quarta-feira, 9 de março de 2011

Mulheres do mundo (4)

Henrietta Lacks
(1920-1951)
Muitos nunca terão ouvido falar desta mulher negra, quase analfabeta, a quem a morte ( ou melhor, a imortalidade…) transformou num dos nomes mais importantes da medicina.
Nascida na Virgínia, filha de escravos, foi viver com o marido, em 1941, para os arredores de Baltimore, onde teve cinco filhos.
Em Janeiro de 1951 começou a queixar-se de dores na barriga , mas recusava-se a ir ao médico. O único hospital que tratava pobres e negros gratuitamente ficava em Baltimore, a mais de 30 quilómetros da sua casa mas, no dia 4 de Fevereiro , as dores eram tão insuportáveis que acedeu a que o marido a levasse a uma consulta.Foi-lhe diagnosticado um cancro no colo do útero e os médicos, sem lhe pedirem autorização, recolheram tecidos para estudo. Nas provetas de recolha , ficou inscrita como He La. Mais tarde ou mais cedo, depois de algumas experiências in vitro, as células morreriam, como sempre acontecia.
Só que...as células cancerígenas de Henrietta Lacks não morreram! Pelo contrário, ao fim de 24 horas tinham duplicado e continu(ar)am a multiplicar-se ao mesmo ritmo.A notícia empolgou a comunidade científica e, quando Henrietta Lacks morreu, em Outubro de 1951, praticamente todas as células do seu corpo foram entregues a laboratórios em todo o mundo.
A imortalidade das células He La tem permitido uma fantástica evolução da medicina. Foram utilizadas para produzir uma vacina contra a poliomielite.( Milhões de crianças de todo o mundo trazem hoje em dia, dentro de si, um bocadinho de Henrietta Lacks, que lhes foi depositado na língua, com duas simples gotas).
Viajaram até ao espaço, para serem submetidas a experiências sob gravidade zero; são utilizadas na pesquisa de tratamentos cancerígenos e da SIDA ; serviram de base à maioria dos progressos científicos da segunda metade do século XX e, hoje em dia, especula-se sobre a possibilidade de, através do seu estudo, se conseguir a imortalidade das nossas células.
Até meados dos anos 90, do século passado, não se conhecia a identidade das células He La. Os médicos não queriam divulgar o nome de Henrietta Lacks, pelo facto de não terem obtido consentimento para a recolha dos tecidos. Acresce que, apesar do inestimável contributo da mãe, para a Humanidade, os filhos nem sequer tinham direito a um seguro de saúde...
Hoje, a história da vida desta mulher negra, baptizada como Loretta Pleasant e que ninguém sabe explicar como se passou a chamar Henrietta Lacks, é conhecida em quase todo o mundo graças a uma medíocre estudante de Biologia que, durante uma aula, viu a sua fotografia e decidiu investigar a sua vida. O resultado é um livro magnífico “ The Immortal Life of Henrietta Lacks” da autoria de Rebecca Skoot, escritora e jornalista freelancer, que me serviu de base para escrever este post.
O livro já está disponível em Portugal ( apenas em versão inglesa) mas a versão portuguesa deverá chegar às livrarias em Abril. Boa notícia: já se encontra à venda na Net (Companhia das Letras) e o primeiro capítulo, para aguçar o apetite, aqui fica o link…
E se quiserem, divulguem, porque não é apenas um livro belíssimo sobre a história de uma família negra a quem foi negada a verdade ... é também um excelente trabalho que honra o jornalismo.

7 comentários:

  1. Henrietta, estória triste mas são as das mulheres do mundo. Boa noticia o livro ser publicado em português. Obrigado Carlos por mais esta partilha.
    Abraço

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  2. Vou comprar. Esta série é excelente, e que eu conheça, única na lusa blogosfera. Que alguem se lembre "delas" é mérito exclusivo do autor.

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  3. Muito bem, Carlos. Mais uma lição. E associo-me às "comadres" que me antecederam nos elogios a esta série, Blonde e Ariel.

    :)))

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  4. Não conhecia a mulher, nem de nome. Fico a aguardar o livro em versão portuguesa, obrigada pela dica! :)

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  5. Já tinha ouvido parte da sua história, mas só parte (o não lhe terem pedido autorização para lhe retirarem e utilizarem as suas células)

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  6. Olha quanta coisa nesse mundo que a gente não fica sabendo...até agora.
    Vou compartilhá-la, inclusive no FB.

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