terça-feira, 18 de outubro de 2011

No Metro com elas...graças a Deus!

As duas mulheres que vão sentadas à minha frente no metro, aparentam estar naquela década da vida onde todas as decisões são importantes, porque definem as opções quanto à velhice.

Têm voz metálica e falam vários decibéis acima do tom, perturbando-me a concentração na leitura de um artigo do “Courier Internacional”: Crise da dívida- e se a esquerda tiver razão?( Hei-de escrever sobre isto mais tarde…)

A mulher morena de cabelos curtos que deixam perceber uma ou outra cã, tem ar tímido e deve ser funcionária pública. Reclama contra mais um ano de congelamento de salários e de progressão na carreira , o corte nos subsídos e realça que o seu rendimento está agora ao mesmo nível de 1981. Teme que no próximo ano lhe voltem a reduzir o salário.
A outra, de longos cabelos negros, pulsos cobertos de pulseiras e cachucho no anelar, escondendo uma aliança, é mais desembaraçada. Acompanha as palavras com gestos efusivos e responde às reclamações da companheira de viagem:


“ Ó Manuela, francamente! Com esta crise tu tens emprego e ainda reclamas? Olha, a minha irmã foi despedida há dois meses, porque a empresa fechou. Está com uma depressão… ninguém arranja emprego com a idade dela…imagina o que é ficar no desemprego com os 50 anos à porta…”
Manuela olha para a companheira de viagem como quem pede desculpa pelo seu lamento.
“ Pois, tens razão…lá nisso tenho sorte, graças a Deus. Coitada da tua irmã…”


Desliguei da conversa neste preciso momento. Dei comigo a pensar que o nosso grande problema é resignarmo-nos com os males dos outros. Desde que haja alguém em pior situação do que nós, ao nosso lado, damos graças a Deus, persignamo-nos e seguimos em frente.

Este comportamento, ao contrário do que alguns argumentam, não é de solidariedade, nem compaixão. É de resignação. Comum à maioria dos portugueses. Enquanto formos assim, continuaremos a ser espoliados nos nossos direitos e a aceitar, agradecidos, a dádiva de um emprego.

Quando é que assumimos que o trabalho não é uma dávida, mas sim um direito?Até quando continuaremos a aceitar este sistema em que alguns acumulam capital à custa de trabalho remunerado ao mais baixo preço possível e em condições cada vez mais precárias?
Queremos regressar ao século XIX, ou construir uma sociedade mais justa no século XXI?

Só a nós compete decidir, não aos governos, cúmplices do grande capital que nos esmifra e a eles contempla com lugares bem remunerados nas suas empresas, se desempenharem de forma exemplar as ordens que recebem dos mercados, enquanto estiverem mandatados pelo voto popular.

E nós acreditamos que isto é democracia...graças a Deus!

12 comentários:

  1. Nunca me tinha apercebido que esses comentários poderiam conotar resignação...
    É capaz de ser verdade!

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  2. Já dá que temer ter um emprego remunerado pelo Estado!

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  3. Amigo Carlos, pois é esta resignação que me assusta, principalmente vinda dos mais novos. Para mim é sinónimo de MEDO!
    Vou fazer link, posso? Obrigado.

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  4. Pior que resignação, sobressai um sentimento de culpa própria por ainda se estar a lamuriar...

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  5. Essa resignação para mim tem a ver com baixa estima.
    Muito bom o seu texto.
    Mais uma vez parabéns.
    Beijinho

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  6. Não eu não me resigno! E com o mal do meu vizinho posso eu bem (diz o povo).O problema do português é o mal de inveja: eu estou mal, mas se o meu vizinho ficar como eu ou pior do que eu (o que sabe ainda melhor) já não há problema. Para o português o mal dos outros conforta; não nos sentimos sózinhos, é o que é!É como ir ao hospital para melhorar os nossos males: ao vermos os outros tão mal até nos esquecemos das nossas maleitas. Triste mentalidade esta que não nos deixa indignarmo-nos e reagir à adversidade (e mandar uns tijolos à cabeça destes políticos da treta também era bom).

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Caro Carlos:
    Este post vem mesmo a calhar.
    Para sumarizar, digo apenas que estou, pela 2ª vez, desempregada.
    (é daquelas situações em que preferia comentar através dum email, não aqui..).
    Por algumas razões, consigo manter o equilíbrio e automotivação, pelo que começo a não entender tantos amigos que vêm lamuriar-se com medo de perder emprego ou regalias. Sofrer por antecipação não vale e a preocupação é válida, mas não deve tolher a capacidade de vivermos.
    Muito mais eu diria se não fosse expor-me no que considero ser demasiado neste contexto...
    De qualquer forma, deixo a ideia: sejam responsáveis pelas vossas vidas; e reparem bem nas dos amigos. Avaliem. Sobretudo, sintam.

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  9. Apetece gritar, a toda a hora: ACORDAI!!
    (e o teu post ajuda bem na tomada de consciência...)

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  10. A verdade é essa! E o patronato conta com esse medo enorme de ficar no desemprego, para abusar dos seus poderes!

    Quer dizer, em termos de fome e de miséria não nos podemos comparar com alguns países do terceiro mundo. Mas isso serve de consolação? Também há gente com fome, mas não é tanta e sempre há quem ajude? O pior é que a seguir por este rumo não vai haver mais "caridadezinha", que aliás foi coisa que sempre me irritou um bocado, embora perceba que a maioria das pessoas a façam por bem...

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  11. PENSAMENTO ESCRAVO DO DIA

    "Quando é que assumimos que o trabalho não é uma dávida, mas sim um direito?"

    E é disto que o SISTEMA se alimenta...

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  12. Concordo que o trabalho seja um direito e não uma dádiva.

    Mas também não nos podemos esquecer, que temos o dever de trabalhar com afinco e empenho, o que nem sempre acontece...

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