segunda-feira, 28 de março de 2011

Mulheres do Mundo (9)

Mercedes Sosa


Nasceu em 1935 em Tucuman, a província mais pobre da Argentina. Filha de trabalhadores rurais, teve uma infância modesta mas sem problemas e aos 15 anos venceu um concurso de rádio local, cujo prémio era um contrato para actuar durante dois meses em estúdio.Apaixonada pela dança e pela canção popular, Mercedes Sosa recebeu influências de Atahualpa Yupanqui, o maior divulgador da música folclórica argentina, que aos 10 anos foi viver para Tucuman. Tornou-se, assim, uma das primeiras vozes a integrar o Movimento Novo Cancioneiro, nascido na região andina do Cuyo, na província de Mendoza, cujo objectivo era recuperar o folclore local. Só em 1965, depois de participar num festival de folclore, Mercedes Sosa obtém o reconhecimento de toda a Argentina. Devido à sua longa e farta cabeleira preta, passa a ser conhecida como ”A Negra”.

Quando faz a sua primeira tournée pela Europa, em 1967, a sua voz, a postura e a mensagem ideológica que traz nas suas canções contribui para que rapidamente seja comparada a Violeta Parra, a quem mais tarde dedicará um disco com interpretações de temas da popular cantora chilena.Durante o seu périplo europeu actuou em Lisboa e Porto. Os censores desconheciam o envolvimento político de Mercedes Sosa, pelo que não levantaram obstáculos à realização dos concertos. Não deixa de ser curioso, porém, que na mesma altura exercessem forte vigilância sobre Zeca Afonso, Fausto ou José Mário Branco e proibissem os discos de Luís Cília, então exilado em Paris...

A forte componente contestatária das canções de Mercedes Sosa não agradou à ditadura argentina e, em 1979, quando dava um concerto na cidade universitária de La Plata, foi detida e proibida de cantar na Argentina. Os seus discos desapareceram das discotecas mas, em algumas livrarias e locais de tertúlia da Av Corrientes, vendiam-se clandestinamente cópias compradas na Europa.

Exilou-se em Paris, tendo a sua primeira actuação europeia sido em Lisboa, na Festa do Avante. Quando regressa à Argentina - um mês antes do início da Guerra das Malvinas, que representou o início da agonia da ditadura - Mercedes Sosa já é uma figura popular em toda a América Latina. As suas canções – onde critica o consumismo, as desigualdades sociais e a opressão dos povos pelas ditaduras- a sua cabeleira negra e o seu inseparável poncho eram símbolos dos jovens latino-americanos.

Voz da resistência e da revolta , era também um símbolo dos jovens europeus, surgindo sempre o seu nome, a par de Violeta Parra e Victor Jara, como um dos mais importantes da música sul-americana.Intervirá na política até à morte. Nos anos 90 declara-se uma feroz opositora de Carlos Menem, o presidente argentino que conduziria o país, em 2001, ao maior desastre financeiro da história do pais das Pampas, conhecido como Corralito.

Com a queda de Menem apoia Nestor e Cristina Kirchner .Entre um vasto rol de distinções que lhe foram atribuídas um pouco por todo o mundo, destacam-se a francesa “Ordem da Comenda das Artes e Letras” , o prémio de Música da UNESCO, como reconhecimento da importância da sua música na aproximação entre os povos e o Prémio UNIFEM, que sublinha a sua luta em defesa dos direitos das mulheres.

A sua discografia é vastíssima e cheia de sucessos celebrados no mundo inteiro, tendo gravado e actuado em concertos nas mais prestigiadas salas de todos os continentes, a solo ou ao lado de alguns dos nomes mais sonantes da música latino-americana ( Fito Paez, Milton Nascimento, Pablo Milanés ,Chico Buarque…), mas também da música internacional, como Sting, Pavarotti, Shakira ou Joan Baez .

No ano 2000 realiza um dos seus maiores sonhos: interpretar a obra suprema do folclore argentino: “Misa Criolla”. Pouco depois a saúde impede a sua aparição em público, só voltando a actuar em 2005. Continuou a dar concertos por todo o mundo até pouco antes da sua morte, a 4 de Outubro de 2009. Curiosamente, o dia de aniversário de Violeta Parra.

5 comentários:

  1. Mercedes Sosa tornou-se para a Esquerda alemã um mito.
    A minha amiga Christa ainda hoje me leva a mal por eu gostar muito mais de ouvir uma ópera de Wagner do que ouvir cantar esta cantora argentina.

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  2. Conhecia a cantora e algumas das suas músicas, não sabia de todo este longo percurso político. Há mulheres com muita garra! :)

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  3. Tive a sorte de ouvir essa senhora ao vivo na Aula Magna da Universidade Central de Venezuela em Caracas. Já passaram uns 25 anos mas ainda hoje me arrepio ao recordar as sensações de uma noite mágica.

    Há momentos que nos marcam para a vida.. este foi um deles.

    Jorge Soares

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  4. Sabes porque é que gosto tanto de vir aqui ao teu "estaminé"?
    Porque aprendo sempre qualquer coisa!!

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