quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O futuro não pode ser hipotecado aos 50

Terá havido quem interpretasse a letra da canção dos DEMOlinda, que aqui publiquei ontem, como um ataque à canção dos Deolinda e, principalmente, aos jovens. Nada de mais errado. Pertenço a uma geração que sabia, desde tenra idade, que o seu futuro estava traçado: bater com os costados em África, protagonista contrariado, ou conformado, de uma guerra infame e inútil.
Sabia, desde os tempos do liceu, que se chumbasse mais do que um ano, em todo o percurso académico de 16 anos ( quatro de primária, mais sete de liceu, mais cinco de Universidade) seria obrigado a abandonar os estudos para “servir a Pátria”. A única alternativa a esta condenação era fugir do país, sem possibilidades de cá voltar a entrar, sob pena de ser preso e enviado logo de seguida para o serviço militar em condições ainda mais adversas e a certeza de que ao fim de seis meses seria mobilizado para um teatro de guerra.
Convenhamos que este pormenor seria suficiente para perceber que os jovens da minha geração não tinham uma vida fácil pois, mesmo esforçando-se nos estudos, corriam o risco de nunca poder exercer a sua profissão, porque quem ia para África, nunca sabia se regressaria de lá com vida.
Acresce que, no meu tempo, não havia Erasmus, nem Bolonhas, nem grandes possibilidades de ir trabalhar para o estrangeiro legalmente. Não havia linhas de crédito especial , nem programas de financiamento a fundo perdido para jovens que quisessem criar o seu próprio negócio. Não havia as fábricas das jotinhas partidárias, agências de emprego isentas de pagamento de impostos, onde alguns vão construindo o seu futuro sem conhecerem, minimamente, a realidade do país.
Muito poucos eram, no meu tempo, os que podiam dar-se ao luxo de entrar numa Universidade, porque o primeiro obstáculo com que se enfrentavam, era a dificuldade de os pais suportarem os custos dos estudos.Sou de uma geração onde só havia Universidades em Lisboa, Porto e Coimbra. E mesmo assim, como quis seguir Direito, tive de abandonar o Porto aos 17 anos, porque só havia Faculdade de Direito em Lisboa e Coimbra. Só o pude fazer porque os meus pais tinham, felizmente, um conforto financeiro que lhes permitiu dar condições aos filhos para estudar. Aos rapazes, porque à minha irmã mais velha- e à maioria das jovens portuguesas nascidas nas décadas de 30 e 40- esse direito estava socialmente limitado.
Poderia prosseguir este post com uma lenga-lenga de comparações entre as condições de vida dos jovens do meu tempo e a dos jovens de hoje, tentando demonstrar que as possibilidades que se abriam aos jovens do meu tempo eram muito mais reduzidas do que as dos jovens de hoje. Mas não vou por aí, por uma razão simples. O que eu pretendi, com a letra dos DEMOlinda, não foi menosprezar os problemas dos jovens, mas sim chamar a atenção para o desprezo com que é encarada a situação dramática de um conjunto de portugueses que, tendo perdido os seus empregos depois dos 45/50 anos, não têm quaisquer perspectivas de futuro.
Tive a felicidade de viver em nove distritos do país, o que me permitiu conhecer bem a realidade fora de Lisboa. Ainda hoje o meu trabalho me permite vaguear constantemente pelo país, o que me confere a possibilidade de conviver com os dramas de famílias do interior, em que pai e mãe se viram de um dia para o outro no desemprego, sem direito a indemnizações, com o futuro arruinado. Um dia dirigiram-se ao seu habitual posto de trabalho e encontraram as portas fechadas a cadeado e um letreiro a dizer que a fábrica tinha fechado. Máquinas e patrões entretanto, tinham desaparecido para parte incerta.
São estes portugueses, considerados demasiado velhos para arranjar novos empregos e ainda novos para terem direito à reforma, os grandes sacrificados com a crise e foi para eles que pretendi chamar a vossa atenção. Ninguém lhes liga. Nem a comunicação social, nem o governo, nem a opinião pública. Não é com cursos de requalificação profissional que o problema se resolve. Quando muito, adia-se por uns meses.
Uma grande percentagem de desempregados aos 45/50 anos tem, como quase certeza, tornar-se um desempregado para o resto da vida. É importante que nos preocupemos com o desemprego dos jovens, ou as condições de trabalho precárias que o mercado lhes oferece. Mas que país é este que enjeita, com um mero encolher de ombros, o exército de desempregados que dificilmente voltarão a ter oportunidade de trabalhar?
Que raio de sociedade é esta que passa os dias a carpir os jovens à procura do primeiro emprego ( que tantas vezes se recusam a ir à luta, porque é muito mais cómodo ficar em casa dos pais com cama mesa e roupa lavada) a quem, apesar de tudo, é dado um leque variado de oportunidades para trabalhar, e se esquece que há milhares de pessoas que, estando na pujança da vida profissional, não têm esperança no futuro?
Foi para eles que escrevi a “canção” de ontem e é para eles que vou começar a republicar um conjunto de histórias verídicas de que são protagonistas e que recolhi para uns artigos publicados em revistas. Esta gente não pode ser carne para canhão. Tem direito a ser lembrada e nós, velhos e novos, temos obrigação de a apoiar. Um desempregado aos 45/50 anos, não pode ficar à espera de um futuro cheio de nada!

13 comentários:

  1. Será bom que pessoas de várias faixas etárias possam ser este texto que tive muito prazer em ler. Good job, Carlos! : )

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  2. Aos desempregados de 45/50 ninguém liga nem vai ligar, Carlos. Estão condenados. E os sindicatos, como se sabe, ocupam-se dos empregados e não dos desemprgados. Os jovens "Deolindas", foram criados na convicção de que "não têm de aceitar qualquer coisa", a grande maioria não se faz à vida, e a culpa não é só deles, é também e muito dos paizinhos que acham que é uma vergonha os meninos ou meninas sujeitarem-se a determinados trabalhos... enfim, é um circulo vicioso.

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  3. Carlos
    Como há muito nos habituou, um post do mais alto nível. Creio que a unica palavra a acrescentar é. aprofunde se possível...

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  4. Concordo que é dramático ficar desempregado na meia idade, sem grandes hipóteses de arranjar novo emprego e ainda longe da idade da reforma.

    Mas não deixa de ser igualmente dramático andar a estudar, para depois ficar em casa dos pais, após uns estágios com ou sem (má) remuneração temporários, para depois dar a vez ao próximo, sem oportunidade de começar a contruir uma vida própria - independente ou a dois!

    Ou seja, o que estes patrões e governantes fazem, é hipotecar o futuro de TODOS! Excepto o deles e comparsas, está claro...

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  5. Este, sim, um texto que merece ser cantado por toda a parte!
    Não generalizo, mas se quisermos encontrar a juventude que se revê na canção dos Deolinda, avistá-la-emos, bem aburguesada, nos cafés, nas discotecas, nas noitadas, nos concertos, nos saldos dos shoppings, e, por aí fora de popó e telemóvel na mão, que os pais lá estão…
    Muito mais haveria para dizer, mas fico por aqui.
    Disse não generalizo porque nem toda assim é, felizmente!

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  6. Carlos
    Este é um post que muitos dos jovens deveriam ler e reler, mesmo assim não sei se iriam perceber, porque infelizmente existem algumas gerações que lhes foi oferecido tudo ou quase de bandeija e criaram uma ideia completamente errada da realidade, eu não falo de côr, falo por exemplos muito próximos de mim. Também eu brevemente irei fazer parte dos desempregados com os 50 e poucos e a trabalhar desde os 13, porque faço parte das raparigas que o Carlos refer não terem tido oportuanidade de estudar, ou iam servir (termo usado na altura)ou iam trabalhar.
    Abraço

    P.S. Carlos não tem que pedir desculpa pela minha emoção, foi a realidade dita pelo Carlos que o fez.

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  7. Uma opinião bastante oportuna independentemente dos tempos que atravessamos. Deve ser frustante as pessoas sentirem-se postas de lado com 40/50 anos, quando se está no apogeu da vida...querermos trabalhar e não haver trabalho...

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  8. Carlos percebi a tua mensagem e concordo quando dizes que a nossa vida foi mais difícil e foi. Eu se tenho uma licenciatura tive que trabalhar para a poder pagar porque os meus pais, retornados, não tinham nada. Nunca aceitei as facilidades que nos foram proporcionando, como créditos para casa e afins, aprendi a fazer contas e a prever o imprevisto mas, nem todos fizeram como eu. Há, portanto muita gente desempregada, com dividas às costas e sem oportunidade porque já são velhos demais para trabalhar e novos para a reforma. Reforma que acabará por nos ser retirada, mais dia menos dia. Esforçamo-nos, trabalhamos, pagamos impostos e acabamos no lixo, onde os velhotes já estão a ser colocados. Compreendo-te, conheço a realidade que contas e tenho a mesma opinião.

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  9. Repito o comentário:

    Aos Deolinda
    Juntou DEMOLINDA
    Aos presentes esfrangalhados
    Juntou esfrangalhados passados
    Tudo cantado
    Num som que não sendo
    de fado
    é mesmo malfadado

    Que espera então?
    Juntemo-nos à nova geração!

    "Após o ciclo Deolinda
    Venham Mais Cinco"

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  10. CARLOS, nessa faixa de idade, o
    bom profissional tem muita experiên
    cia no que faz. Mas, de nada adian-
    ta, pois o condenam pelo avanço dos
    anos.

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  11. Apalaudo de pé, meu amigo, este seu post e a iniciativa!

    bem haja!!

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