quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Uma história de vida no dia da morte do pintor

Mural Ribeira Negra ( Ribeira , Porto)

A pintura que lhe deu origem está na Alfândega do Porto

Preparava-me para começar a almoçar quando o telefone tocou a anunciar a morte de Júlio Resende.
Mesmo sabendo há meses que o seu fim estava próximo, e não o vendo desde o dia em que lhe fiz uma pequena entrevista,fiquei sem palavras e recusei os filetes de linguado.

Gostaria de escrever aqui sobre aquele que foi, para mim, um dos maiores pintores do século XX. Não posso. Não sei escrever sobre pintura e nada que pudesse escrever sobre o homem seria desconhecido dos leitores do CR. Talvez apenas não saibam - os leitores mais recentes- que conhecia Júlio Resende desde criança, porque ele era amigo de infância da minha mãe e mantinha com a minha família uma relação estreita.

Mas não resisto a contar-vos, em breves palavras, um episódio sobre uma extraordinária revelação que me fez uma tarde.

Estava eu a fazer um trabalho de pesquisa para a disciplina de "História da Literatura Portuguesa" ( antigo 7º ano) quando descobri nos arquivos de "O Primeiro de Janeiro" uns contos de uma senhora que lá escrevera com um nome francês. Gostei bastante do que li e, como na altura não havia máquinas de fotocópias, cheguei a transcrever para um caderno algumas passagens, com o intuito de as incluir no trabalho.

Um dia, lanchava com Júlio Resende e a jornalista/poetisa/escritora Marta Mesquita da Câmara na Confeitaria Império, no Porto, e aproveitei a oportunidade para manifestar o desejo de conhecer a escritora.

Júlio Resende - ainda hoje penso que inadvertidamente- respondeu:

-Mas tu já a conheces!

Marta Mesquita da Câmara - que na altura, se bem me lembro, coordenava a secção cultural do diário portuense- lançou -lhe um olhar severo.

Como é que eu já a conheço? Não me diga que é aqui a Tia Madalena... ( pseudónimo utilizado pela escritora em várias publicações infantis)

- Não, não sou. A ... já deixou de escrever há uns anos, não deve estar interessada em falar sobre isso- respondeu secamente.

Insisti então que me dissessem quem era pois, se eu já a conhecia, tinha direito de saber, até porque isso iria ajudar a fazer o meu trabalho.

Sou teimoso e, quando uma coisa se me mete na cabeça, não a largo de ânimo leve. Marta Mesquita da Câmara acabou por se ir embora, manifestamente incomodada com a minha insistência.

Fiquei só com Júlio Resende, atazanado-o para que me desvendasse a identidade da autora. Ao fim de algum tempo ( não por cansaço, mas porque- confessou-me mais tarde- pensou que eu tinha o direito de saber) lá me respondeu:

" É a tua Mãe!"

Um grande abraço, Mestre! Obrigado por aquele dia e por tantos outros que tive o prazer de partilhar consigo.












9 comentários:

  1. Estória interessante a que os testemunha.

    Que esteja em paz!

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  2. Adorei...uma mãe com segredinhos:):):)
    Júlio Resende para mim também é um marco na história da pintura.

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  3. Deliciosa essa história sobre a sua mãe. Júlio Resende, uma grande perda...

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  4. Que maravilha essa história da sua mãe...:))
    Júlio Resende é um dos meus pintores preferidos. Grande.

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  5. Que lindo!
    Nossa me emocionei aqui.
    Beijo Júlio e obrigada por esse momento.
    Beijo Carlos e obrigada por compartilhar essa história

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  6. pensei q o desfecho da história fosse: Já a conheces por via do que escreve.

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  7. O Carlos é um sortudo!!
    (Veja a banda desenhada que lá deixei no blogue, Carlos)
    Abraço

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  8. Carlos,
    venho pôr a leitura do teu blogue em dia e fiquei muito emocionada com esta história de vida, de uma vida tão próxima da tua. Imagino com te deves ter sentido com essa extraordinária revelação.
    O mundo das Artes plásticas ficou mais pobre, mas o espólio do Mestre Júlio Resende é muito rico e perpetuará a sua memória.
    Um beijo para ti.
    Janita

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