quinta-feira, 28 de abril de 2011

Onde está a esquerda?



Não consigo compreender a estratégia da esquerda portuguesa perante a crise e isso preocupa-me, porque me sinto um náufrago nas ondas encapeladas de uma democracia a fingir.

Depois de ter chumbado o PEC, invocando argumentos plausíveis, esperava que a esquerda me apresentasse uma alternativa credível, que me levasse a confiar-lhe o meu voto mas, em vez disso, senti-me traído com a recusa do BE e do PCP em dialogarem com o FMI.

As razões invocadas não são atendíveis. O mínimo que eu esperava, era que ambos os partidos fossem porta vozes dos eleitores que, como eu, votaram à esquerda, e transmitissem a sua indignação pelas medidas que o triunvirato de agiotas pretende impor aos trabalhadores portugueses. Ao recusarem o diálogo traíram a confiança que neles depositara, mas ainda me restava a esperança de uma saída airosa.

As últimas declarações de Louçã e Jerónimo de Sousa deixaram-me, no entanto, descoroçoado. Nem sequer põem a hipótese de o reforço da votação na esquerda ser utilizado para obrigar o PS a rever a sua política, porque recusam liminarmente um entendimento com o partido de Sócrates.

Ontem, Louçã dizia que votar no PS ou no PSD é a mesma coisa. Não é! Esta mania de meter no mesmo saco todos os partidos que se movem à sua direita é irresponsável. Apesar de tudo ( e Louçã sabe-o muito bem) votar no PS impedirá a concretização do modelo ultra-liberal e a destruição completa do Estado Social, objectivos almejados pelo PSD e CDS.

Tenho reflectido muito, nas últimas semanas, sobre o projecto da esquerda para Portugal. Sinceramente, ainda não consegui perceber qual é. Se recusam participar numa solução à esquerda, pedindo aos eleitores portugueses que lhes dêem força para obrigar o PS a negociar com eles; se os seus argumentos se limitam a criticar a política de direita; se abdicam da possibilidade de integrar um governo; se desistem de ir à luta… qual a razão para lhes dar novamente o meu voto? O grande ( e talvez único) desafio que se coloca aos portugueses, nas eleições de 5 de Junho, é evitar que uma coligação PSD/CDS assuma as rédeas do poder. Se isso acontecer, a esquerda não deixará de ser responsabilizada por ter contribuído para a vitória da direita.

Não sei se é culpa desta Primavera estival, mas sinto à minha volta um ambiente depressivo onde não há lugar à esperança. Que não haja espaço para a Utopia, ainda compreendo. Agora que seja a esquerda, com as suas atitudes erráticas, a roubar-me a esperança, é que me custa aceitar. Não vivemos um período propício à demagogia, nem ao voto de protesto. É fácil criticar, mas de nada valem as críticas, quando não se apresentam alternativas.

Temos de ser realistas e, o que pedia à esquerda, era que me apresentasse uma solução realista. Que me fizesse acreditar que votar à esquerda continua a ser um capital de esperança. Que não me deixasse órfão, obrigado a escolher entre o menos mau de dois padrastos. Em vez disso, a esquerda faz o discurso miserabilista do coitadinho e comporta-se como um qualquer outro partido que não só sabe que não será governo, como recusa sequer a colocar a hipótese de vir a ser.

Talvez por isso, enquanto reflicto sobre a actuação da esquerda, me vem constantemente à memória o conselho de Álvaro Cunhal na segunda volta das presidenciais de 1986. Não quero engolir um sapo, mas o voto no mal menor talvez seja, apesar de tudo, melhor do que entregar à direita, de mão beijada, as últimas conquistas de Abril.

Talvez os ares do Oriente me ajudem a reflectir e a tomar uma decisão.

14 comentários:

  1. Estou enclinada a concordar...tudo menos a direita liberal É que me parece que não estão a saber catalizar os Portugueses para aquilo que poderia ser uma grande oportunidade. Na última entrevista do jerónimo de Sousa, ele deu aquele exemplo paradigmático do homem que veio ter com ele e lhe disse que não sabia porque nunca tinha votado PCP, se era naquilo em que acreditava... e eu sei... é precisamente o meu caso... é que a alternativa não é credível. Porque a esquerda gosta mais de estar na oposição... perguntaram-lhe qual a diferença entre o Comunismo de outrem e o de hoje, e é precisamente aí, que perde eleitores... porque nunca responde directamente a essa pergunta e aí sim, ele poderia conquistar muitos portugueses indecisos ou desiludidos com o PS e mesmo de outros partidos. Mesmo o facto de não terem ido sequer à reunião com o FMI, não abona nada em favor da esquerda...

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  2. Aqui estamos complectamente de acordo, caro Carlos.
    Partidos que tanto defendem o não abstencionismo, o que é que eles fizeram se não isso ? Abstiveram-se, perdendo uma boa oportunidade de fazer valer as suas ideias !
    É caso para perguntar: se as medidas que vierem a ser tomadas e aceites por Portugal e se na hipótese "académica" de estes partidos virem a ser governo, como é que iriam "descalçar a bota" ?
    Assim é muito fácil fazer política, "PARA O POVO QUE NÃO ENTENDE", mas não para Portugal !
    Estes 2 partidos não têm "vocação" nem capacidade para governar, apenas para criticar,... e isso é a coisa mais fácil do mundo !
    .

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  3. Fartei-me que gente que não quer "sujar" as mãos. Já dei para esse peditório. Acabou. Agora piorou, porque o BE e o PCP disputam uma franja larga do mesmo eleitorado. Resultado, o BE tornou-se pior que o PCP, mais depressa voataria nestes do que naqueles. Não há paciência para estes dois que são incapazes de gerar confiança e esperança. È só protesto e mais protesto. Que saudades de Cunhal, não tinha complexos e sabia quando parar e como parar. o BE e PCP autolegitimam-se, são profundamente umbiguistas,passam a vida a falar em aprofundamento da democracia, quando a sua prática é profundamente anti-democrática, não vamos a lado nenhum com eles, aliàs como se viu nesta triste história da troika...
    Boa viagem e não deixe de dar notícias...

    :)))

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  4. Meu amigo:
    Faço minhas as suas palavras, porque me sinto exactamente assim.

    "Temos de ser realistas e, o que pedia à esquerda, era que me apresentasse uma solução realista. Que me fizesse acreditar que votar à esquerda continua a ser um capital de esperança. Que não me deixasse órfão, obrigado a escolher entre o menos mau de dois padrastos. "

    Estou completamente perdida por não ter onde me apoiar e por ver a direita a tomar as rédeas do poder.

    Bjs

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  5. Também eu estava à espera que fosse desta mas, pelos vistos, bem podemos esperar... sentados.

    Bjos

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  6. ESTOU COMPLETAMENTE DE ACORDO CONSIGO, MEU AMIGO!!!
    Uma óptima análise da situação.
    B R A V O !

    Afinal, Carlos, não estamos apenas unidos no azul e branco.

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  7. Eu acho que já não temos esquerda neste país. Muito me admirou o BE e o PCP não terem reunido com a "Troika" para defender os trabalhadores, os jovens e os velhos.
    A esperança vai mirrando como um fruto ao sol.

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  8. Plenamente de acordo.

    De regresso e já de abalada para o Dragão, voltarei com tempo para por as crónicas em dia.

    Abraço

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  9. ponto 1- Concordar ou não concordar com a recusa em aparecer para negociar parte de um pressuposto: A sinceridade colocada em se entrar em negociação. O CBO acredita nisso o PCP e BE não. Neste ponto ainda há lugar a uma nuance: Mesmo sabendo que não há por parte da Troika grande flexibilidade, esses partidos deveriam mostrar estarem dispostos a isso. Ora não é novidade que as "jogadas para a bancada" (podia dizer eleitoralistas) nunca foram o forte do PCP;
    Ponto 2 - O PCP tem propostas (julgo que as conheçe). Uma delas, reestruturação da dívida - e não o seu resgate - foi inicialmente tida como irrealista mas hoje já se vem colocando como alternativa (muito tardia) quer para a Grécia quer para a Irlanda, onde as medidas "impostas" pela troika não estão a resultar. E se o PCP, aponta este caminho seria incoerente ir negociar dentro do outro caminho (o resgate)
    3º - Cada vez é mais evidente que o que está a acontecer é um ataque à Europa, escolhendo-se as partes mais débeis e volneráveis (a Espanha será a próxima vitima). A resposta só me parece poder ser encontrada com posições fora do paradigma que está a ser imposto...
    4º - Os riscos do PSD e CDS irem para o poder são efectivos. Mas a unidade da esquerda não se faz com posições de silênciamento sobre as estratégias de Mário Soares e Cavaco Silva, para pressionarem uma solução PSD+PS+CDS. Aliás estou cada vez mais convencido que será o resultado das danças e andanças...

    Sair do paradigma do quadrado, desde já a pensar...

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  10. No fundo o que vejo aqui na caixa de comentários, com a excepção de Rogério Pereira, é a mesmíssima desculpa utilizada desde há 37 para votarem nos três partidos, PS, PSD e CDS, que colocaram o país no estado em que está. Sempre foi assim, desculpas esfarrapadas. "Ah e tal que saudades de Álvaro Cunhal...", mas quem isso afirma alguma vez votou nele? Deixem-se de tretas.

    As alternativas foram apresentadas, as propostas igualmente, o problema é que teriam que romper com o status quo instalado e a isso não estão dispostos.

    Sentar-se ou não à mesa com o FMI é mera desculpa, a última tábua deste naufrágio a que se agarram.

    Por mim desejo essa organização bem longe do meu país, quanto mais sentar-me à mesa com ela...

    Daqui a dez anos estarei a ouvir as mesma desculpas e o país na valeta. É tempo de as pessoas assumirem também as suas responsabilidades por terem eleito repetidamente semelhantes trastes, a teoria do mal menor há muito que deixou de se aguentar de pé.

    Como é que se entende que depois do que aconteceu nos últimos anos o PS continue a eleger José Sócrates com 95% de votos e o perfile de novo para primeiro-ministro? Depois a culpa é do BE e do PC? Valha-me Deus...

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  11. Lamentavelmente, tenho de concordar: a esquerda demite-se de ser uma oposição coesa e frontal. Não só por não ter participado nessa reunião com a troika (admitindo-se a maneira de ver que o Rogério tão bem explicou), como também por nem sequer tentar entabular conversações entre os dois partidos e outras forças de esquerda, com vista a apresentar uma solução para a crise e para o futuro do país. Só criticar não leva a nada, é apenas o caminho mais fácil, mas também denota uma enorme irresponsabilidade.

    Ah e porque é que não conversam e se unem? Pois, coisas do tempo da maria cachucha, de uns que foram expulsos ou passaram de um partido para o outro e outras raivinhas do género! Quando acordarem dessa sesta de meninos da infantil, talvez seja tarde... :P

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  12. Só para responder ali ao Salvoconduto que tenha calma porque não me conhece de lado nenhum e que não lhe admito que referindo-se ao meu comentário (só eu falei no Cunhal) dizer que são as mesmas tretas e quejandos. Tretas são as dele vir a casa alheia sem educação tratar sobranceiramente quem não conhece. Eu não lhe devo explicações, mas sim votei durante mais de vinte anos no PCP. O Salvoconduto que vá dar lições lá para casa dele.
    Desculpe Carlos, o desabafo.

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  13. Permita-me Carlos, apenas esta vez, utilizar a caixa de comentário para dizer à Ariel que é livre de me responder, de me contestar directamente, gosto do confronto de ideias, menos chamar-me mal-educado, não vá por aí minha cara, sabe bem que não há necessidade.

    Grato.

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  14. Apenas sobre a questão "negociar/dialogar" com as forças ocupantes da "troika"- o restante, sobre o PCP e a outra "esquerda" institucionalizada, dava-nos pano para mangas... - saberão acaso (o autor do post e os autores dos comentários imediatos) o que afirmou o ministro demissionário Pereira da Silva àcerca, quando dava conhecimento da situação das "negociações" à delegação do PCP? Para o caso de o não saberem, aqui se deixam as suas palavras: "Chamarmos a isto negociações, é um eufemismo..."
    Se ele próprio o diz...
    Saudações democráticas, e de esquerda!

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