terça-feira, 9 de agosto de 2011

From London with love and anger



Como vos contei no domingo, assisti em directo ao eclodir da onda de violência em Tottenham. Deitei-me já ao alvorecer, esmagado pela surpresa, mas acreditando quese tratara de actos isolados e circunscritos àquela zona norte de Londres. Nunca me passou pela cabeça que a violência alastrasse de forma aparentemente incontrolável a outras zonas da cidade.

Muitos leitores sabem o que Londres significa para mim. Foi a primeira cidade estrangeira onde vivi, ponto de partida para a minha vida de andarilho. Nessa época era a capital do mundo, referência para qualquer jovem da minha idade, especialmente para os portugueses agrilhoados por uma ditadura abstrusa e que viam em Londres o paradigma da Liberdade.Compreenderão, por isso, que tenha passado as últimas noites grudado à Sky News e à BBC a assistir ao espectáculo que transformou Londres num cenário de guerra.

Enquanto vejo as imagens, faço uma viagem através do tempo e inevitavelmente paro na Londres da senhora Thatcher, quando o encanto se começou a esvanecer e deu lugar à decepção. O criminoso Blair da Terceira Via tem também boa quota parte de responsabilidades no desencanto que fui acumulando mas, ao ver as imagens de Londres saqueada e em chamas, não pude impedir que o olhar se toldasse perante o cenário dantesco e as memórias adormecidas de Londres ganhassem vida no meu cérebro.

Tenho, ao longo dos últimos dias, rebobinado as cenas felizes e tristes que vivi em Londres nos anos 70 e não resisto a fazer comparações .A verdade, é que há muito se percebia que Londres era um barril de pólvora que de um momento poderia explodir. Como aconteceu em Paris, embora com muito menos gravidade.

Não é difícil encontrar culpados. Têm nome e foram sucessivamente eleitos democraticamente: Thatcher, Blair e Cameron. O actual primeiro-ministro inglês, lídimo representante em terras de Sua Majestade, da direita liberal que aniquilou as esperanças de uma Europa mais solidária e mais justa, é apenas o responsável directo pelo eclodir da violência. Insensível, irresponsável, incompetente e aldrabão como o nosso Passo Coelho, criou com as suas medidas de contenção, que apenas afectam os mais desfavorecidos, as condições ideais para a revolta.Foi ele a fonte de ignição, ao acender o rastilho há muito ateado pelo aumento do desemprego, o desinvestimento na educação pública e na saúde.

Custa é acreditar que o líder de uma das maiores potências mundiais tenha continuado a gozar tranquilamente as suas férias em Itália e pedisse ao seu Paulo Portas que apaziguasse a situação.Ao terceiro dia, com a situação incontrolável, lá se dispôs a regressar a casa e ao trabalho. Certamente contrariado e sequioso de vingança sobre os putos, vândalos energúmenos que lhe perturbaram as merecidas férias.

Este post foi escrito com alguma mágoa e revolta. Bem diferente, do estado de espírito com que escrevi sobre uma das minhas últimas idas a Londres, em “Cidades da Minha Vida”.

8 comentários:

  1. Tal como o Carlos adoro Londres, é a cidade estrangeira em que mais vezes estive, o meu coração fica pequenino ao ouvir as notícias sobre o que por lá, e por outras cidades inglesas, se está a passar.
    Sinto que por cá talvez venhamos a ter uma situação idêntica, espero estar redondamente enganada.

    ResponderEliminar
  2. Infelizmente não conheço Londres mas as cenas que vi deixaram-me em choque!

    ResponderEliminar
  3. Cá vem o caro amigo a partidarizar e responsabilizar a direita liberal por estes acontecimentos, quando as esquerdas de poder têm exactamente as mesmas políticas, convertidas que estão aos princípios do liberalismo económico.

    O exemplo da governação de Sócrates, não foi um bom exemplo?

    Os acontecimentos de Londres não tem nada a ver com o seu modo de ver. Tem mais a ver com o fim das estruturas económicas até agora existentes e com o advento da globalização (liberalização dos mercados num capitalismo a nível planetário).

    ResponderEliminar
  4. São acontecimentos chocantes. Nem posso crer quando passam aquelas imagens.
    O Carlos fala das políticas conduzidas e certamente terá razão, mas eu recordo-me de um artigo que li há uns anos sobre o crescente vandalismo entre a juventude e a incapacidade dos ingleses adultos de lidarem com esta juventude que nem estuda, nem trabalha. Tal como aconteceu em Paris. Uma revolta de jovens desocupados, com proporções ainda por avaliar, e que nos devia fazer reflectir um pouco sobre o legado que estamos a deixar.

    ResponderEliminar
  5. O que causou esta violência já quase se perdeu na memória... e foi apenas há poucos dias. Agora são puros atos de vandalismo executados por “copycats”.

    ResponderEliminar
  6. Foi muito bom lê-lo assim,porque quando abri o computador hoje cedo e só tive tempo para ler as manchetes, não compreendi muito bem o que estava acontecendo.À noite,já em casa, poderei acompanhar melhor esta violência toda.

    ResponderEliminar
  7. Assisti, surpresa e não querendo acreditar no que via, no Jornal da TV, os acontecimentos em Londres.Isto não combina com toda a idéia que fazemos dos ingleses.

    ResponderEliminar
  8. «Não é difícil encontrar culpados. Têm nome e foram sucessivamente eleitos democraticamente: Thatcher, Blair e Cameron».

    «O actual primeiro-ministro inglês, lídimo representante em terras de Sua Majestade, da direita liberal que aniquilou as esperanças de uma Europa mais solidária e mais justa, é apenas o responsável directo pelo eclodir da violência».

    Não concordo que sejam eles os culpados ou pelo menos só eles.

    Creio que os grandes culpados disto são as gerações do pós-guerra, que governaram a Europa entre 1945 e 1980,(quer fossem democratas-cristãos ou sociais-democratas) e que saturadas da guerra e da penúria, criaram um modelo social, muito justo, muito humano, muito solidário, é verdade, mas que a médio, longo prazo era simplesmente impraticável, ou que no mínimo exigia recursos financeiros incomportáveis para qualquer país, por mais próspero que fosse.

    Actualmente todos os que tem mais de 65 anos tem reformas, mas estas gerações pensaram só nelas, nunca pensaram na sustentabilidade desse sistema num futuro em que a esperança de vida fosse maior e em que houvesse menos população jovem. Ou pensaram e estiveram-se a borrifar, porque queriam era as suas reformas e os jovens ou mais jovens que eles, que se «lixassem».

    Estes para mim é que são os grandes responsáveis por o sistema de segurança social europeu estar à beira da implosão. Com a agravante de condenar as gerações mais jovens, a um futuro de desemprego ou de emprego precário, mal pago e provavelmente sem reforma. Em resumo: A um futuro pior que o do seus pais.

    É por estas perspectivas de futuro que há tumultos em toda a parte, seja em Paris, Atenas (ontem), Londres (hoje) e que sabe em Lisboa (amanhã). É que ninguém quer «andar de cavalo para burro».

    Na minha óptica as gerações mais velhas é que condenaram a Europa a esta desgraça. E não em particular os políticos atrás referios.

    ResponderEliminar