sexta-feira, 25 de março de 2011

Menina de aluguer (rewind)


Aos cinco anos, Laura conheceu pela primeira vez o significado da palavra "desemprego".Com apenas dois, os pais alugavam-na diariamente a uma vizinha que a utilizava como chamariz para pedir esmola junto de pessoas condoídas.
"Beliscava-me para eu chorar e às vezes batia-me até ficar negra, para que as pessoas sentissem pena"- explica sem grande ressentimento.
Um dia, três anos mais tarde, Laura foi devolvida aos seus progenitores por alegadamente estar excessivamente pesada e já não despertar "sentimentos de caridade".
No dia em que deixou de ser "menina de aluguer", Laura foi sovada com chicote pelo pai que a acusava de comer demasiados doces que os clientes de uma pastelaria das Avenidas Novas frequentemente lhe ofereciam.Meses mais tarde, carregando com a culpa de "não servir para nada e ter sido despedida", Laura entrou para uma escola primária na zona do Lumiar.
Desses tempos, recorda uma professora bondosa e de olhar sereno que constantemente a acarinhava e incitava a estudar "para ser uma grande mulher", mas o sentimento de culpa não a largava e Laura, mal terminadas as aulas, ia expiar as suas culpas vendendo "pensos rápidos" aos automobilistas que passavam na zona do Campo Grande.Laura repartia o seu tempo entre as filas de trânsito e a escola. E assim foi crescendo, alheia ao mundo que a rodeava, emoldurado de crianças iguais a ela, brincando com "Barbies", sem direito ao sonho de um dia casar de grinalda e flor de laranjeira com o "Ken" do conto de fadas da sua imaginação.
"Menina de aluguer" nasceu... também assim cresceu!
A Laura que hoje está diante de mim, sentada à mesa de um "bar americano", tem 19 anos e uma filha de apenas dois, para quem reserva os melhores momentos. No ecrã de uma televisão distante, desfilam figuras de telenovela às quais não se pode equiparar, mas que nela despertam as recordações dos tempos em que o pai e um tio a perseguiam à compita, atraídos pelo despertar de um corpo "de cobiça". Por trás de um verde olhar mesclado de tristeza, esconde-se ainda uma esperança no futuro com que sonhou no dia em que, incapaz de suportar as disputas familiares e já apaixonada pelo Marco, a ele se entregou , em troca de promessas de "Liberdade". Foi esse o dia da partida (tinha então apenas16 anos) para um destino incerto que "quis o acaso" a conduziu ao mesmo bar onde hoje, em troca de uma garrafa de espumante, me conta a sua ainda curta vida. Vida povoada de sonhos, onde cabe ainda a força para terminar o 11º ano e arrostar com as dificuldades de uma licenciatura como assistente social "porque não quero mais ver crianças a sofrer como eu sofri".
Dos tempos repartidos entre o Campo Grande e a escola, passou a tempos divididos entre o aconchego a clientes da noite e o prazer de "viajar" na companhia dos livros que a acompanham até ao local de trabalho. "Sabe, a vida da noite não está fácil e muitas vezes, como não há clientes, aproveito o tempo para estudar ou para ler".O patrão, caso raro, também se mostra compreensivo . Perante a força indómita de Laura e a sua "fúria de aprender", quando a noite "está mais fraca" lá a manda para casa, para os braços do seu Marco,onde desfruta de alguns momentos de ternura partilhados com Daniela, a filha de um momento de liberdade.

11 comentários:

  1. Carlos
    Esta estória de vida e de vontade de vencer, recordou-me uma canção que já não ouvia há muito.
    Amélia dos olhos doces de Carlos Mendes.
    Está no "folha seca"

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  2. E tantas meninas Marias vendidas e mal tratadas.
    As verdadeiras vencem na vida e ninguém as poderá travar.

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  3. Tenho cá um pressentimento que esta grande Mulher não participou na manifestação dos deolindos.

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  4. Carlos
    Tem selinho no meu cantinho.

    Pois eu acho que anda muita Maria por aí, talvez mais do que se imagina.
    Abraço bom fim de semana

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  5. Que a Laura consiga sair do ciclo da miséria!

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  6. O meu amigo consegue sempre me comover com estes seus textos, e não é por os saber reais é pela maneira intensa e sensível como os descreve.

    Bjos e bom fim de semana

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  7. POr vezes, os ciclos geracionais conseguem interromper-se e os padrões familiares não se repetem ciclicamente. Mas é raro... quando acontece, deve ser-lhe dado o devido valor.

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  8. ... uma lágrima enevoou-me a leitura...

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  9. É demasiado mau para ser verdade, e no entanto é apenas uma das muito duras realidades de vida...

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  10. Há pessoas que parece que nasceram para sofrer. Vale que a moça tem garra e ainda sonha com um futuro mais risonho. Mas uma infância tão infeliz ninguém lhe tira...

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