sexta-feira, 18 de março de 2011

Às vezes chegam cartas...


Arnaldo Pinheiro ( nome fictício) começou a trabalhar em 1971, com 22 anos, no departamento gráfico de um jornal de referência. Os tempos que se seguiram ao 25 de Abril ameaçavam o posto de trabalho no jornal e em 1979 arranjou emprego nos serviços de reprografia de um organismo do Estado.

“Ponderei a situação com a minha mulher que era funcionária pública e pensei: isto está mau, não sei se me aguento por aqui e a função pública é um emprego para a vida. Vou ganhar menos, mas tenho a garantia de um ordenado ao fim do mês. E os dois ordenados juntos permitem enfrentar o futuro com mais segurança”.
Com medo que Arnaldo mudasse de opinião, Palmira ( a mulher) fez questão de lhe lembrar que trabalhando no Estado até se poderia reformar mais cedo.
Antes dos 60 estamos cá fora e podemos ir gozar a reforma para a nossa terra”- lembrou-lhe repetidas vezes.
Arnaldo confessa que o reparo da mulher foi decisivo na sua decisão e que rapidamente abençoou a troca. “ Havia falta de pessoas com experiência na área da impressão e como trazia muita tarimba do jornal, tinha conhecimentos de “design” e jeito para escrever, estava sempre a ser chamado para ajudar a tomar decisões. Fazíamos muitas publicações e pude montar mesmo um pequeno parque gráfico, com máquinas modernas. Ficava todos os dias a trabalhar quando já todos tinham saído e muitas vezes ia trabalhar aos fins de semana, o que me dava um suplemento em horas extraordinárias, muito agradável.”.
Embora não tivesse as habilitações necessárias, Arnaldo foi nomeado Director do Serviço de Informação, ao abrigo de uma legislação na altura em vigor. “ Foram os melhores anos da minha vida. Trabalhava muito, mas consegui com a minha mulher juntar o suficiente para, em 1983 nos abalançarmos a contrair um empréstimo e trocar um T2 na Póvoa de Santo Adrião, por um T3 no Lumiar”.
Olhando para trás, Arnaldo lamenta ter deixado o curso a meio. Se o tivesse concluído, talvez não estivesse a viver momentos de angústia que lhe tiram o sono, o apetite e até a alegria de viver. Os tempos mudaram. Com as novas tecnologias, muitos dos serviços do Estado abandonaram a informação impressa e passaram a fazê-la apenas on line. Entretanto, Arnaldo foi substituído em 1998 e voltou ao seu lugar de operador de reprografia, o que significou um enorme rombo financeiro. Pretendeu frequentar vários cursos de formação que o habilitassem a trabalhar com as novas tecnologias, mas foi sempre preterido por funcionários mais jovens e com mais habilitações que iam entrando para o serviço. Os meses foram ficando mais longos e os vencimentos mais curtos. É certo que o filho já não é encargo. Completou o ensino secundário e emigrou para o Canadá, mas o empréstimo da casa tem de ser pago todos os meses, porque o banco não perdoa. Palmira, funcionária administrativa, foi colocada na mobilidade especial e passados dois meses estava a ganhar pouco mais do que o ordenado mínimo.
O mais grave, é que no dia em que recebeu a carta teve um acidente cardiovascular e o seu estado de saúde requer tratamentos dispendiosos. Arnaldo não disfarça a sua preocupação. “Estou à espera de receber a carta um dia destes. Na verdade, até tenho que reconhecer que é justo que me mandem embora, porque já quase não tenho trabalho. Mas há uma coisa que me revolta... Quando entrei para a Função Pública pensei que me poderia reformar aos 58 anos, que faço daqui a um mês. Agora, ao fim de 27 anos de função pública e nove no sector privado, parece que só me posso reformar aos 64 ou 65 e até lá vou receber dois terços do vencimento. Acho que não é justo! Como é que vou conseguir pagar as prestações da casa?”.
( Último artigo da reportagem que fiz para a revista "Dirigir" sob o título: "Desemprego depois dos 50: vidas cheias de nada?")

4 comentários:

  1. Situações sempre tão complicadas... nunca pensamos que nos possa bater à porta, e melhor é mesmo que não aconteça!

    Um abraço

    ResponderEliminar
  2. Lembro quando vi pela primeira vez que o publicou aquele post desta série «uma vida sobre rodas». Talvez pela imagem que lá vem de um camião tombado. Um amigo pessoal, camionista morreu assim, ao rebentar um pneu dianteiro esquerdo. Antes de Abrantes, o separador central serrou-lhe a cabine e nem do corpo a mulher e os dois filhos tiveram um último olhar; ficou serrado e pulverizado no meio dos destroços. Foi uma daquelas vítimas da construção do portugal de sucesso, um camionista Tir que apenas transportava bens de e para a Europa. Que convém ser ignorado, porque a haver sucesso, ele se deve sempre a economistas e seus lampejos de génio.

    Tenho visto esta sua série de posts com o espectro presente de uma página de Soljenitsine (p. 561 da primeira ed. portuguesa do Gulag) do sub-capítulo «A traição como forma de vida». A direita portuguesa que gosta de Soljenitsine como forma de atacar a esquerda, ignora-a. Compreende-se. Soljenitsine fala aí não de um mal feito directamente (i.e., uma violência directa sobre semelhantes) mas de um mal mais difuso que consistia em abandonar aqueles que estavam perdidos. E desse abandono, dessa traição, a direita gosta, e aprova, e não a cita.

    Vejo que vc não participa deste mal que é nosso - como foi da sociedade soviética - ou de outras sociedades desumanizadas. Esta é uma série de posts magníficos, que encarnam verdadeiramente - mais que os costumeiros malabarismos de eufemística - um verdadeiro espírito de cultura humanista. Sabemos que os fez no âmbito de actividade profissional; mas aqui é diferente, é o seu julgamento de que estas histórias pessoais devem ser divulgadas, que esta gente e as suas histórias não devem ser votadas ao abandono.

    Não queria ser o primeiro a agradecê-los, mas alguém tem que começar...

    ResponderEliminar
  3. Os dramas reais que os nossos governantes ignoram olimpicamente, na sua desbragada subserviência aos interesses dos seus patrões...
    Estória pungente,e é importante saber que estes casos existem, Carlos!

    ResponderEliminar
  4. A informática e as novas tecnologias vieram a tornar desnecessário e até obsoleto o trabalho de alguns, mas, especialmente no Estado, as coisas deveriam ser tratadas de outra forma, em vez de colocarem os funcionários na prateleira. Pior ainda acho darem-lhe um cargo para o qual não tinha habilitações literárias (são necessárias quando se tem experiência prática de tantos anos?!), para depois o substituirem por outro qualquer - nem sabia que era possível! Ainda por cima com diminuição do ordenado?!

    Histórias de vida complicadas, muito bem contadas nestes artigos! Parabéns! :)

    ResponderEliminar