sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Esquina da memória (15)


Como jornalista, fui sempre escravo das palavras. Ou melhor: escravo dos espaços por elas ocupados. Muitas vezes me amputaram textos, porque não cabiam no espaço das publicações. Foram prosas mutiladas. Não pela ditadura censória, mas pela regra espartana do espaço. Por vezes revoltei-me, porque o corte amputava os textos da sua faceta sensitiva, tornando a reportagem demasiado fria e assertiva; outras vezes anuí com indiferença e sem qualquer reparo. Nestes casos os textos eram geralmente apenas noticiosos . Quando um editor acredita que cortar um pequeno (ou grande) detalhe na notícia não tem qualquer importância, para quê contrariá-lo?
Como editor , passei a ser algoz em vez de vítima. Também obriguei autores a cortarem os seus textos, tornei-me intransigente no domínio do espaço de uma publicação. Por vezes custava-me fazê-lo, porque sabia que estava a obrigar os autores a mutilar o seu trabalho apenas por uma questão de espaço. Outras vezes fi-lo por dever profissional. Ou porque os textos eram tão minuciosamente explicativos, que se tornavam enfadonhos; ou porque o autor fazia introduções demasiado longas; ou simplesmente porque eram demasiado grandes para as características da publicação. Nestes casos, procurei sempre explicar ao autor que o excesso de adjectivação, as descrições demasiado elaboradas, as introduções disperrsivas, não cabem no espaço de uma publicação periódica e, quando se trata de livros, podem contribuir para o desinteresse do leitor. Normalmente, recorro ao “Pêndulo de Foucault” e à minha experiência pessoal com aquele livro. É, em minha opinião, o melhor livro de Umberto Eco, mas só consegui lê-lo à enésima tentativa, depois de ultrapassar a barreira das entediantes primeiras 60 ou 70 páginas. Uns ficam convencidos perante a minha argumentação, outros nem por isso. Mas já deu para perceber que não foram muitos os que leram o “Pêndulo”.
O único conselho que prometera nunca dar a ninguém, porque também não aceito que me dêem, é que deve escrever textos mais curtos, senão ninguém lê. Ouvir isso é insuportável . Dizê-lo é falta de senso. Um dia destes dei por mim a aconselhar alguém a escrever textos curtos, porque senão as pessoas não lêem. Devo caminhar a passos largos para a senilidade...
Todo este arrazoado para vos dizer que uma das coisas que me delicia na blogosfera é a liberdade de poder escrever sem preocupações de espaço. Sei que textos muito longos podem ser desmotivadores para quem me visita, mas também sei que se alguns desistem de ler um determinado post, muito provavelmente voltarão no dia seguinte para ler outro, porque são leitores fiéis. No caso de se tratar de um leitor que visita o Rochedo pela primeira vez, um post longo pode desmotivá-lo, mas logo a seguir encontra outros posts mais curtos e incisivos, dos quais pode gostar e o levam a tornar-se um leitor fiel.
A inversa ( gostar mais de posts longos) também é verdadeira, por isso os blogs têm essa inegável vantagem de poder agradar ( ou desagradar) a uma vasta audiência, criando um equilíbrio e oferecendo diversas opções aos leitores. É mais ou menos o que acontece com os livros de contos. Uns agradam a um tipo de leitores, outros serão mais apreciados por um público diferente. Há, porém, possibilidade de captar a atenção de mais leitores. O mesmo acontece com um cronista. Até Lobo Antunes- que muito aprecio- tem crónicas menos boas, mas não é por isso que deixo de ler todas as quinzenas as suas crónicas da Visão.
Os blogs não escapam a estas regras. Tenho a certeza que muitos leitores que diariamente me visitam saem por vezes daqui com alguma frustração a pensar “hoje só lá fui perder tempo” ou que grande seca de post”. Provavelmente, alguns pensarão isso deste, quando acabarem de ler.
Sei que não é possível agradar a todos, mas esse também não é o objectivo primeiro de um blog. Pelo menos para mim, o objectivo é escrever sobre o que me dá na real gana, exprimir através das palavras o que me vai na alma. Se conseguir “agarrar” as pessoas, tanto melhor. Caso contrário tenho pena, mas creio que não devo coibir-me de escrever sobre o que me apetece, com medo de desagradar a alguns leitores, porque este é o meu espaço de liberdade total . Essa preocupação fica para os jornais e revistas onde trabalho. O blog é apenas prazer em estado puro.
Como disse há dias Lobo Antunes, " escrever e ler são uma forma de recusar a morte". Espero que compreendam.

17 comentários:

  1. Gostei tanto de ler esta sua crónica, Carlos, que queria ler mais, muito mais.
    Adoro tudo aquilo que escreve, quer seja o texto longo ou curto, nunca é enfadonho.
    Certo é, que nem sempre estou de acordo consigo no que respeita certos aspectos da política europeia ou mundial, mas eu também vejo o mundo com os olhos de MULHER.

    ResponderEliminar
  2. Li o texto "tudinho" e fui acenando com a cabeça a dizer que sim...que concordei consigo em tudo o que disse até sobre o "Pêndulo".
    Não está senil, posso afirmá-lo, caso contrário não escrevia como escreve:):):)
    De que me queixo é que é tão prolífero ( e ainda bem) que não tenho "pedalada" para acompanhar e/ou comentar toda a produção.

    ResponderEliminar
  3. Subscrevo com aplausos

    Que nunca lhe doam as mãos
    e o discernimento

    A liberdade exige gente livre
    Cá estarei

    ResponderEliminar
  4. Para além dessa liberdade de textos grandes ou pequenos, para mim, a melhor parte é desabafar como quando era pequena e tinha um diário, onde escrevia o que queria e quando queria, esperando o oposto... que ninguém o fosse ler, portanto estou vacinada, nunca me pagaram por aquilo que escrevo, assim, essa de agarrar clientela não me preocupa muito... considero isto uma grande diversão e com a grande vantagem de ser gratuita ;)

    Bjos

    ResponderEliminar
  5. Gostei muito desta crónica. Eu não tenho problemas com textos longos desde que o tema me interesse como é óbvio! bjs

    ResponderEliminar
  6. Está bem! mas veja lá se faz uns post(s) mais curtos. Está bem!
    Estou a brincar.

    Abraço

    ResponderEliminar
  7. Se os teus leitores fugirem por causa do tamanho do texto,sem sequer tentarem lê-lo, não vale a pena tê-los como leitores - é esta a minha opinião.
    Viva portanto a liberdade(com responsabilidade)que os blogs nos dão, contrabalançando assim o "colete de forças" dos institucionais:)).Gostei e percebo bem o desabafo, pois já o ouvi muitas vezes aqui ao meu lado!
    Bom fim-de-semana

    ResponderEliminar
  8. Muito gostaria de ter o teu fôlego e a tua capacidade de escrever bem textos longos e curtos...
    Além de não ser uma profissional da escrita sou extremamente preguiçosa para escrever, contudo sou uma boa leitora!
    Dificilmente desarmo perante um livro ou um texto aparentemente mais "enredado"...
    Até hoje só deixei um livro a menos de meio mas talvez lá volte!

    ResponderEliminar
  9. Escreva sempre e muito. É difícil não gostar.

    ResponderEliminar
  10. Uma grande chatisse é quando aqui não há textos novos.

    ResponderEliminar
  11. A prova de que gostamos de ler, de sorrir, reprovar ou aprovar o que aqui escreves, é que somos fiéis leitores do Rochedo. Eu cá não me queixo da quantidade de caracteres dos textos. Os posts devem ser dimensionados pelo que queremos dizer ou desabafar. Uma pequena crítica talvez por achar que há demasiadas publicações sobre política. Fazem-me falta aquelas crónicas quinzenais, mas também não podemos ter tudo, não é?

    ResponderEliminar
  12. Escreve o Carlos:

    "Muitas vezes me amputaram textos, porque não cabiam no espaço das publicações. Foram prosas mutiladas. Não pela ditadura censória, mas pela regra espartana do espaço"

    Escrevo eu:

    A auto amputação é uma mutilação dolorosa para os dois lados: o de quem escreve e o de quem lê... escreverei eu na dimensão do que tiver que ser...

    ResponderEliminar
  13. Se te compreendo! Aliás, penso que acontece o mesmo com todos os que te lêem.

    ResponderEliminar
  14. Excelente. E completamente de acordo. Se no seu próprio blogue o autor se auto censura não faz sentido ter um blogue. Quem gosta gosta, quem não gosta, paciência.

    ResponderEliminar
  15. "dream bigger"
    "BE YOURSELF
    "TELL YOUR STORY"

    A imagem é simplesmente brutal. Encaixa perfeitamente no "espírito" do que escreveu.
    Parabéns, e obrigado por este momento, pela reflexão.

    ResponderEliminar
  16. "dream bigger"
    "BE YOURSELF
    "TELL YOUR STORY"

    A imagem é simplesmente brutal. Encaixa perfeitamente no "espírito" do que escreveu.
    Parabéns, e obrigado por este momento, pela reflexão.

    ResponderEliminar