sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Balanço ( provisório) da greve geral

Os factos
Dezenas de escolas encerradas. Hospitais a funcionar com os serviços mínimos. Nos transportes, alguns autocarros a circular, mas quase vazios. São apenas alguns exemplos do que vi ontem em Lisboa.
Uma grande manifestação que decorreu de forma ordeira, até ao momento em que alguns desordeiros de encomenda, misturados entre os manifestantes, ultrapassaram os limites. Foi aí que me assustei. A reacção da polícia foi manifestamente desajustada em relação ao que se estava a passar e fiquei convencido que a polícia está manifestamente impreparada para lidar com situações mais violentas.
Fiquei petrificado quando ouvi Garcia Pereira afirmar ( garantindo que havia pessoas - incluindo jornalistas- que o poderiam testemunhar) que polícias à paisana desceram disfarçadamente a Av D. Carlos perseguindo manifestantes para depois os deterem. A ser verdade, a sensação que tive, em frente à AR de que estava a viver momentos que já não presenciava desde o tempo do salazarismo, ganha ainda cores mais negras. Vêm aí dias difíceis…

Os números
Só por má fé , cegueira, ou desfazamento total da realidade, se pode dizer que a Greve Geral não teve uma grande adesão. Ganha por isso foros de ridículo, ver o governo anunciar que a percentagem de grevistas foi de 3,6% ( corrigido às 18 horas para pouco mais de 10%).
Nada pior do que um governo autista, que nos quer fazer passar a todos por estúpidos. Mas ver o inefável Relvas na RTP, debitando uma cassette gasta e fugindo das perguntas que lhe foram colocadas por JRS, como diabo da cruz, demonstra que o governo se assustou com a adesão.
Continuará – não tenho dúvidas- a ser autista e a prosseguir uma política suicidária que conduzirá o país ao abismo. Continuará a acusar os sindicatos de irresponsabilidade, porque nenhuma daquelas cabecinhas percebeu que enquanto as manifs forem controladas pelos sindicatos, não haverá tumultos. (Salvo, claro está, se eles forem provocados por agentes infiltrados nas manifs com esse propósito já que só o governo tiraria dividendos, neste momento, se houvesse distúrbios.)
Indiferente aos protestos e às próprias agências de rating que, em dia de greve geral reconhecem a sua descrença quanto à eficácia das medidas que estão a ser adoptadas e, sem complacências, nos atiram inapelavelmente para o caixote do lixo, persiste teimosamente no erro.
Talvez a expressão assustada de Relvas tivesse também a ver com isso. Quando uma agência de rating chinesa prevê que a recessão em 2012 atinja os 3,5%, está-se a aproximar das perspectivas do governo que, prosseguindo a sua política de dar as más notícias às pinguinhas, se recusa a admiti-lo, colocando – por agora- a recessão nos 3% por uma questão estratégica. ( Lembre-se que apenas há um mês o governo garantia que a recessão em 2012 seria de 1,8%)
Lá para Junho virá admitir que as coisas não correram bem, a recessão se aproxima dos 4% e será necessário tomar medidas adicionais. Sem dar garantias aos portugueses de que sairemos da recessão com as medidas de austeridade que então serão anunciadas, Vítor Gaspar continuará a dizer que não há alternativa. Lá para final do ano, se as coisa não melhorarem Cavaco dirá basta e cumprirá finalmente o seu sonho: ser presidente de um governo de sua iniciativa, liderado por um PM da sua confiança, que cumprirá as suas directivas.
Não estou certo que os portugueses recebam com alívio essa decisão. O mais provável é que a luta endureça e comecemos a viver, em Portugal, aquilo que temos visto na Grécia através da televisão. Dentro de um ano saberemos.

21 comentários:

  1. Carlos
    No meu post de anteontem justifiquei o porquê de não aderir à greve. Direito que me´é vedado por razões legais.
    No entanto acompanhei o que pude e claro também ouvi os numeros ridiculos que foram debitados.
    Gostava de lhe dizer que o seu post é péssimista, mas desgraçadamente tenho de concordar consigo, até nos vatícinios.
    Abraço

    ResponderEliminar
  2. Carlos querido

    A notícia que nos chega na Tv aqui e de que foi a maior greve da história de Portugal.
    E junto a notícia fala da nota rebaixada. Sinal de alerta para não se investir em Portugal.
    O que está de acordo com seu texto.
    Torço pelo país e pelo maravilhoso povo português.
    Beijinhos

    Lucia

    ResponderEliminar
  3. Meu caro, deixe-se de minudências acerca dos disturbios e do comportamento dos polícias, cujos meios utilizados são sempre despropositados para as circunstâncias do momento e das larachas do Relvas. É que há tempos lhe perguntei qual era a alternativa a este governo. Só agora me deu essa resposta. Um governo de iniciativa do PR com um PM nomeado. Sim, senhor está previsto na constituição. E acha que era melhor um governo de tecnocratas? Acha que os tecnocratas têm a tal sensibilidade social que tanto fala? Hummm!!
    Pois,a ideia, meu caro CBO, é transformar o país num caldo de anarquia como a Grécia. Mas Portugal não possui tradições anarquistas. Além disso o povo é sereno.

    ResponderEliminar
  4. Pelas notícias que vi na TV, achei estranhíssimo duas coisas: ataques a 3 bairros fiscais, com uns cocktails molotov mais que ranhosos e um bocado de tinta?; em frente à AR, até acredito que alguns manifestantes mais exaltados quisessem avançar, mas essa versão que alguns polícias infiltrados na manif estavam a acicatar o povo a isso, não passou a uma que ouvi falar, que segundo ela passaram para o outro lado da barricada, quando a situação se resolveu.

    Então como é que é? Era malta mais exaltada ou uns fulanos a espicaçar e até a promover confusões e conflitos? No meio, ainda uma jornalista histérica, a referir que um repórter fotográfico tinha sido agredido pelas forças policiais, que não será pormenor para o próprio, mas não releva muito pelas imagens de uns encontrões e tal.

    Admito o susto. E a surpresa de ninguém perceber de onde vêm ataques inócuos a bairros fiscais e a "confrontos" que não se sabe de onde partiram. Que, na verdade, só serviriam a vitimização dos atuais governantes. Porém, não me espanta que estes tivessem dado uma taxa de adesão à greve tão inferior à observada por todos: hipócritas não mudam nunca, sejam estes ou outros!

    ResponderEliminar
  5. Nas imagens da TV via-se perfeitamente os agentes à paisana levarem os detidos. É natural, são conhecidos uns dos outros...

    ResponderEliminar
  6. Não é a fazer greves que se resolve os problemas do país.
    Se, na altura das eleições tudo votasse em branco, ai sim, se via a revolta dos Portugueses.
    As greves só servem para os sindicalistas dizerem que o povo está unido, houve muita adesão e pelos números que dizem, feitas bem as contas ainda fizeram mais trabalhadores greve, do que aqueles que realmente trabalham.
    E serve também, para alguns xicos-espertos se mostrarem. Quanto mais gritos, braços nos ar e caras de espanto como se tivessem sido agredidos fazem, melhor fica o teatro.
    Há maneiras mais pacíficas de fazer greve.

    ResponderEliminar
  7. Presumir que o Cavaco é capaz de fazer algo de diferente do que já nos deixou com seu legado de maioria, ainda por cima agora, que nem capaz é de comer bolo-rei com a boca fechada, é no mínimo hilariante... Mas na verdade é deprimente saber que existem ex-cidadãos de Portugal que acham que no passado é que está a resposta para o futuro.

    ResponderEliminar
  8. "Não é a fazer greves que se resolve os problemas do país." fiz copia/cola (sou preguiçoso), para aproveitar a deixa sobre greves... É para mim evidente que as greves deviam deixar de existir no enquadramento legislativo. Afinal nunca são oportunas. Quando tudo está bem, não são oportunas pois afinal tudo está bem! Quando tudo está mal, não são oportunas porque tudo está mal e é preciso voltar, como que por magia e ares da serra, a ter tudo bem!

    Assim sendo, sugiro que acabem com esta figura, e que quando as coisas estiverem MESMO MAL, tipo animais* a morrer na beira da estrada, e quem sabe, na estrada da beira...aí os animais escravos e ex-cidadãos deste pedaço de terra que façam algo... Greves é que não. São inúteis.

    *animais=grupo de seres vivos pertencentes a uma espécie antiga denominada por "homo sapiens" mas que por motivos de economia passou a ser designada simplesmente por "animais".

    ResponderEliminar
  9. Temo que voltemos a assistir ao triste episódio policias contra policias. Ao que parece já faltou mais.

    ResponderEliminar
  10. «Cavaco dirá basta e cumprirá finalmente o seu sonho: ser presidente de um governo de sua iniciativa, liderado por um PM da sua confiança, que cumprirá as suas directivas».

    Discordo! Não o fez há 6 meses atrás e não é agora que o irá fazer. Ele está numa fase em quer «sopas e descanso».

    «Não estou certo que os portugueses recebam com alívio essa decisão. O mais provável é que a luta endureça e comecemos a viver, em Portugal, aquilo que temos visto na Grécia através da televisão. Dentro de um ano saberemos».

    Também não me parece. O povo está resignado, até porque sabe que não há alternativa e que a haver seria muito pior, por isso...

    ResponderEliminar
  11. Folha seca
    E eu tive oportunidade de lhe responder que compreendo muito bem as suas razões, meu caro Rodrigo
    Abraço

    ResponderEliminar
  12. Lúcia Luz
    Isto já lá não vai com Fé, querida amiga. De qq modo, obrigado.
    Beijinhos

    ResponderEliminar
  13. Carlos II
    Quando tiver dinheiro para lhe pagar o curso que acima lhe prometi, eu envio o cheque. Pelo menos para a primeira prestação, está?
    As mehoras

    ResponderEliminar
  14. Teté
    Essa dos ataques às repartições de finanças, foi do melhor que já vi desde o 25 de Abril.
    Estes tipos têm bem estudadas as tácticas do Estado Novo

    ResponderEliminar
  15. Ariel
    Ficou tudo entre amgios. Imagine que um dos detidos até é alemão!

    ResponderEliminar
  16. Carlota
    Minha querida amiga. A greve pode não resolver os nossos problemas, mas ficar de braços cruzados à espera que a crise passe, enquanto nos roubam, também não me parece a melhor solução.
    No entanto, claro que respeito ( e muito) a opinião dos que não aderiram à greve. É um direito que respeito na mesma proporção em que respeito o direito à greve
    Beijinho

    ResponderEliminar
  17. Voz a 0 db
    O Cavaco fala, fala, mas não faz nada. Como se viu ainda ontem, com a aprovação doo pagamento de portagens nas SCUT. Especialmente na A 23 ( auto-estrada da Beira Interior) as portagens são um erro crasso que terá como resultado o empobrecimento do interior, a sua desertificação e milhares de desempregados

    ResponderEliminar
  18. Paulofski
    A última medida do governo nesta área aponta nesse sentido. Virar polícias contar polícias, conferindo regalias a uns quantos e mantendo a maioria na situação miserável em que vive, não me parece uma boa ideia. Mas els lá sabem o que fazem...

    ResponderEliminar
  19. Paulo Lisboa
    Sempre desconfiei dos mansos... Não me espantarei se um dia destes disserem BASTA! reagindo por impulso e de forma apenas emocional.
    A manif dos indignados,ne 5ª feira, foi um sinal que não deve ser menosprezado...

    ResponderEliminar
  20. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  21. Tenho acompanhado como posso as notícias sobre Portugal. Naturalmente que eu estou cheia de apreensões, e sinto muito que a política econômica esteja sendo conduzida de modo a levar o país à bancarrota.
    Desejo muito que a cegueira dos políticos tenham logo um fim, antes que o fim do país seja decretado.
    As tv´s brasileiras mostraram um mar de gente, o que refuta logo de cara os números "oficiais", como tu bem disseste aqui.
    E postes como esse nos trazem mais informações do que possas supor, Carlos, porque são explicativos.
    Aplausos para vocês que não estão de braços cruzados, e sou super a favor das greves, e de qualquer outra forma pacífica de demonstrar a insatisfação.

    Força! Força!

    Um abração!

    ResponderEliminar