terça-feira, 1 de novembro de 2011

Halloween

Manhã de 1 de Novembro, rescaldo da “Noite das Bruxas”. Saio de casa para comprar jornais e tomar café no sítio habitual. Na esplanada, um grupo de meninos e meninas ( mais meninas) mascarados de bruxas, fadas e duendes, erguem os copos de cerveja em celebração. Não vão formosos nem seguros. Vão cambaleantes e de braços desnudados, desafiando o frio das 11 da manhã.
Presumo que tenham saído da discoteca pouco antes. Com a voz entaramelada uma menina pede-me um cigarro. Não tenho. Não fumo cigarros. A resposta, educada, da menina que vive numa zona onde pretensamente habitam núcleos familiares da classe média alta é elucidativa:
“Então vai-te f….”
Claro que não fui. Comprei o jornal, sentei-me numa mesa interior a ler. Passados alguns minutos entram sete meninos e meninas do grupo. Passo cambaleante, sentam-se a uma mesa e começam a jogar à “moedinha”. Um menino levanta-se e vai à máquina comprar um maço de cigarros que distribui generosamente pelos amigos. A proprietária dirige-se à mesa, adverte-os :
“Não podem fumar aqui dentro, têm que ir para a esplanada”
“Está um frio do caraças lá fora”
responde uma menina de braços desnudados.
“Eu sei, mas não posso fazer nada. O que querem tomar?”
Um galifãozito empertiga a voz e arrisca:
“ Eu queria era apalpar-te as mamas. Comer já eu comi”
Seguiu-se um olhar dengoso para uma menina do grupo, retribuído com um beijo que se perdeu no ar.
“Então se não querem nada, façam o favor de ir para a esplanada”- retorquiu a proprietária.
A menina que me pedira o cigarro pensou que era a altura de intervir e “serenar” os ânimos.
“Está-se a armar em boa! Não sabe que hoje é o Dia das Bruxas. Vamos embora”.
Cambaleando, saíram para a esplanada onde se espojaram nas cadeiras, copo de cerveja na mão, com a postura de quem terminara uma árdua jornada de trabalho.
É assim o Halloween em Portugal. Um dia de copos em excesso, igual a tantos outros, com a diferença das máscaras.
Vivi mais de uma década em países anglo saxónicos. Sei que a noite do Halloween não tem nada a ver com esta cena. Em Portugal, porém, é assim. A sociedade de consumo apenas se preocupou em exportar a festa , pelo paradigma consumista. Da sua essência, nada resta. O Halloween em Portugal sabe-me a morangos comidos em Novembro. Têm cor, mas falta-lhes o paladar do mês de Maio.
Nem os meninos-família escapam à aridez dos tempos. Se fosse pai de um deles, já me tinha suicidado… por incompetência na função de educar.
( A Cena passou-se em 2008, não voltei a ver cenas idênticas em manhãs de Halloween,mas a má criação continua a ser abundante. Há quem lhe chame irreverência...)


9 comentários:

  1. Pois...que posso dizer mais?

    Há ainda uma coisa que nunca percebi; o ataque se tréguas ao tabaco e a complacência com o alcool

    Mas sou eu que devo ser burra

    Relativamente à má educação, por vezes os nossos objectivos não se cumprem, desgraçadamente: falo por experiência própria.

    Bom resto de feriado.

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  2. Esta cena triste deixa-me com os cabelos em pé. Os pais não terão alguma culpa? Acho que sim.
    Mas o melhor é ser prudente nas palavras. Tenho netos pequenos...

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  3. eheheh

    "Os pais não terão alguma culpa? Acho que sim." Ó Sonhadora... ACHAS?!?!?!?!?

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  4. Carlos,
    o desbragamento da linguagem utilizada pelos adolescentes de hoje é, infelizmente, uma realidade.
    Quer seja em noites de pretexto para emborcarem uns copos ou no dia-a-dia.
    Tenho assistido, casualmente, a conversas entre miúdos/as - mais as do que os- de pôr os cabelos em pé!
    Fruto dos tempos modernos ou da demissão dos pais da sua função de educadores?
    Acho que é aqui que começa o jogo do empurra, entre professores e pais.
    Entretanto "eles" vão seguindo, pela vida, ao Deus dará!
    Beijinhos, bom feriado.

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  5. "Acho que é aqui que começa o jogo do empurra, entre professores e pais"

    Mas qual jogo? Esta mania que os Pais têm de se desfazer da responsabilidade de educar, apenas me leva a concluir que a maioria destes animais humanos apenas têm prol porque os outros (o grosso da Sociedade) também tem... assim que ganham o título de Pais... apre largueza... largam a prol na casa dos avós, que já não têm pachorra para voltar a educar ninguém, ou então nas escolas como se a obrigação de educar agora fosse dos professores, ou então aos fins de semana nuns sítios que para aí há de recolha de canalha, ou então "toma lá 10 euros e desaparece!"

    Resumindo... são pais apenas porque lhes é dito que têm que ser pais! Caso contrário serão uns tristes, e nunca terão o que falar com os amigos que são pais!!!

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  6. Engalinho com a "noite das bruxas"...
    Uma americanisse q se começa a entranhar.
    Degradante , ontem á noite , a forma como a juventude se apresentava no Camões... Mau aspeto e bebedolas...
    No comboio, assustei-me. Olhei assustada para uma jovem, que de cara lavada seria linda, mas de inicio , não associei a cara "à bruxa" que ali ía. Pensei que seria uma rapariga espancada. Jovens, muito tenros, com garrafoes de 3 l cheios de sangria.
    Enfim, uma tarde a não sair do meu canto em dias futuros a 31/10.
    Má educação ... bom, há pais que nem sonham que é uma linguagem de grupo...
    :(( :((

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  7. Acredito que os pais podem ter alguma culpa, mas certamente não toda: esta malta quando está em grupo tem comportamentos propositadamente malcriados, a que o excesso de copos e consequente menor discernimento não ajuda nada. E sim, estão-se nas tintas para o Halloween, que é apenas mais uma desculpa para uma noitada de copos, cada vez mais frequentes entre os jovens...

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  8. Tremenda falta de educação desses jovens! E,serão sempre assim.

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  9. É o que temos e não é só na manhã seguinte à noite de Halloween... é todos os dias.
    O pior no meio disto, é que haverá muitos pais e mães a ler isto e a pensar: 'Os meus filhos não são assim!'.
    Como estão enganados!
    Quanto ouvi dizer isso e mais tarde fui apanhá-los.
    E não venham com a história 'das companhias'... isso é música para ois meus ouvidos'. Tive amigos com os mais diversos vicios e nunca os apanhei por isso!

    Para rematar: se temos queixa dos actuais governantes, como não será quando chegar a vez desta geração!

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