quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Roubaram um bocado de mim...

Cafeteria Richmond ( foto Internet)



Saberão os leitores que seguem o CR há mais tempo, que sou um amante de Cafés com Histórias Dentro.Em todas as cidades onde vivi, encontrei sempre um ou dois cafés que faziam parte das minhas rotinas e me ajudaram a perpetuar memórias.
Em Buenos Aires, porém, esse número aumentou exponencialmente. A capital argentina é um verdadeiro tesouro para quem aprecia cafés ( mais de meia centena estão referenciados como património cultural e histórico da cidade) sendo muitos deles recheados de histórias.
Quando lá vivi, a minha primeira paixão foi o celebérrimo Café Tortoni, na Av de Mayo, bem perto da Casa Rosada, sede do governo. Mas muitos outros, como o La Biela ou a Confiteria Ideal ( onde a Laura tentou ingloriamente fazer de mim um tanguero) continuam a ser visita obrigatória sempre que vou a Buenos Aires.
Mas é d do Café/ Confiteria Richmond que retenho algumas das melhores recordações de Buenos Aires . Localizada na Calle Florida, em pleno centro da cidade, era um dos cafés preferidos do ainda jovem Borges e de muitos outros intelectuais e artistas argentinos.

Naquele cenário de candelabros, madeiras inglesas e mesas com tampos de mármore, da Buenos Aires dos anos 20, me sentei centenas de vezes. Fosse para tomar um café rápido, acompanhado de uma mini medialuna, fosse para repouso mais prolongado de leitura, na companhia de um chocolate quente ou de um mate em fins de tarde invernosos, a Richmond era visita diária, quase obrigatória.
Ali respirava a atmosfera porteña , embalado pelo cenário ou à conversa com clientes habituais, desde executivos a empregados de escritórios que, ao final da tarde, faziam da Richmond o seu porto de escala, antes do regresso a casa. Foi na Richmond que alinhavei muitos artigos e reportagens, depois concluídos no remanso da casa em Maipú, ou em SanTelmo.
Foi também na Richmond que, algumas vezes, marquei inesperado encontro com a saudade, viajando de lá até ao meu Porto natal, para ancorar nas tardes de sábado no Majestic.
Fiquei ontem a saber que a Richmond fechou as suas portas no último sábado. De madrugada, sem pré-aviso e para surpresa de todos, incluindo empregados, que lá se dirigiram no dia seguinte.
Desapareceu um dos cafés/confiterias mais emblemáticos de Buenos Aires, palco de animadas tertúlias. Morreu um bocado da História bonaerense e morreu um bocado de mim. No lugar da Richmond vai surgir uma loja de artigos de desporto…americana!
Em Dezembro, quando regressar a Buenos Aires, vou lá pôr um ramo de flores com um cartão onde escreverei “ Os Yankees roubaram um bocado da minha vida. Hijos de una puta madre!”

25 comentários:

  1. Talvez ainda se possa fazer alguma coisa...começar um abaixo-assinado, juntar todos os fans do café, iniciar uma guerra de e-mails contra a loja americana, etc.

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  2. pelos vistos a moda de fechar portas e nem aos empregados dar cavaco não é exclusivo de Portugal. Imagino a sua tristeza....

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  3. Comecei a ler o texto tão animada...faz assim, coloca o bilhete lá em Dezembro que eu leio, e assino embaixo em Janeiro, ok?

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  4. Os Yankees devem ter as costas muito largas, por serem culpados das desgaças do mundo.
    No entanto...toda a gente gosta do cinema, dos realizadores, e dos filmes yankees. Toda a gente aprecia a democracia yankee. Toda a gente gosta da comida de plástico yankee. Do estilo de vida yankee. Dos seus carros, da sua música, da literatura e dos seus escritores.Isto para não ir mais longe.
    Não haverá por aí no caro amigo um certo mau estar devido ao seu posicionamento da esquerda canhota?

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  5. Que isso nunca aconteça ao emblemático Majestic!

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  6. Tou de queixo caido.
    Estive em todos esses cafés em junho agora.
    Um pedaço da história indo embora... :((

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  7. Logo que não me tirem o Majestic, tudo bem!!!

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  8. Para o sr Carlos II
    Toda a gente é muita gente! Não me parece! Mas tem razão. Ora vamos lá contar: os vietnamitas, os iraquianos, os iranianos, (estes últimos também muiiiiito adorados por toda a gente)is chilenos, os argentinos, os portoriquenhos, etec,etc,etc. Tem razão, toda a gente os adora. Agora imitar só imitam alguns, tipo os bin ladens deste mundo, os iranianos, alguns iraquianos, os talibãs, i.e. todos a queles que consideram o Mundo sem guerra muito monótono e deprimente. Haja paciência. Desculpe caro CR, o texto não tem nada a ver com o seu post mas não suporto dependências destas em relação a países que não o nosso. Fazem-me lembrar os emigrantes que chegam a ´Portugal e só falam francês esquecendo-se que renegar a língua é tornar-se apátrida.

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  9. CARLOS, quando vi a foto pensei tratar-se da Confeitaria Colombo,na Rua do Ouvidor, no centro da Cidade do Rio de Janeiro.
    Tal qual voce descreveu os históricos cafés de Buenos Aires,assim é esta Confeitaria.Tem história e dá gosto ve-la tão preservada.

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  10. Compreendo perfeitamente a sua tristeza! Quando nos "roubam" locais que costumávamos frequentar é mesmo um pedaço de nós que desaparece...

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  11. Redonda:
    Acredito que os porteños não fiquem quietos, mas dificilmente conseguirão ter sucesso, porque o método utilizado faz-me crer que o negócio já estava fechado e agora vai ser impossível voltar atrás

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  12. Ariel:
    infelizmente, não é exclusivo nosso, não...

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  13. Turmalina:
    Em Janeiro ainda andarei por lá. Talvez possamos fazer a cerimónia em conjunto

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  14. Carlos II
    Por acaso, apesar de ter vivido nos States não gosto de comida de plástico, continuo a ser um francófono em termos musicais ( apesar de ser fã de Jaz e Blues, mas isso é música que tem pouco a ver com os Ynkees) e a preferir o cinema europeu ( como aliás já aqui relatei várias vezes), embora reconheça que há excelentes filmes americanos.
    Isto para já não falar do mito da democracia americana. Mas sobre isso já escrevi alguns posts... Mas, se continuar a passar por aqui, vai ter oportunidade de ler ainda mais algumas coisas que eu tenho a dizer sobre isso.E não é por ser de esquerda, acredite, porque muitos amigos com quem convivo e não são minimamente de esquerda, partilham da mesma opinião e manifestam os mesmos receios que eu já aqui tenho deixado expressos.
    Deculpe a extensão da reposta, meu caro.

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  15. Maria Sousa:
    Bem feitas as contas, os americanos têm mais inimigos do que amigos, na verdade. O problema é que nós, europeus, ainda não ultrapassámos alguns traumas do pós guerra e depois de termos sido colonizadoes em África, gostamos de ser colonizados pela cultura anglo-saxónica

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  16. Paloma
    Já estive várias vezes na confeitaria Colombo, de que também gosto muito.
    Aqui em Lisboa também havia uma belíssima confeitaria com esse nome, mas acabou em Mc Donalds!!!

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  17. Teté:
    E fica cá dentro uma dor que parece não mais acabar.

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  18. Também gosto imenso desse tipo de espaços ... com alma! Ao ler esta sua postagem invejo-lhe e presumo-lhe uma vida muito rica de experiencias e de histórias... (Que pena e que erro o encerramento de um café assim).

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  19. Atena:
    Felizmente não me posso queixar. Tive uma vida bastante preenchida que ainda poderia continuar a ser,não se desse o caso de ter de cuidar de uma senhora com 96 anos ( quase 97) que me trouxe a este mundo e gostaria de me ver menos inquieto.
    Cometem-se imensos crimes destes, um pouco por todo o mundo, infelizmente. Mas custa muito ver desaparecer lugares que fazem parte da nossa memória.

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  20. Carlos

    Foi minha terceira viagem a BA. AMO!
    Nesse viagem fui a locais que não havia ido ainda e adorei!!!
    E para nós está super barato.
    Ah e podendo conheça a"nossa" Colombo" como disse a Paloma.
    Beijo

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  21. Luz:
    como já disse à Paloma, conheço muito bem a Colombo, onde já estive várias vezes...

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