vai iniciar-se uma à escala mundial.



Oitenta anos depois, a Europa mergulhada numa profunda crise económica e financeira, mas também de valores, estende a mão à China, a Sérvia acabada de sair de uma guerra fratricida nos Balcãs, que quase incendiou a Europa, está prestes a ser admitida no seio da União Europeia, o estado social laboriosamente construído está à beira do extertor. Em Portugal o ministro da educação admite que as tecnologias de informação são mais apreciadas pelo poder como forma de controlar os cidadãos, do que para promover a sua educação.

Em Cannes, não se assiste à estreia de “E tudo o Vento Levou”, como em 1939, mas há uma reunião entre os mais poderosos do mundo para tentarem reeditar o New Deal. Talvez seja um flop de bilheteira...
França e Alemanha jogam ao Monopólio, ditando as regras e tentando dividir entre si o tabuleiro, mas na Grécia levanta-se uma voz a dizer “o rei vai nu”, porque enquanto bancos e multinacionais acumulam milhões, uma multidão de desempregados e famintos protesta nas ruas. Não cantam “ Brother, can you spare a dime”, mas gritam “Arranja-me um emprego”, frase que também já foi título de canção de Sérgio Godinho nos idos de 70. À falta de empregos, os governos oferecem em alternativa o “Voluntariado”

"Ajudem-se uns aos outros, porque nós já não temos mão no incêndio que provocámos", clama a direita instalada no poder em quase toda a Europa e se passeia pelos corredores de Estrasburgo e Bruxelas de extintor na mão, ignorando que o incêndio não está circunscrito à sala dos fundos, onde se acomodam os PIGS. Já vai no quinto andar, é altura de chamar os bombeiros para proceder ao rescaldo e tentar ainda salvar algumas jóias de família.
A China - que entrou no jogo quase em silêncio- comprou discretamente em África , na Ásia, na América Latina e na própria Europa, posições estratégicas que lhe permitirão, a breve prazo, dominar os principais recursos do planeta e vencer o jogo facilmente.
Enaltece-se a chegada de uma Primavera árabe, mas as alterações climáticas distorceram as estações. Por aquelas bandas já começam a cair as folhas prenunciando o Outono e o jasmim deixou de florir. Na Líbia, enquanto a ONU se prepara para atribuir a Kadhaffi um prémio de Direitos Humanos, a NATO apoia os rebeldes no derrube do ditador.

O grego que levantou a voz para dizer que o rei vai nu paga caro a ousadia. Quarenta e oito horas depois, está na iminência de resignar ao cargo, entregando o governo de mais um país europeu à direita. Um golpe militar pode estar iminente, perante a indiferença da Europa democrata.

Dentro de dias, será a vez de a Espanha transferir o testemunho.
O contaquilómetros do mundo marca 666. Quem virá mudar-lhe a bateria?





11 comentários:

  1. Faço votos para que, para bem de todos, o post não seja premonitório!

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  2. Excelente lição de história!
    Será que a história não se repete mesmo?

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  3. Os acontecimentos recentes são assustadores e, avaliando o que se já passou, não me parece que tenhamos à nossa espera um futuro risonho. E nem sequer estou a falar da situação económica. Acho que as declarações do Sarkozy, ontem, foram absurdas e uma ameaça a quem ousar pôr em causa a pirâmide que ele e a Merkel têm vindo a construir. Veremos se as fundações da ganância são assim tão fortes.

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  4. O número 666 , é o número da besta , isto numa linguagem cabalística. Não sendo eu letrada no assunto , mais não digo. M.A.A.

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  5. Tens razão, Carlos - é mesmo muito assustador o momento que vivemos!

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  6. Eu jamais acreditei nesse disparate da História não se repetir!

    E quanto à China, lembro-me de um livro que não cheguei a ler ( como o tinha em casa não o priorizei e, depois, no divórcio a criatura apoderou-se dele) e que era uma alerta para aquilo que se está passando quanto a esse país.

    Esperemos, esperemos mesmo que não tenhamos que olhar pelo retrovisor e que ainda reste alguma esperança.

    Tudo de bom, Carlos

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  7. Carlos
    Eu não sou superticiosa, mas quanta coisa aconteceu?
    Vou até salvar pra mostrar pros meus sobrinhos estudantes de segundo grau e esperar pra ver o que vai acontecer!
    Dia 6 é meu aniversario e estou no Rio
    com amizade e carinho de Monica

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  8. Monica
    Então no domingo lá estarei para lhe dar um beijinho :-)

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  9. Um grande artigo de opinião com intercalação histórica cuja premonição espero não se realize mas que, infelizmente, é uma visão que compartilho. Também infelizmente, a chamada esquerda democrática (leia-se socialista, trabalhista, social-democrata) desapareceu, tendo-se blairizado (terceira-via???) dando as duas mãos à direita neo-liberal por toda a Europa, fortalecendo as suas fileiras se não em militãncia, pelo menos em apoio. Portugal é um exemplo acabado desta promiscuidade pseudo-ideológica, onde hoje não há oposição que não seja a comunista ou a revolucionária, vivendo este país já perto do obscurantismo salazarento, com os shares televisivos virados para casas de putas, desculpem casas de segredos e ninguém a ligar nenhuma ao que a nova política proto-nazi nos anda a cometer. Enfim...

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