sexta-feira, 8 de abril de 2011

Recordando Mário Viegas *

Estou sentado no Rochedo, computador aberto à minha frente, pronto a iniciar o trabalho que não me apetece fazer. Toca o telemóvel. Do outro lado alguém pergunta. Sabes que dia é hoje?
Não sabia…

A resposta- que não reproduzo- veio num tom de amuo.

Esclarecida a data, desligado o telemóvel depois de um pedido de desculpas, repousei o olhar no horizonte e aterrei em Bahia Blanca. Era lá que eu estava no dia 1 de Abril de 1996.

Quando nesse dia regressei ao hotel, tinha uma mensagem na recepção. Recebera um telefonema de Portugal e pediam-me que telefonasse com urgência ( em 1996 ainda não tinha telemóvel...) O telefonema era de uma jornalista amiga e pensei que se tratasse de uma encomenda de trabalho. Como naqueles tempos era um homem livre que vivia vagueando pelo hemisfério sul, alimentando o corpo e o espírito com trabalhos de circunstância, apressei-me a responder à chamada.

“ Tenho duas notícias para te dar. Uma é boa e outra má, vou começar pela boa. Ganhaste o prémio de jornalismo a que concorreste. Com a massa que vais receber, já sei que não vais regressar tão depressa!...”

-Quanto é?

-…

- Então fico por aqui pelo menos mais seis meses. Qual é a má notícia?

- Morreu o Mário Viegas...

Fiquei em silêncio por uns instantes. Depois quis saber pormenores da morte. Quando desliguei, “voei” até Macau onde o tinha visto pela última vez, num auditório repleto.Quando saí para jantar, não tinha fome. Devo ter trocado o “asado de tira”, ou o churrasco, por qualquer coisa mais leve mas, em memória do Mário, acompanhei a refeição com um belo tinto argentino. Se foi Lujan de Cuyo, Mendoza, Malbec, Chardonnay, Finca Anita ou Nicolas Zapata, não vos sei dizer, mas foi a minha forma de o homenagear.

* O episódio passou-se ao final da tarde de 1 de Abril, mas só hoje tive oportunidade de o passar a escrito.

10 comentários:

  1. Carlos
    O seu post de hoje fez sentir-me mal. Aquela sensação de que é preciso morrer para ser reconhecido e de tempos a tempos ser recordado. No meu caso nem disso me lembrei.
    O Mario Viegas, tanto nos conseguia fazer rir como chorar. Hoje fez-me chorar.
    Tempo lixado em que a atenção que nos obrigam a dar a outras coisas, fazem-nos esquecer, outras tão importantes.

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  2. Era simplesmente genial. Obrigada por o recordar qui.

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  3. O saudoso e genial Mário Viegas que foi meu colega no Liceu de Santarém!

    Abraço

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  4. Amigo Carlos, tenho saudades do Mário Viegas...
    Beijinhos e bom fim de semana.

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  5. Olá Carlos.
    Como já te disse, passo muito tempo no teu Rochedo. Leio, aprecio, recolho muita informação, mas nem sempre comento.
    Hoje, não podia deixar de o fazer.
    Para já, dar-te os parabéns ( com 15 anos de atraso) por esse Prémio de Jornalismo, merecidamente ganho.
    E, sobretudo, pela memória que trouxeste dessa força da Natureza que foi Mário Viegas.
    Grande declamador e homem de ideais fortes e convictos.
    Que pena a nossa memória colectiva ser tão curta...
    Beijinhos
    Janita

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  6. Meu Caro C arlos Barbosa de Oliveira,

    recordo especialmente três pequenas peças de Beckett que ele protagonizou no S. Luís, por me ter inicialmente parecido um Autor pouco compatível com o registo mais habitual de Mário Viegas.
    Hoje, à distância, crescentemente me apercebo da coerência e criatividade daquelas opções.

    Abraço

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  7. Um Declamador como não haverá mais nenhum.
    Lembro-me de ser novinha e dar um programa no Canal2, no qual ele declamava poesia, prosa.
    Outros tempos!

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  8. Bem lembrado! Que saudade deixa...em tantas frentes. Lembro-me especialmente do humor...original. :)

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  9. O tempo passa tão depressa! Mas é sempre bom recordar Mário Viegas... :)

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  10. Carlos
    Fiz link
    Deculpe "qualquer coisinha".

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