quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Fado em ritmo de tango




O Fado apresentou a sua candidatura a Património Imaterial da Humanidade. Não tenho visto grande entusiasmo por aí e a publicidade tem-se reduzido praticamente a entrevistas de Carlos do Carmo nas rádios e televisões.

Lembrei-me, a propósito deste quase silêncio em torno da candidatura, do que se passou na Argentina quando, em tempos da crise do “Corralito”, o tango voltou a ser assumido pelos argentinos como património nacional. Quando foi apresentada a candidatura do tango a Património Imaterial da Humanidade, o tango renasceu por toda a Argentina, desde Ushuaia a La Quiaca. Em Buenos Aires, de San Telmo a Puerto Madero, de Palermo a La Recoleta, não havia restaurante, café ou boteco, que não anunciasse noites tangueras onde o tango era cantado, dançado e sentido com a vibração de outros tempos. Os teatros também aderiram, levando à cena espectáculos evocativos da História do tango.

Por cá tem sido bem diferente, apesar de os tempos também serem de crise. Talvez porque o Fado não tenha a mesma expressão nacional do tango e ser ainda considerado um produto de Lisboa, com características regionais. Mesmo a nível internacional o Fado não se impôs como o tango.

Chegado à Europa em 1911, deixou os franceses de imediato em êxtase. Enquanto os moralistas defendiam a sua proibição, o Papa considerava o tango uma dança imoral e o próprio Kaiser proibia os oficiais de o dançarem, os estilistas europeus concebiam as suas colecções de moda com características associadas à dança maldita. O tango impôs-se como movimento transgressor, animando os salões de sociedades recreativas e os bailes de alguma alta sociedade francesas.

O Fado tem alguns pontos em comum com o Tango, no concernente às origens, mas daí em diante é mais o que os separa do que os une. Enquanto o tango foi silenciado pela ditadura argentina, o fado foi utilizado pelo Estado Novo como instrumento de propaganda. Por outro lado, enquanto o tango tem uma história ligada à rebeldia, o fado está mais conotado com uma atitude conformista. Lá por fora é apenas ouvido como um género musical muito ligado à forma de ser e sentir dos portugueses.

É muito provável que o fado – apesar da indiferença da secretaria de estado da cultura- venha a ser (merecidamente) declarado Património Imaterial da Humanidade, mas fica por saber até que ponto saberemos aproveitar essa distinção.

7 comentários:

  1. Carlos querido amigo

    Fico daqui na torcida.
    Beijinho

    Lucia

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  2. Também já tinha reflectido sobre isso. Não há muito patriotismo nacional, Carlos. Há excepção do futebol, e até esse é só em alguns casos mais pontuais, o português não é muito apegado.
    Bairrista, faccioso, fanático em algumas coisas, sim.
    Conformista bastante
    Patriota muito pouco.

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  3. Espero que o fado vença e que depois não se fique só pela distinção.


    Embora, francamente, eu não seja grande apreciadora.

    Li a crónica de Fernandes e concordo de todo. Aliás, geralmente, gosto muito de o ler.

    Para mim, a UE nunca existiu de verdade e agora está em coma, porque o caso da Grécia não foi apanhado a tempo.

    Saudações, meu amigo.

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  4. Carlos,
    não sei até que ponto essa distinção de se considerar o Fado como Património Imaterial da Humanidade, nos distinguirá a nós, portugueses ou nos trará algum tipo de contrapartida.
    Tampouco concordo muito que o seja, já que o fado representa aquele sentimento tão luso e fatalista que é a palavra saudade, sem tradução em qualquer outro idioma.
    Património Imaterial Nacional, sim!

    Já o Tango Argentino, sim!
    Ultrapassou há muito a fronteira argentina e hoje é dançado e cantado em todo o mundo.
    Para além da insubmissão que lhe está implícita tem aquela faceta sensual que o torna tão atractivo.
    Bom, isto é a minha modesta opinião que nada tem de abalizada, claro!
    Bjos.

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  5. Carlos
    Sem ser muito entendido, parece-me que o fado conquistou não só os Portugueses mas hoje é reconhecido mundialmente.
    Penso que se deve muito à nova geração de fadistas que por terras lusas e fora delas levaram o fado a ser reconhecido como um potencial candidato a património imaterial da humanidade.
    Seria injusto se não referisse também os fadistas mais velhos que tornaram o fado uma coisa boa de ouvir e á há muito ultrapassou o tipico fatalismo Luso.

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  6. Onde se lê "Há excepção do futebol" deve ler-se "Há a excepção do futebol"

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  7. CARLOS, o tango é sensual, romântico e muito bom de se ouvir.Dificil de dançar, mas sempre,música e letra,a interpretação de um grande amor.
    O tango atravessou fronteiras,o fado nem tanto, embora simbolize os portugueses.

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